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sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Entrevistas malogradas

O multi-instrumentista Hermeto Pascoal (Crédito: autoria desconhecida)

No mundo do jornalismo, a depender do entrevistado ou mesmo do nível de tensão e responsabilidade pelo conteúdo, o jornalista, ao ter agendada uma entrevista, procura descobrir entre os colegas quem já entrevistou aquela figura, autoridade, artista. Quer saber se a criatura é acessível, estrela, objetiva, monossilábica, prolixa – algo que ajude muito ou atrapalhe o resultado. Porém, toda entrevista é uma caixinha de surpresas.

Tem estrela que o repórter aguenta pela cláusula do profissionalismo, porque a vontade do ser mais selvagem que vive nele é dizer poucas e boas. Assim foi com uma ex-colega e o ator e diretor Miguel Falabella, eu com o ator Du Moscovis (que só deve ter sido entrevistado, antes de mim, pela chamada imprensa marrom) e com Ruy Castro, o famoso jornalista e escritor, que, coitado, não sabia o que era educação.

A “rainha das fora da casinha”, segundo ela própria, a repórter Gherusa Cassol, contou-me uma pérola de sua época na RBS TV. A matéria era sobre cultura de feijão e soja, e o cinegrafista Elias Gotaski aplicou: “Esse tio não planta só feijão, ele planta sagu também”. Sem hesitar, a moçoila mudou a pauta e perguntou ao agricultor o porquê de ele cultivar o sagu. E a resposta: “Tu não vais muito pra fora, né, menina”?

Já Mércia Maciel da Rádio Câmara de Brasília lembra que ao entrevistar o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti, lá pelo ano 2000, sobre DSTs, ele lascou: “... porque a espiroqueta da sífilis”... Mercinha segurou uma sonora gargalhada. O “mestre dos magos”, como era conhecido nos bastidores, falava da bactéria Treponema pallidum causadora da doença. Contudo, o ouvinte entenderia?

Entrevistar é entrar em sintonia num bate-papo com alguém. Mas se a coisa deslancha ribanceira abaixo, para voltar ao topo é quase impossível. Para mim, o desastre da não entrevista com Ruy Castro ou o ego inflado dele foi o de menos. Aprendi muito. Agora, entrevistar Tom Zé e Hermeto Pascoal e ser elogiada por eles, não tem preço. É uma questão de valor: vou guardar, não o elogio, mas o incentivo, para o resto da vida. (Adriane Lorenzon) 

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Como serei quando crescer?

(Arte: autoria desconhecida)

De vez em quando me vem à mente a minha vaga imagem no futuro. Como serei quando crescer? Uma das perguntas mais praticadas na infância serve agora em outro contexto e sentido. Como serei quando alcançar a plenitude da vida, a velhice? Como quero ser e o que estou fazendo para me tornar melhor? Serei rabugenta, mal-humorada, fofoqueira? Ou generosa, indulgente, menos reativa, mais compreensiva?

Outro dia tomava o café da manhã no restaurante do hotel, numa cidade em que não há o costume de pessoas estranhas dividirem a mesma mesa, que eu acho o máximo, diga-se de passagem. E uma velhinha de cabeleira alva sentou-se comigo, sem dizer bom dia, com licença, ou um sorrisinho amarelo que evidenciasse civilidade. Em troca, fiz um gesto de que aquilo era absolutamente normal e que ela era bem-vinda.

Como sou socrática até debaixo d’água, fiquei me questionando. Por que alguns idosos são amargos, até meio estúpidos, e outros são tão ao contrário? Resposta óbvia, diz o leitor: porque as diferenças existem em qualquer idade. Daí eu concluo: assim somos se assim nos construímos. Já percebeu que tem velhinho que morre reclamando da vida enquanto outros até o último momento distribuem pílulas de sabedoria?

Como serei quando crescer? Sempre divulguei aos quatro cantos que belíssima mesmo serei aos 60 anos. Idade, em que, imagino, estarei plena, no auge da existência. Talvez eu nem viva até lá e isso seja a maior bobagem. A maturidade nos oferece, aos poucos, uma espécie de riqueza que ninguém nos tira. No entanto, podemos compartilhá-la na maior prodigalidade o tempo todo, basta que estejamos atentos ao nosso redor.

E essa beleza, que se revelará a quem tiver sentidos para captar, virá como consequência do forjar-me ao crescimento, como o ferro ao fogo, o entalhar da madeira. Como eu quero ser quando crescer será como eu quero ser agora. Como está sendo o meu estar no mundo? Se não me conheço a ponto de ir me purificando, o que me espera na velhice? A resposta desse cálculo é subjetiva; também lógica e exata. (Adriane Lorenzon) 

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

O primeiro livro que li

Coleção Monteiro Lobato (foto: autoria desconhecida)

O primeiro livro que li foi a coleção inteira de Monteiro Lobato. Contudo, as primeiras narrativas que tive acesso estavam nuns disquinhos coloridos, em LP, como Os Três Porquinhos, Cinderela, Branca de Neve. Eu apreciava muito quando a professora Ione permitia que eu ficasse ouvindo esses contos em vez de ir para casa mais cedo. Sozinha na escolha das histórias, eu me sentia o máximo em comandar as pick ups.

Mais tarde, veio a coleção Cachorrinho Samba de Maria Jose Dupré. Uma turma que se metia em trapalhadas, sempre acompanhada do cãozinho schnauzer. Um passo à frente, era hora de ler A Serra dos Dois Meninos de Aristides Fraga Lima. E, aos poucos, Érico Veríssimo se impôs na vida estudantil. Ler Érico Veríssimo no Sul do país era algo que facilitava a entender o contexto – a coxilha, o minuano, os castelhanos...

