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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Cecília e os bichos presos


 (Foto: autoria desconhecida)

Um dos poemas mais lindos que conheço é Romance XXIV ou da Bandeira da Inconfidência de Cecília Meireles. Versos e mais versos preenchem o papel com o tema central da luta de um povo: liberdade. Mas não vou tratar aqui da história e das relações do Brasil, Minas ou Portugal. Quero apenas destacar um trecho do texto da musa lírica. “Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta: que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda”. Contudo, realmente entendemos de liberdade?

Passeando pelas ruas de Cachoeirinha (RS), sou invadida pela lembrança do Romance... que o recitei num espetáculo em Brasília, anos atrás. E a poesia é assim: ela gruda na gente e a gente nela – desde que a assimilemos em sua essência por meio da sensibilidade. Então, a narrativa de Cecília, naquele passeio, me envolveu enquanto via uma quantidade enorme de cães presos. Aliás, proporcionalmente falando, uma das cidades que visitei com mais cachorros perdidos nas ruas e presos em casa. Pode crer!

Meus passos eram seguidos por Cecília que me cutucava o tempo todo em súplica por liberdade. Pensei: que amar é esse que leva o homem a prender seu “bem-querer” entre latidos, abanar de rabo e uivos roucos de saudade? A mente se esforça para tal compreensão, mas o discernimento lhe escapa. O coração se derrama em choro por tamanha crueldade. Improvável um número elevado de casos com justificativas iguais de seus donos: “Prendemos um pouco, só por agora, até lavar a calçada”... e outras desculpas esfarrapadas.

Situações presenciadas ao longo da vida vêm à memória. Um cachorro que latia noite e dia em Tenente Portela, também no estado gaúcho. Era triste ouvir, de longe, aquela penúria. Nunca soube o desfecho. Conheço pessoas que mantêm seus “melhores amigos” em correntes de um metro de comprimento. Há peludos que caminham pra lá e pra cá durante horas, sem mais nada a fazer, tamanha é a redução do espaço de interação com a natureza. Sem falar, no inverno, presos à corrente e ao frio, sem poder buscar abrigo para agasalhar-se.

Em Florianópolis, uma ocorrência inusitada. Nunca a vida me mostrou tão bem o significado da palavra surreal. Quase tive um troço. Na ilha de Santa Catarina, manés carregam curiós em pequenas gaiolas pelas ruas. A ideia é passear ao sol com o avinhado. Em outra situação, por todo canto do mundo, há quem mantenha o peixe beta em minúsculo aquário para decorar a sala. Pessoas se presenteiam com o peixinho de longa cauda em sinal de amor. Ãh? Alguém justificará que o motivo para mantê-lo na estante – solitário e belo – é por ser briguento demais?

A bicharada dos zoológicos vive, amiúde, em recinto impróprio para suas necessidades. Pessoas prendem animais silvestres em casa para o bel-prazer de tê-los ali, ao alcance da mão. Um velho leão maltratado foi deixado em pequena jaula por um circo na beira de uma estrada no Brasil. Um bom samaritano passou e o levou para cuidá-lo e amá-lo. Tartaruguinhas são vendidas por pet shops para famílias mimarem crianças. Quando os quelônios crescem são deixados por aí. Por que os pais não fazem isso com seus filhinhos?

Traficantes enrolam e escondem nas roupas papagaios, pererecas, borboletas, vespas, besouros para “exportar” a colecionadores, mafiosos ou estudiosos. Também serpentes, jaguatiricas, macacos e tipos exóticos de nossa fauna vão-se embora. Qual a diferença da ação deles e a de pessoas que conhecemos que prendem animais e os maltratam por uma vida inteira? Nenhuma. Se o dinheiro “justificaria” o ato dos primeiros, o que argumentaria o segundo grupo?

Voltando à liberdade de Cecília. Que hábito funesto tem o ser humano de prender tudo o que vê pela frente? Que história é essa a de matar aos poucos os bichos com a tortura que abominamos para nós, ditos seres racionais? E se as pessoas sentissem na pele o que fazem aos bichos? Sempre que vejo um cachorro preso, caminhando pra lá e pra cá, me vem a imagem de seu dono, mesmo desconhecido, amarrado na curta corda do animal. Por que a restrição da liberdade é uma das penas mais dolorosas aplicadas nas sentenças judiciais humanas? (Adriane Lorenzon)

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Ode ao leite

(Vaca jersey numa das minhas tantas viagens - Foto: Adriane Lorenzon)

No inverno, o organismo apetece caldos quentes, um bem-estar aquecendo por dentro, pois lá fora está congelante. No período mais rigoroso, em algumas regiões, as criaturas se amasiam à preguiça, à ociosidade, ao cobertor. Melhor é ficar em casa enrolado no acolchoado de lã, de pena, ao redor do fogão, lareira ou de aparelhos elétricos que amenizam o frio. Qualquer lugar, menos a rua. Tomar chá, café, chimarrão, leite é fundamental, não apenas pelo alívio físico, mas até para organizar as ideias.

