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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Exercício da não-curiosidade

A curiosidade é o interesse em conhecer algo novo, descobrir informações fora do repertório já sabido. Por isso hoje, decidi exercitar a minha não-curiosidade. Aliás, hoje é um excelente dia para isso.
O Brasil inteiro (cerca de 135 milhões de eleitores aptos a votar) espera com não pouca ansiedade o resultado das eleições presidenciais de 2010. Será o ano em que elegeremos a primeira mulher presidente do país? Não importa. Aliás, isso pouco importa neste momento de tentativas literárias, diga-se de passagem. Agora a questão é: já são sete da noite, daqui a mais ou menos três horas já podemos saber o resultado parcial, segundo o Tribunal Superior Eleitoral, o que mesmo assim não afetará a equação final. E eu vou me segurar. Essa é a proposta.
Ousadia para uma jornalista. Como qualquer um da área, somos formados para escarafunchar a vida, o mundo, o fundo, a lama, o brilho, o escuro e transformar o que não aparece, em notícia. Difícil para uma curiosa nata.  Mas eu vou tentar. São essas possibilidades de quebra da normalidade que insights generosos sobem à tona de profundezas sombrias. Experimente!
Hoje é o meu dia do exercício da democracia imposta (alguma semelhança com o processo de sufrágio terá sido mera coincidência?), da ditadura à vontade – se conseguirei aguentar, não sei. Mas amanhã de manhã cedinho, no jornal que apresento em rádio FM, darei a notícia em primeira mão para mim mesma. Assim como quando passei em pedagogia em Santa Catarina – meu primeiro curso de graduação – eu mesma li no ar meu nome no listão – tão esperado por neófitos no mundo universitário. Emoção no mínimo curiosa que vivi.
Agora é contagem regressiva. Não para o resultado das eleições, mas para saber se darei conta. O que pesa a meu favor? Um texto de Freud, hermético, claro – desculpe o trocadilho infame – que precisa ser lido até amanhã e, um vento primaveril que torna minha corrida habitual irritadiça por conta do friozinho que se faz presente.
Desafio a mim mesma a segurar a onda e não buscar informação nenhuma – nada de Internet, televisão, rádio, telefone, vizinho, sinal de fumaça em azul ou vermelho...Certo que ouvirei espocos de fogos de artifício, mas há algum código para eu decifrar e saber de quem se trata a comemoração?
E nesse desafio da não-curiosidade está a própria curiosidade. Conseguirei?
Ora, pra quê isso, pergunta um internauta lendo esse texto depois de já passado o resultado – do desafio e das eleições – e pra ele tudo esclarecido. Resposta: Brincadeira comigo, desafio de criança, bobagem, pura distração, neuróbica (ginástica dos neurônios), sei lá. Às vezes a vontade é a de desafiar o óbvio.
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Dia seguinte, sete da manhã, sobrevivi. A não-curiosidade dormiu de olho aberto vencendo as apostas, bolões e pesquisas.