Na adolescência, eu era rata da Biblioteca Pública Municipal de Tenente Portela (RS). Aos 13, 14 anos, convivi com Niles, a bibliotecária. Pessoa formidável que compartilhava comigo pílulas poéticas. Quando pensava em ir à Biblioteca, já sabia que teríamos um momento só nosso, de pura emoção. Líamos de tudo quanto é poeta – em voz alta. É desse tempo que conheci Luiz de Miranda, Mario Quintana, Hilda Hilst.

Anos depois, atuando como entrevistadora, tive a oportunidade de conversar sobre o primeiro livro da vida de diversos escritores brasileiros. Entrevistei Moacyr Scliar, Mary Del Priore, Eva Furnari, Milton Hatoum, Zuenir Ventura, Martha Medeiros... E todos tinham alguma peripécia para contar de suas experiências com o livro na infância. Isso foi no programa Quando Eu Era Criança da Rádio Câmara de Brasília. Valeu, Humberto!

Para mim, é impossível esquecer o furor que alguns personagens causam ao longo da vida. Imaginar o Saci rodopiando na cozinha do Tio Barnabé, e recordar de outros mais intensos, como Dom Quixote e Diadorim, é algo que ficará para sempre. Agradecida estou por amar a leitura e a escrita desses homens e mulheres que transformam meus textos, meu sentir, meu viver. Caro leitor, qual foi o primeiro livro que você leu? (Adriane Lorenzon)

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Famílias de hoje

Livro: The family book de Todd Parr

Quem não se lembra das fotos antigas de família com uma escadinha de filhos? O pai com a cara séria de provedor, e a mãe, como uma madalena arrependida; afinal, mãe de família devia se comportar, podia ser mal-interpretada. Nos tempos dos meus avós, cada núcleo tinha uns 14 filhos. Uma penca que servia de modo útil e conveniente aos pais. E não havia tempo para o afeto, o cuidado, a dedicação aos pimpolhos.

Na era de meus pais, nasceram poucos filhos. Lá em casa, apenas três. Só alguns tios se arriscaram a imitar os coelhos. E o afeto começava a aparecer na rotina diária. Hoje, todos vivemos em pequenas famílias, algumas até sem filhos, e o cuidado e o carinho ocupam um bom lugar em todas as peças da casa. As coisas mudaram, e família, com F maiúsculo, é artigo de luxo na sociedade, exigindo além de tudo, respeito e diálogo.

Tem gente teimando que família é aquela tradicional em que o homem é quem manda no negócio. Não é bem por aí. Muitas famílias estão de pé por causa da bravura das mulheres. Outras tantas são compostas por dois pais, duas mães, pai e filho, mãe e filho, tem avó que é mãe e pai, tem criança parindo criança, tem gente solitária que encontrou sentido em viver com a companhia de um bichinho de estimação... Tem de tudo. É a vida! “Existimos, a que será que se destina”, pergunta Caetano Veloso.

Nesse sentido, já na infância, conheci famílias diferentes. Uma, o pai era caminhoneiro e sempre voltava para casa com presentes. Outra, sem prole, o marido era violento e sofria de alcoolismo – ainda não classificado como doença; era sem-vergonhice, diziam. Na adolescência, a família de um amigo homossexual o aceitava em sua orientação. E, mais tarde, um cara com cinco filhos vivendo com ele, resolveu se casar de novo. Detalhe: a nova mulher também trazia um punhado: seis filhos. Ô coragem!

Para mim, família é o desafio diário do afeto, do perdão, da paciência. Não importa se tem mãe, pai, irmão. De que adianta a velha tradição, com cachorro e papagaio inclusos, se não há respeito? Melhor dois pais amorosos do que nenhum ou um violento. Simples assim. Ah! Mas a hipocrisia, embora resista às novas formações familiares, aos poucos, começa a amolecer o coração frente às evidências do amor. (Adriane Lorenzon) 

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Dia do professor

(Arte: autoria desconhecida)

Todo mundo sabe que ele é importante, de longo tempo na História. Não tem engenheiro, advogado, grande empresário ou médico, com título forçado de doutor, que não tenha passado pelas orientações dele. Até aqueles que não subiram na escala hierárquica fosforescente das profissões, para aprender fazer um calculozinho qualquer ou uma pequena redação, precisaram dele em algum momento da vida.

Antes, o mestre era bancário, depositava informações na cabeça da criança. E o aluno que se danasse a achar espaço na mente. Com a evolução da humanidade, o professor tornou-se educador. Algo muito mais complexo, porque ajuda o outro a desenvolver habilidades físicas, intelectuais, morais, ecológicas, emocionais, espirituais... E quantos reúnem condições psicológicas para se dedicar às suas subjetividades e às dos pupilos?

Tenho observado e me questionado acerca do lugar ocupado pelo professor hoje no Brasil. De modo geral, pode-se dizer que esse posto, nada louvável, é o lugar da queixa. A poltrona mais cobiçada, badalada e confortável da sala dos professores. Nela, reclama-se de tudo, menos de si mesmo – porque o “eu” não tem nada a acrescentar, já fez tanto e tão bem, que agora, só espera a aposentadoria...

Uns lamentam que tudo é jogado em suas costas e a sociedade e governos deveriam oferecer justas contrapartidas. Concordo. Porém, não enxergam que a lamúria por si só é vazia e não traz conquistas nem avanços. Ademais, ninguém deveria desconhecer as características do ser professor. No século XXI, é bem diferente de outros períodos da História: as competências se ampliaram e a função social do professor também.


