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sábado, 21 de abril de 2012

Medicina amorosa


Médico Patch Adams inspirou o filme de mesmo nome
(Foto: autoria desconhecida)

Usamos serviço médico para quê? Ligeiramente a óbvia resposta aparece: para que nos ajude a sobreviver à dor, à doença, aos mal-estares. Então, os médicos seriam indivíduos preparados para grandes desafios: auxiliar pessoas diversas na empreitada da vida com saúde. E se entendemos saúde como algo que envolve o corpo, a mente e o espírito, então praticar a medicina e áreas afins deveria ser, no mínimo, tarefa realizada com afeto e competência.

Durante exames preventivos anuais, atribuí à mesma empresa, do pré ao pós-exame, nota de zero a 10. Os atendentes do cadastro e encaminhamento fizeram o básico, sem surpresas agradáveis ou desagradáveis. Nota mediana para a recepção e bem mais baixa ao setor de entrega de resultados. Porém, ao adentrar o recinto, o valor subiu. A médica que me atenderia deu-me de presente um pacote de educação, embalado com papel de amor.

O nome dela é inesquecível, pois Érico Veríssimo se encarregou de povoar nossa mente com a epopeia de uma de suas personagens. “Oi, boa tarde. Meu nome é Bibiana, eu sou a médica responsável pela sua ecografia mamária”. Ao dizer isso, aproximou-se com um respeito e, ao mesmo tempo, um cuidado ímpares. Colocou a mão sobre mim, sem afetações de intimidade, porém com a sinceridade necessária, olhando-me nos olhos.

Em uma etapa do tratamento de câncer de minha mãe, almejando trocar de médico e hospital, não conhecíamos nem tínhamos indicação de um oncologista. Na primeira consulta com o possível novo profissional, logo entendemos que se tratava de alguém com noção da responsabilidade que ocupava. Fábio Franke nos recebeu de camiseta, tênis e calça jeans, sem jaleco. Cumprimentou-nos saindo de trás da mesa. Na despedida, abraçou minha mãe: detalhe que se tornou uma espécie instantânea de código que significava: é este.

O amigo fonoaudiólogo Gleison Martins, encaminhou-me, em 2003, a uma otorrinolaringologista. Isabelle Kalawatis é dessas médicas que parecem anjos. Ao tentar encontrar o motivo por eu estar com uma rouquidão constante, quis conhecer minha rotina. Depois de me ouvir, como uma psicóloga da alma, questionou-me, delicadamente, se eu não poderia pensar em reprogramar meu dia a dia, para que não prejudicasse a mim mesma. Eu andava trabalhando demais.

É claro que já tive experiências, e muitas, que me fizeram nunca mais voltar ao consultório. Houve uma dermatologista que para identificar o que seria o motivo de coceiras na pele desta paciente, quando me tocava era como se tivesse nojo. Detalhe: a incógnita era exatamente porque não havia sinal externo. Em outros casos, médicos responderam de modo estúpido, ficaram de cabeça baixa ou mirando a tela do computador ao mesmo tempo em que falavam comigo. Por isso me surpreendo ao ser bem tratada. A regra virou exceção.

Quando Bibiana falou com educação e carinho, manteve-se como médica séria, respeitada em seus diagnósticos profissionais. Nada se extinguiu nesse campo. Quando Fábio trocou o olhar costumeiro dos médicos, frio e distante, pelo abraço fraterno, fez nascer uma atmosfera de amor. Quando Isabelle “questionou” minha rotina, olhando com atenção para mim, era mais do que médica, havia ali a verdadeira solidariedade. ( Adriane Lorenzon)

sábado, 7 de abril de 2012

Polígono dos horrores


Rousimar Toquinho (Foto: Josh Hedges)

Outro dia vi uma foto que me marcou profundamente. Depois, passei a matutar sobre o que ela representava. Tratava-se de um lutador, Rousimar Toquinho, em pose, para dizer o mínimo, agressiva. Parecia um macaco, no sentido de nossa ancestralidade primata. Não me refiro à beleza, etnia ou a qualquer aspecto pejorativo que não o quesito simbólico da imagem: aquilo que já fomos, em outros tempos, quando subíamos em árvores. Será que estamos querendo retroceder e caminhar de quatro pés?

Nada contra os bichos. A propósito, adoro os animais e ainda voltarei a ser vegetariana exatamente por amar a bicharada. O que me incomoda e me faz refletir é essa “impressão” de estarmos desejando retornar ao período anterior ao progresso fisiológico (inclusive intelectual) empreendido pela raça humana ao longo dos milhares de anos. É certo: somos muito lerdos. Mas estamos avançando desde a época em que éramos bem mais peludos. Depois, até nosso cérebro evoluiu de tamanho, em todos os sentidos.

Explico: Toquinho luta MMA, do inglês, artes marciais mistas. Apesar de a mídia contemporânea chamar MMA de esporte, não considero como tal. Veja: no passado, a ignorância fazia parte da humanidade de maneira avassaladora, então, “tudo bem” machucarmos os outros. Mas agora, em que avançamos em direitos e deveres e compreendemos, mesmo que em parte, o quanto é importante o respeito ao próximo, seria um novo circo de horrores com o nome de octógono?

Esporte está ligado a atividades físicas para recreação, entretenimento ou mesmo competição, dizem os dicionários. De modo geral, segundo artigos na Internet, as lutas datam da pré-História em que primatas fugiam dos predadores e também lutavam para conquistar territórios. Junto aos egípcios, os enfrentamentos surgiram com fins militares. Na Roma antiga, leões estraçalhavam os primeiros cristãos para divertimento de um público afoito por sangue. Contudo, em nossa era, qual o objetivo de cultuarmos práticas animalescas?

Para mim, o pior é a quantidade de espectadores de eventos que enfatizam a importância do duelo. Galvão Bueno, na estreia do UFC – Em busca de campeões – na tevê Globo, chegou a fazer uma introdução do telespectador ao “esporte” – estimulado como nova sensação brasileira. Um reality show que nem sequer edita cenas que não poderiam ser exibidas – apesar do horário tardio –, de acordo com a Constituição federal. O repórter Jorge Correa, do portal Uol, descreve a primeira noite do programa: “Tivemos nocautes brutais e fulminantes, cotoveladas que desacordaram lutadores, muito sangue”.

É crime atentar contra a vida do outro? Sim, isso se chama (tentativa de) homicídio. Como falar de paz para um filho? Como pensar no fim da violência se ainda fomentamos as dissensões, a discórdia, a animosidade? O duelo é uma dessas instituições bárbaras que temos orgulho de sustentar, assim como a guerra, a corrupção, a hipocrisia. Um dia, certamente, nosso progresso será tanto que sobre esse “esporte” haverá uma vaga lembrança de quando nos equivocávamos. Assim como hoje nos recordamos das atrocidades da Idade Média como algo que insiste em ficar no passado. (Adriane Lorenzon)