Vou contar-lhe uma história. De manhã, no inverno, ainda escuro, milhares de produtores rurais saem debaixo da coberta para trabalhar e nos ajudar nos confortos da cidade. Levantam cedo para tirar o leite daqueles quadrúpedes – que eu adoro – chamados vacas. As mulheres, em especial, “aprisiam” [acendem] o fogo no fogão a lenha, colocam a chaleira d’água sobre a chapa, agasalham o corpo com casacos e botinas e se dirigem ao curral. Lá, os animais, já concentrados, aguardam o pasto que irá alimentá-los durante a coleta do leite.

Imagine a cena. Ela ocorre diariamente, sem chance de apertar o modo soneca e dormir cinco ou dez minutos. Camponeses arregaçam as mangas, dão de comer aos ruminantes, limpam os úberes das Mimosas, Malhadas, Cinderelas e os tocam de um jeitinho especial para o bicho não esconder o leite. Os gatos estão todos ali na maior expectativa: eu sou “prima” [primeiro]; eu, “siga” [segundo]; quanto sobrará hoje; sai daqui seu esganado; dá um pouco pra mim!

Sim, vacas liberam o branquinho para ordenhadeiras – cabos e cabos embutidos nos mamilos cheios de generosidade. Embora, atualmente, seja mais acessível, o equipamento é privilégio de algumas propriedades; nem por isso, aprecia-se a cama por tempo superior ao da natureza. O jeito é encarar o frio, quebrar o gelo com toda a coragem do mundo e higienizar a região mamária – do bovino, no caso. Ou mesmo dar uma esquentadinha rápida na água para agradar a si e à nobre parceira das divinas tetas.

Acompanhe. Antes de tudo, silagem no cocho. Depois, amarram-se as patas traseiras e o rabo junto, se conseguir – como sempre tem mosca por perto, o animal agoniado precisa espantar a bicharada do lombo. Depois, lava-se o úbere. Na sequência, de cócoras ou no banquinho, começa-se o ritual. Uma puxadinha de leve... Ordenha daqui, espreme dali e o líquido sai com fumacinha e tudo para a leiteira a ser esvaziada no balde. A propósito, o gosto do leite recém-tirado é horrível. Uma coisa morna com temperatura indecisa. Definitivamente, provei e não aprovei. Mas valeu a experiência.

E você aí pensando no leite nascido em caixinha? Já havia pensado nisso? Ao terminar a tarefa na Mimosa, é hora de começar na Malhada, e assim por diante. Depois de toda a coleta é hora de liberá-las ao potreiro. Poderão pastar, ruminar, mugir, deitar, caminhar, atolar-se até o fim do dia, quando tudo começa outra vez. Gatos miando, galináceos correndo pra lá e pra cá, mulheres e homens dizendo “tô, tô, tô”, e as vacas se aproximando. Inclusive as bravas tornam-se menos agressivas por causa da comida. Entretanto, na primeira oportunidade, deixa de amarrar as patas para ver o que acontece!

A fria estação é pródiga em belíssimas paisagens, porém, dolorosa, por vezes, para quem vive no campo. Geralmente, ao pensarmos na dificuldade de acordar antes do sol raiar, lembramos dos moradores urbanos. Mas na roça, é complicado. Chuva, barro, bastante serviço ao ar livre para realizar. E os animais também comem no inverno. Dieta? Nada. Alguém precisa servi-los. Além do quê, nessa época, por conta das baixas temperaturas, o capim é escasso. Logo, dependem da mão humana para o valoroso auxílio em cada amanhecer e entardecer.

Na zona rural, tudo parece bonito aos olhos distantes de tal realidade. Contudo, detalhes como mãos vermelhas e pés rachados pela mistura de frio e vento, não escapam do bom observador. Despertar na alvorada é só um aspecto da vida de pessoas anônimas. Uma doação abnegada esconde-se a cada manhã e precisa ser reconhecida. Essa ode ao leite, à vaca, aos pequenos produtores rurais é meu agradecimento pela comodidade de, principalmente, no inverno, encher a caneca de leite e poder aquecê-la no micro-ondas. (Adriane Lorenzon)