Sim, reconheço seus limites, dores, esforços. Todavia, fragilidades estão expostas. Em especial, aquelas suscitadas por uma cultura vitimista, que sempre vê no outro a responsabilidade pelas mazelas – neste caso, o governo, o prefeito, o ministro, os alunos, a secretária, a diretora, os pais... Claro, todos esses têm seu papel. Mas e o nosso, colegas? Quando teremos a certeza de que ser professor é uma escolha pessoal e intransferível? Assim, a partir desse entendimento, tudo o mais se descortinará. (Adriane Lorenzon)

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Cadê eu?

(Arte: autoria desconhecida)

Com o advento das redes sociais, o Facebook, em especial, todo mês de outubro é a mesma coisa. Os perfis se transformam com as fotografias fofas de nossos amigos da época de criança. Tem marmanjo que não mudou nadinha. A cara é de um e o focinho também. Na hora dá para detectar que o rosto é nosso velho conhecido. Tem bebê de colo, no berço, engatinhando, com animais de estimação, com os pais, na bicicleta...

Quanto a mim, quase não tenho fotos da infância. Embora isso esteja resolvido, sinto uma vontade danada de saber como eu era. Eu sei que eu seria como todo mundo, igualzinha ao que sou agora. Mesmo assim, essa outra Adriane, perdida num passado distante, me fascina e instiga a recordação que, às vezes, traz à tona imagens sem negativos ampliados. Quiçá, poderei descrevê-las, para o deleite dos psicanalistas...

O retrato mais antigo que tenho de mim, eu não apareço nele. Explico. Trata-se de um 3 x 4 de minha mãe grávida de mim. Mas euzinha só vou aparecer numa foto do meu batizado quando tinha seis anos, em 1978. Em pé, de vestido rosa-bebê, tento me equilibrar de cabeça para baixo na pia batismal. De novo não apareço na foto, quem se destaca é o padre. Contudo, depois tiramos uma com D. Maria e seus três filhotes.

Muitas famílias guardam fotos dos filhos montados num cavalinho de brinquedo. Já viu? Os fotógrafos eram uma espécie de vendedores de sonhos. Como os mascates que vendiam de tudo pelos rincões do Brasil, os retratistas ofereciam essa futura viagem ao passado impressa no papel. E todo mundo queria aproveitar a estada deles na região para registrar as lembranças, ainda que fossem nos pequenos monóculos...

Recentemente, apareceu outra, de 1977, postada pela querida Geovana Lang. Alheia ao desfile de Sete de Setembro, minha roupa é alaranjada, diferente do azul e branco predominante. Geovana afirma que a moreninha de farta cabeleira sou eu. Será? Minha mãe explicava que não existia o hábito de fotografar, como na atualidade que todos temos uma câmera à mão. Tirar foto era o evento. Porém, no fundo, no fundo, lá onde o tempo faz morada, sinto falta da memória dissipada no esconderijo dos dias. (Adriane Lorenzon)

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Meu Guri

(Foto: autoria desconhecida)

Da primeira vez que o vi, ele era só um cachorro. Assim, de longe, não consegui divisar ao certo se se tratava de um cachorro, cachorro, ou de um ser mais que especial escondido na pele de um Canis lupus familiaris. Só sei que me encantei ao primeiro aproximar nosso. Foi lindo e eterno enquanto durou. Surpreendentemente, depois se repetiu. E como o ser humano necessita nominar tudo, vou chamá-lo de Guri.

Quando cheguei até ele, estava sentado nas patas traseiras e, com um sorrisão, disse: “Oi, eu tô aqui”. Comunicação posta, dei prosseguimento ao diálogo. Monólogo não combinaria com a ocasião. Então, minha vez: “Oi, você é muito lindo”! Como resposta, deu-me a patinha esquerda depois de tentar uma, duas vezes, até acertar na minha mão. Rolou uma troca de energia indispensável para quem acaba de se conhecer.

Enfim, um encontro de almas no hall da faculdade em que sou professora. Acredita que se colocou ali e não queria mais sair? Não tínhamos, eu e os demais, um pedaço de bife sobrado do almoço nem um pouco de leite – foi o que me ocorreu, sempre tive gatos que apreciavam o branquinho –, muito menos um punhado de ração. Pensando bem, vou levar nas minhas viagens ração para cães e gatos no carro. Nunca se sabe...

E toda vez que tentávamos dissuadi-lo de ficar ali, Guri entendia que era brincadeira, e queria pular, mordiscar nossas mãos – mas não havia violência nele, apesar de que, sendo morador de rua, já deve ter sofrido poucas e boas. Não parecia esfomeado, nem era magro, nem com aparente doença de pele. A cor mel do pelo combina tanto com o olhar de desentendido que está sacando tudo. E foi ficando, até quando tive que...

Ah! Esses amores que são meio assim: chegam pra ficar na vida da gente. Noite dessas, aconteceu de novo, e eu cada vez mais apaixonada. E Guri sabe disso. Fica me olhando de um jeito que eu me derreto – sentado nas patinhas traseiras e sorrindo o riso largo da comunhão. Com o coração partido, para poder tirá-lo do saguão saí correndo brincando, provocando-o, para ver quem ganhava a corrida. E não é que ele venceu? Agora eu fico assim, meio sei lá, lembrando-me do sorriso mais sincero que já vi. (Adriane Lorenzon)

domingo, 29 de setembro de 2013

Lenço nos olhos

(Charge: Bier)

Ao publicar esta crônica, sinto que estou cutucando a onça com vara curtíssima... E se descobríssemos um lugar que comemorasse, anualmente, infortúnios tipo o massacre de minorias nos campos de concentração alemães, ou chacinas como a dos presos do Carandiru em São Paulo? As pessoas, de modo geral, não teriam passado do nível básico acerca do porquê daquilo. Lá, estaria a mídia, favoravelmente cobrindo.

Isso foi só uma reflexão inicial. Corta. Perto de nós, no Rio Grande do Sul (e por onde mais se espalha a gauchada), não são festejadas as mortes citadas. Contudo, celebra-se a Revolução Farroupilha (1835-1845) e, consequentemente, as mortes, desgraças, torturas, conchavos daquele período. Quem participa da festa setembrina sabe que o que menos se quer nos acampamentos farroupilhas é estudo, pesquisa e meditação.

Não sou contra que as pessoas se divirtam, entende? Aliás, a alegria é sempre bem-vinda. Que comam o prato preferido, recitem poemas, vistam a bela pilcha, tomem o chimarrão. Porém, compreendendo o que isso representa. Até imagino um sábio historiador contando causos nas rodas de acordeona, e os peões e prendas indecisos entre tirar o lenço dos olhos e seguir abraçados às ilusões da versão oficial dos fatos.

Para mim, é angustiante a falta de consciência e questionamento quase que decretada sobre as vitórias e derrotas ocorridas nos pagos do Sul do país. Lacuna essa reforçada por escolas, poderes públicos, formadores de opinião... Destaca-se a bravura do povo, as epopeias, as conquistas, mas pouco se declama criticamente a respeito dos insucessos e equívocos, como a “trairagem” contra os bravos Lanceiros Negros.

Talvez porque o ser humano ainda necessite vangloriar-se com suas pretensas grandezas, camuflando o que nos envergonharia. O engraçado de tudo isso, para não dizer trágico? É que o cidadão gaúcho, considerado, muitas vezes, por si mesmo, como o mais politizado do país, num contrassenso, esbarra nessas pegadinhas que o enredo contado pelos vencedores e seus asseclas sempre terá um novo capítulo a distorcer. (Adriane Lorenzon)

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Por uma alfabetização integral



 (Arte: autoria desconhecida)

Antes, o que assustava intelectuais, alguns políticos e a própria sociedade era a imagem de um analfabeto manchando a ponta dos dedos com tinta para assinar um documento. Hoje, isso ainda surpreende, mas temos evoluído e exigido um pouco mais de nós mesmos; agora, é de se apavorar também quando encontramos um analfabeto funcional: indivíduo alfabetizado e que não consegue ligar o texto às entrelinhas.



Em setembro, no dia 8, é comemorado o Dia Internacional da Alfabetização, para lembrar o significado de aprender a ler e escrever. Como salientei, não é só isso. Ao juntarmos as letras numa palavra, numa frase, num texto, precisamos fazer as devidas conexões com a vida concreta. Senão, corremos o risco de o mundo enfraquecer em seu intento pela paz, pelo desenvolvimento, na compreensão e autonomia dos povos.



De acordo com a Unesco, atualmente, 84% da população mundial pode ler e escrever, diferente dos 76% de 1990. Dados de 2009 apontam que 793 milhões de adultos carecem de alfabetização básica – na maioria mulheres. E mais: 67 milhões de crianças em idade escolar e 72 milhões de adolescentes não estão matriculados. Entenda, a alfabetização é um direito humano, idêntico à liberdade, ao respeito, à segurança...



Nesse contexto, surpreendente mesmo é conhecer educadores que se esmeram em uma prática educativa de alfabetização emocional. Não apenas nos anos iniciais da educação básica, mas em toda sua vivência como professor e ser humano que é. Tal projeto valoriza as emoções e os sentimentos do indivíduo, isto é, suas subjetividades – complexas e distintas do pensamento exato e compartimentado de até então.


Assim, nas sociedades dos séculos XIX e XX não havia espaço para as incompletudes, limitações e virtudes humanas. Com o século XXI a todo vapor, bit e byte, somos forjados à cooperação, ao autoconhecimento, à compreensão, ao respeito às diferenças... Desse modo, a alfabetização é o elemento propulsor desta grande rede internacional em que a integração e o diálogo são imprescindíveis. Salve, século XXI! (Adriane Lorenzon)

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Independência ou...

(Arte: autoria desconhecida)

Quando o país se encontrava às margens da bancarrota com a inflação lá em cima e inúmeros empréstimos tomados do Fundo Monetário Internacional, o temível e terrível FMI, os movimentos sociais diziam que precisávamos nos independentizar dessa extorsão. Aos poucos, o Brasil se fez “livre”, então, de instituições e países com generosidade duvidosa. E o tema da independência parece ter se arrefecido...

Todo dia 7 de setembro é a mesma coisa. Durante a semana, um documentário na tevê paga ou pública sobre a história do Brasil; nas escolas, talvez, um apanhado do que é a data que lembra o ano de 1822; no dia, a mídia transmite os desfiles comemorativos e alguns grupos manifestam-se contra um fato ou medida do governo de sua época. Para 2013, as massas prometem invadir as cidades: “Vem pra rua”!

Falando nisso, em diversas localidades brasileiras, desde os anos 1990, entidades sociais realizam o Grito dos Excluídos na Semana da Pátria. O manifesto convoca a sociedade a refletir sobre a exclusão social no Brasil e culmina no dia 7 objetivando, segundo o site gritodosexcluidos.org, transformar a participação passiva da população nas comemorações dessa data em cidadania consciente e ativa. Da hora, não?

Mas de qual independência estamos falando? No portal há uma pista: “A verdadeira independência passa pela soberania da nação”. E o que é um país soberano? Aquele que “costura laços internacionais e implementa políticas públicas de forma autônoma e livre”. Em que organizações variadas da sociedade, incluindo o Estado, e a população inteira se esforçam solidariamente para construir uma vida digna e justa para todos...

E tem mais, ainda que seja o repeteco da mesma lição que sabemos de cor: a única forma de nos independentizarmos efetivamente, tornando-nos autônomos, é pela educação. Uma educação libertária, que estimule o despertar da curiosidade, da própria autonomia, da reflexão, da afetividade, do autoconhecimento... Bem, se sairmos da escola tendo aprendido a reflexionar, já seremos uma pátria de verdade. (Adriane Lorenzon)

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

O julgamento de Tom Zé

Tom Zé e a arte que lembra seu julgamento no Facebook (Arte/foto: autoria desconhecida)

Já faz tempo que eu quero abordar a polêmica envolvendo o músico Tom Zé e os fãs dele. Contudo, para comentar assuntos controversos há que se ter ou se construir certa habilidade. Senão acontece aquilo que presenciamos nas discussões envolvendo futebol, religião e partido político: mera retórica, discurso vazio, ou seja, não servem para nada, a não ser para fomentar inimizades e acaloradas defesas egoicas.

Como diz meu irmão de alma, o escritor Ruy Godinho, o lance é o seguinte. Tom Zé é um dos representantes do Tropicalismo – movimento político, cultural, artístico surgido durante a ditadura militar brasileira, em 1967. O que resultou numa mudança plástica das artes, em especial, a música, não só com guitarras e misturas da ordem do sincretismo cultural, mas com a postura de vanguarda e contestadora dos integrantes.

Em 2013, Tom Zé aceitou convite da Coca-Cola para gravar com sua voz um comercial da Copa. Como cachê, recebeu R$ 80 mil. Todo mundo ficou sabendo. Inclusive o seu público que, segundo dizem, o reverenciava por ser esse eterno revolucionário da música e dos padrões estéticos. A questão é que estética não coloca o pão na mesa, e o cara sempre deu duro para sobreviver fazendo música de qualidade superior.  

Em seguida, a turba se enfureceu e decretou o julgamento de Tom Zé, assim, na boa. “Uma ‘trollagem’ babaca”, segundo o crítico musical Regis Tadeu. Com isso, Tom Zé fez até uma música chamada Tribunal do Feicebuqui. A acusação? O músico teria se vendido ao capitalismo ianque por um punhado de dólares. Perguntinha que não quer calar: e a liberdade de expressão? Chantagem barata desses fãs intitulados cult, viu!

No fim na história, não é que Tom Zé doou o dinheiro? As notinhas foram parar numa instituição de música de Irará (BA), seu rincão natal. Como diria um sábio das antigas: “Nobre é dar do que não se tem”. Mas convenhamos! Discurso certinho prescrito por uma sociedade boçal dá nisto: um espetáculo patético. O pior de tudo é um bando de estúpidos ditar o que Tom Zé deve ou não fazer, pensar, sentir... Te amo, Tom Zé! (Adriane Lorenzon)

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Passado presente

Capa de CD produzido pela rádio Eldorado (foto: autoria desconhecida)

Primeiro, eu não achava nada. As aulas de história eram sempre sobre a história dos outros – de um bando de gente que eu não conhecia, que até já tinha morrido. Então, eu tinha mais é que decorar aquele monte de coisa que acontecia no mundo – que não era meu éthos, do original grego, que não era minha casa – para passar nas provas bimestrais e no terrível exame final. E passava, porque se dispensava a reflexão.

Depois, muito tempo depois, descobri que havia uma relação entre mim e todos os outros habitantes dessa bolinha azul de sete bilhões de criaturas – diferentes e conexas. Descobri que esses indivíduos eram parte da mesma casa, que é a Terra. E aí passei a me interessar. Simples assim. Aliás, se rolava conexão, havia interesse em mim. O outro e o eu eram parte integrante de uma mesma orquestra sinfônica.

Nessas aulas da infância, o dia 13 de maio era apenas o Dia da Abolição da Escravatura no Brasil. A bambambã heroína era a princesa Isabel. E os milhares de irmãos que haviam sido escravizados, desrespeitados, subjugados, humilhados, mortos, retirados à força de sua própria vida com o ódio atávico nos olhos do capataz e do senhor do açoite, esses pareciam coadjuvantes de uma grande ópera trágica dos palcos.

Agora, procurando por datas comemorativas ou que prestam homenagens, descubro que a Unesco criou, em 1997, o dia 23 de agosto como Dia Internacional da Lembrança do Tráfico de Escravos e sua Abolição. E já com algum lastro experiencial sobre o valor e o respeito do outro, que é também eu, relaciono o porquê da importância de entender o passado e reflexionar sobre os fatos que nos antecederam historicamente.

Quando conhecemos o pretérito e fazemos as devidas ligações com a atualidade, conseguimos compreender temas polêmicos como a reforma agrária, as cotas sociais em universidades e a devolução de terras indígenas aos verdadeiros proprietários – ainda que isso fira interesses particulares de gente de bem, bem-estabelecida na vida. Revisitar o passado, sim; não para sofrer de novo o sofrido, mas para não deixar nunca mais que a ganância e o desamor de uns se fortaleça e se imponha em todos. (Adriane Lorenzon)

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Eterna estudante



(Arte: autoria desconhecida)

Sempre amei estudar. Não sei qual estímulo recebi nem como isso se fez em mim. Provavelmente, essa história começou com uma provocação na infância e, depois, cresceu numa grande confluência de motivações. A propósito, muitos de meus professores não tinham habilidade para auxiliar nesse despertamento. Ademais, a ditadura militar, a sociedade machista e influências culturais estimulavam o contrário.



Claro, algum professor deve ter exercido papel fundamental para hoje eu ter um coração de estudante. Sou ávida por conhecer, descobrir, escarafunchar. Não me contento com pouco, quero sempre mais, saber algo que me complemente e me torne melhor – está na minha alma e na minha digital profissional. Como não saberei tudo, edifico-me eterna estudante. Impossível a completude? Bora recomeçar!



Nesse sentido, minha família e o clima lá de casa durante a meninice e adolescência contribuíram sobremaneira para esse meu gostar. Livros de Monteiro Lobato; gatos e cães nos ensinando sobre respeito e cuidado; sem tevê, jornais ou revistas infantis, muito menos canetinhas coloridas – só o velho rádio de pilha. O que mais havia não era material, mas o incentivo ao estudo, que nunca desistíssemos do aperfeiçoamento.



A mensagem ficou. É até óbvia, porém extremamente necessária ser ouvida diversas vezes quando criança. Ali, a gente vai gravando e selecionando o que será de suma importância nas decisões da vida, na escolha dos caminhos. Afinal, o que fica é o que reunimos em nós e distribuímos ao mundo. Ao morrer, não levamos nada – apenas os bem-fazeres e delicadezas que ofertamos e a ternura que nasce em nós...


Como diria Leonardo Boff, sou aprendiz e aprendente. Passo a vida buscando me graduar à altura de mestres inspiradores como Rubem Alves, Gandhi, Eduardo Galeano, Francisco de Assis... Não porque me reconheço no mesmo patamar deles. Contudo, é nesse apoio e suporte que encontro ressonância. Esses caras vão me ajudando e eu vou tentando nesse meio tempo dar a mão a quem por mim passar. (Adriane Lorenzon)

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

O chacoalhão do papa Francisco

Papa Francisco (foto: autoria desconhecida)

Sim, reconheço que a visita do papa Francisco ao Brasil tenha sido importante sob diversos aspectos, como os evidenciados em pregações dele. Improvável também não se render ao carisma peculiar dessa autoridade religiosa. Porém, o que fica retido em mim é a imagem do chacoalhão bem-dado por Francisco nos seus correligionários da Igreja. Observemos as declarações dadas ao programa Fantástico da tevê Globo.

Simplicidade. Declarou (e mostrou) que usa um carro simples, aqui ou acolá, “do tipo que qualquer um pode ter”. E foi apertando o calo: “Penso que temos de dar testemunho de certa simplicidade – eu diria inclusive de pobreza”. Ora, o que são os templos católicos? Casebres? E a Cúria sendo alvo de escândalos como as acusações de lavagem de dinheiro, que parece? Assunto indigesto, ou é impressão minha?

Coletividade. A opção em viver na residência Santa Marta em vez do apartamento papal, foi, segundo Francisco, por “razões psiquiátricas”, disse bem-humorado. “Preciso do contato com as pessoas.” Viver em Santa Marta significa “não ter que estar sofrendo essa solidão que não me faz bem”. E explicou: “Não posso viver só, não posso viver fechado”. Aqui, bem no fundo, até a clausura da Igreja está sendo questionada...

Humildade. “Não tenho medo. Sei que ninguém morre na véspera. Quando for a minha vez, o que Deus permitir, assim será.” Ao conhecer o papamóvel cercado de vidros que seria usado no Brasil, perguntou-se: “Se você vai estar com alguém a quem ama, (...) você vai fazer essa visita dentro de uma caixa de vidro”? Isto é, “ou tudo ou nada”, afirmou categórico. “Ou se faz a viagem como deve ser feita, com comunicação humana, ou não se faz.” E completou: “Vim visitar gente e quero tratá-la como gente”.


Proximidade. “Porque a Igreja é mãe, e nem você nem eu conhecemos uma mãe por correspondência. A mãe dá carinho, toca, beija, ama.” O que é isso senão um chamamento para padres, bispos, leigos estarem mais próximos das pessoas, sendo amorosos e dando exemplos de devotamento, inclusão, RESPEITO, não julgamento e carinho ao mundo – INCONDICIONALMENTE, assim como ensinou o modelo maior de amor: Jesus Cristo? Para mim, algumas coisas são tão óbvias, mas tão óbvias... E para você? (Adriane Lorenzon)

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

A solidão de acordar cedo

(Foto: autoria desconhecida)

Longe de mim a insônia, contudo tenho o hábito de levantar cedo. Aliás, despertar também. Antes de pular da cama, estou de olhinhos bem abertos, adivinhando figuras no escuro da noite. Muitas vezes, escuto galos a cantar, cães e seus latidos amedrontadores, corujas dando um último rolé na madrugada; e a moto do jornaleiro, o apito do trem ao longe... Além de sabiás e tico-ticos prenunciando a alvorada.

Ao computador escrevendo e produzindo logo cedo, de vez em quando olho em direção à janela para ver se o dia finalmente apareceu. A noite é como um filho à espera da mãe que nunca chega do trabalho. Então, mirando a janela, o escuro ainda se faz negro. Entretanto, quando vislumbro no horizonte os primeiros raios de sol, a manhã que principia, ouço o alarido dos pássaros, é como se algo me acalentasse.

Nessas horas – cinco ou seis da matina – sinto uma vontade louca de ligar para os amigos distantes. Sempre tem alguém espalhado por esse mundão, que eu adoraria estar conversando naquela horinha exata que meu coração está mais aberto ao diálogo fraterno, às elucubrações pueris, à construção de projetos de mundo melhor. Mas todos estão dormindo ou achando curtíssimo o período na horizontal.

Minha mãe costumava me ligar cedinho. Seis e meia da manhã tocava o telefone. Eu, no Planalto Central; ela, na fronteira gaúcha. Além de sua terna voz, ouvia o ronquinho da bomba de chimarrão, só para me provocar – dizia. Sem pretensão, contava-me que estava ouvindo música clássica ou o canto dos pássaros. Minha gata Penélope, outro amor de uma vida inteira, também não deixava por menos nessas horas. Miava insistentemente, queria companhia – estava cansada de curtir a escuridão sozinha.

O princípio do dia me dá ânimo para produzir compulsivamente – e ponho-me a escrever nesse mar revolto que é a vida. Construo moinhos de vento com meu amigo Cervantes, rego as rosas do jardim auxiliada pela mão iluminada de Exupéry, e vou me dando conta de como é solitário, porém extremamente produtivo, acordar cedo sem encontrar ressonância disponível nas redes sociais, ao alcance do celular... E solidão por solidão, o poeta Camões já dizia que é solitário [até] andar por entre a gente. (Adriane Lorenzon)

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Inverno sem glamour

(foto: autoria desconhecida)

Observadora, sempre me questiono como os agricultores sem muitas posses e confortos sobrevivem ao terrível inverno. Por gostar do campo – que depende da estabilidade climática para o plantio ou colheita – e viver viajando por essas estradas, basta mudar o tempo para eu me ligar na previsão meteorológica da região em que me encontro. É frente polar ou fria? Se frente polar em cima de frente polar é de lascar. Como é que se vai para a roça, tirar leite, lavar aquela imensidão de roupas acumuladas na estação gelada do ano?

Lembro-me de uma tia contando que falta roupa nos dias chuvosos do inverno gaúcho. O vestuário não é lavado porque não seca e, se lavado e secado à força, fica malcheiroso. Como está molhado e, muitas vezes, cheio de lama e sujeira, o montinho vai crescendo no cesto. Logo, as doações de agasalhos são sempre bem-vindas: para usar na lavoura, no curral, no almoço, ou mesmo para o culto de domingo. Uma espécie de uniforme trocado diariamente.

Há ainda os pequenos produtores muito pobres que dependem da ajuda dos outros para aliviar as dificuldades causadas pelo inverno. Aguardam ansiosos por um cobertor, um pacote de arroz ou farinha. Sem esquecer que a agricultura depende basicamente dos humores de São Pedro. Se chover muito é ruim, se chover pouco desagrada, se fizer muito sol queima o broto, se formar geada queima também, se for a geada negra então... O equilíbrio dos dias e da farta safra depende de muito trabalho, do Senhor Tempo e de um pouco de sabedoria...

Tem uma história que ouvi na infância, que durante um inverno de seca tremenda no Sul do país, um agricultor do Paraná não teve dúvida: foi acertar as contas. De arma em punho, em direção ao céu, no meio da lavoura morta pelo sol (e pelos agrotóxicos, desmatamento e a terra esgotada pela monocultura), disparou contra Deus. O barulho ressoou no horizonte sem resolver o problema. Deus deve ter optado por despertar outras aprendizagens.

Alguns agricultores têm dificuldade de planejamento. Lá isso é. A necessidade de estocar, de se precaver para a escassez, buscar auxílio antes de o problema chegar – como na fábula da cigarra e da formiga. Contudo, vamos abandoná-los à própria sorte? Cadê a solidariedade e a fraternidade? Certamente há em nossos armários uma peça para doação que fará a diferença. Hoje o apelo é para os irmãos da zona rural, mas siga seu coração e doe para quem possa compartilhar a peça o mais breve possível. O frio, assim como a fome, tem pressa. (Adriane Lorenzon)

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Dia do homem

Gianecchini: eu cuidava direitinho (Foto: autoria desconhecida)

Quinze de julho é o Dia Nacional do Homem. A ideia principal, desde os anos 1990, não tratou de garantir direitos a homens oprimidos, como é o caso das motivações da data da mulher. O que pegou por aqui foi a necessidade de advertir indivíduos Y e toda a sociedade sobre a importância de tratar da saúde do homem: dos meninos, rapazes, homens-feitos, até dos vovozinhos. Aliás, todo ser humano merece o cuidado à vida.

Segundo o Instituto Nacional do Câncer, o tumor de próstata é uma das causas mais frequentes de mortes entre os homens. A propósito, quantos homens você conhece que são pró-ativos e vão ao médico? Com uma perspectiva de vida menor, o homem é acometido, com maior incidência, por infartos do miocárdio e acidentes vasculares cerebrais. Além disso, as mortes por crimes agravam as baixas masculinas.

Nossos amados homens, entendedores de que sempre detiveram uma espécie de invencibilidade gravada em seus corações e mentes, confundiram-se ao longo da História. Esqueceram-se que eram frágeis e que seus corpos, tão perecíveis quanto quaisquer outros, poderiam adoecer. Assim, organizações ligadas à saúde abraçaram a causa de ajudá-los a perceberem sua porção de falibilidade. E não doeu quase nada.

Seguindo para o lado do bom humor, conte-me se você já viu um homem resfriado. Ou com um simples e rápido mal-estar. A cena é, no mais das vezes, patética, trágica, cômica. Homens adoentados viram indefesos guris porque, talvez, vislumbrem uma rara oportunidade de deixar as emoções e a humildade aflorarem. Então podem aceitar auxílio, proteção, socorro, caldinhos e cuidados. E quem não gosta?

Nesse sentido, o dia em homenagem aos homens serve para buscarmos alcançar uma vida digna para todos, homens e mulheres, independentemente das características que nos personalizem. Pensemos que as datas comemorativas são usadas, geralmente, para lembrar a população que um determinado público carece de atenção, em algum aspecto. Chegaremos ao dia que não teremos o dia da mulher e o dia do homem, mas o dia do ser humano – enfatizando a nossa condição comum, a nossa humanidade. (Adriane Lorenzon)

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Mais do mesmo

Fátima Bernardes e Gusttavo Lima (foto: autoria desconhecida)

Assistir à Fátima Bernardes, dita jornalista respeitada porque... ah, porque cobriu não sei quantas Copas do Mundo e foi âncora oficial do maior telejornal brasileiro – dizem, dançando músicas de rasíssimo valor artístico, como Gatinha assanhada, cantada ao vivo por Gusttavo Lima no programa Encontro, é constatar que “alguma coisa está fora da ordem”, como canta Caetano Veloso, ou que nos enganaram e que esse tipo de jornalismo representado pela citada profissional não é tão elevado assim.

Antes da estreia, o tal programa era divulgado como fantástico, quase de outro mundo. De “um programa só de Fátima Bernardes”, com tanto talento, credibilidade e competência, não poderíamos esperar algo mais extraordinário. Desculpe, caro leitor, mas quando assisti ao Jornal Nacional a imagem jornalística da moça nunca me passou credibilidade nenhuma. Não estou falando do ser humano por trás da comunicadora. Apenas do que ela construiu transmitindo o noticiário televisivo como jornalista.

A propósito, foi-nos dito que devíamos render graças e loas a tudo o que fosse exibido na televisão. Aprendemos que os que apareciam nessa caixinha eram muito especiais, inteligentes e, de alguma forma, bem-afortunados por conviverem com estrelas e entrevistarem, ainda que tolamente, autoridades e celebridades. Isso constituía um pedestal indestrutível que jamais conseguiríamos alcançar – tamanha a nossa pequenez diante de uma figura de “alta superioridade”: o “supremo suprassumo”.

Pensemos. Maior telejornal, em que sentido? Em alcance junto a maior parte da população. Em que condições a Globo conseguiu isso? Ah, sim, com favoritismos junto a governos e políticos. Bem-afortunada? Uma das características da televisão é criar falsas impressões... Programa diferente? Em quê, se toca praticamente as mesmas músicas que os veículos comerciais, se sorri o sorriso de craquelê como a maioria dos apresentadores, se convida a falar os mesmos representantes da opinião silenciadora?


O patético rebolar da moça ao som do sertanejo universitário provoca uma gastura nauseante. Mais do mesmo é mais uma dose do que temos ouvido ou assistido nas estações comerciais de rádio ou de tevê. Tais veículos, programas, profissionais, a cada novo período, se corrompem para divulgar o que dará mais audiência e maior lucro em consequência. A indústria cultural nos vende o Encontro como inédito. Mas ele é nosso velho conhecido – só que maquiado, travestido de novo. Pronto, contei. (Adriane Lorenzon)

sexta-feira, 5 de julho de 2013

O começo da vida

(Foto: autoria desconhecida)

Ao estudar o aborto e a proteção dos nascituros, passei a entender um pouco do que trata exatamente o viver. Apesar de concordar com cientistas e estudiosos que a vida se inicia na concepção, assuntei que o buraco é bem mais embaixo e que a vida dos bebês começa um pouco antes da fecundação, quando os adultos escolhem seus parceiros afetivo-sexuais. Esta é a quarta parte da série sobre aborto e defesa da vida.

Por exemplo: se eu escolher um homem, num bar, com 30 minutos de conversa (no meio da gritaria), para relacionar-me afetiva e sexualmente, devo assumir o risco de que este homem não queira “algo mais” envolvendo parceria e amor – que é o que as pessoas buscam inclusive em relações fugazes, embora não admitam. E a recíproca, sob a ótica do cara, acredite, seria verdadeira. Deixemos as exceções, ok?

Transar por transar já não satisfaz. Psicólogos ouvem inúmeros depoimentos nesse sentido, de homens e mulheres. Desconfio do brado: “Eu saio mesmo é para pegar”. A propósito, a questão não é o profano ou o sagrado do local, mas o tipo de pensamento ali circulante. Poderia exemplificar um casal todo trabalhado na careta tradição social. O que está em jogo, a meu ver, é saber em qual faixa vibratória nossa mente sintoniza.

Adoro observar os movimentos que a sociedade cria para sobreviver ao caos das particulares existências que a compõem. Adoraria também que tivéssemos noção do que almejamos e escolhemos. Geralmente as pessoas querem uma coisa, porém optam por outra que vai afundá-las em enganos. “Eu decido sobre o meu corpo!”, “Faço da minha vida o que eu quiser!”, “Liberdade de decisão para a mulher!”.

Certo é: tudo que exige disciplina, responsabilidade e cuidado, que demanda menos egoísmo, mais compreensão e amor, dá trabalho. Nesse sentido, talvez devêssemos selecionar melhor os parceiros com quem trocamos fluidos energéticos e nossa profunda intimidade. Com uma gravidez a caminho, ter escolhido um parceiro que soma muito mais vida à minha, não a morte em sua face cruel, parece-me digno de seres pensantes. (Adriane Lorenzon)