sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

As escolhas e a deontologia

(Arte: autoria desconhecida)

O comandante do Costa Concordia, Francesco Schettino, tornou-se famoso por conduzir de uma determinada maneira o navio desastrado no litoral italiano. Ainda não se sabe o resultado da investigação, mas suspeita-se que o capitão não tenha seguido uma das regras universais de sua profissão: ser o último a abandonar a embarcação em caso de acidente. Não julgo a conduta dele porque não tenho competência para tal intento. Meu objetivo aqui é outro. Porém, inspirei-me no sinistro da ilha de Giglio para pensar sobre a deontologia das profissões.

Todo ofício tem uma característica, função, papel, responsabilidade, normativas, regramentos, condutas, aquilo que é inerente à atividade escolhida. Isso é a tal deontologia. Já tinha ouvido falar? Do grego, déontos quer dizer “o obrigatório, necessário” e logos pode ser estudo, ciência, tratado, discurso, expressão, conhecimento. No dicionário Aurélio a definição é a seguinte: “estudo dos princípios, fundamentos e sistemas de moral” ou “tratado dos deveres”. Agora, caro leitor, nosso encontro começa a ficar interessante.

Embora de origem mediterrânea, o termo foi usado pela primeira vez pelo inglês Jeremy Bentham, em 1834. Segundo o filósofo, a deontologia é a “ciência do que é justo e conveniente que o homem faça, dos valores que decorrem do dever ou norma que dirige o comportamento humano”. Segundo o internauta Francisco Nogueira Machado, a deontologia desvenda “os pressupostos inseridos nas normas de conduta social pertencentes a todas as fontes das quais emanam, ou seja, religião, moral, ética, direito, costume”.

No mundo do trabalho, sinto muito se você escolheu ser enfermeiro e está cansado do plantão da madrugada ou se o policial levou um tiro no ombro, vítima de emboscada de traficantes. O programa é ao vivo e começa às cinco da manhã? Você é o locutor do horário e vive em região com o inverno mais rigoroso dos últimos 50 anos? Tadinho. E da vida de professor, o que dizer? Não dá para se fazer de vítima como se não se soubesse dos riscos e propriedades particulares da esfera em que atuamos. Nem por isso deixaremos de lutar por melhorias.

Note. A deontologia profissional está em quase todas as áreas regulamentadas. Eletricistas, médicos, advogados, psicólogos, pilotos, assistentes sociais... Imagina se cada médico conduzisse os procedimentos cirúrgicos do jeito que bem entendesse! Se jornalistas não tivessem freados os ímpetos de inventar detalhes nas informações noticiadas! Psicólogos torturariam cabeças, engenheiros edificariam futuros desabamentos, e por aí vai...

“A deontologia é uma disciplina da ética especial adaptada ao exercício de uma profissão”, explica o portal português psicologia.pt. E o que uma coisa tem a ver com a outra? Ética, moral e deontologia estão entrelaçadas até o pescoço. Não dá para imaginá-las separadamente. No Brasil, usamos o termo código de ética. Em Portugal, código de deontologia. Ambos estão sob a responsabilidade de associações; no nosso caso, CREA, OAB, CFP, FENAJ – alertando correligionários a não cometerem faltas e se as tiverem praticado, adotando a medida punitiva mais adequada para qualquer situação.

Conforme o site O Significado, a deontologia é “uma teoria sobre as escolhas dos indivíduos (...) moralmente necessárias e (...) para nortear o que realmente deve ser feito”. Lembro-me de uma técnica de um posto de saúde desabafando diante das câmeras. Segundo ela, os usuários reivindicam um melhor atendimento dos profissionais de saúde, mas o problema não está nestes e, sim, no sistema. Será? A moça do jaleco branco escolheu trabalhar junto a um estabelecimento de saúde, num lugar chamado Brasil, com características peculiares. Quando doentes e necessitados queremos remédio e cuidados e, não, entender de políticas de saúde pública.

No entanto, apesar da ética e da deontologia, somos humanos. Falhamos. Por isso, assistimos a reportagens “marrons”, erros médicos sendo escondidos, advogados de porta de cadeia, professores sem respeito, psicólogos fofocando relatos de pacientes, políticos e governantes corruptos, servidores públicos prevaricando... Se a pessoa não está satisfeita, deve procurar, até o fim de seus dias, algo que lhe faça feliz. Adoro o ditado popular: “Se não guenta, por que veio”? Isto é: suporte o tranco e desempenhe direito o serviço... ou vá plantar alface. Entende? (Adriane Lorenzon)

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O que me ajuda a olhar o mundo


(Cânion Itaimbezinho RS/SC - Foto: Murilo Ribeiro)

Os anos passam e a gente vai aprendendo a aprender. Tem coisas que nos ajudam a viver e entender o mundo com dinamismo, precisão, cuidado. São livros, amigos, religiões e filosofias, lugares, filmes, poemas, experiências, amores, canções, familiares... Tudo tecendo a teia que amplia o horizonte de nossa mente e alma. Como trapezistas, seguimos o fio que direciona o passo, a dança, o equilíbrio. É lindo e motivador pensar que já somos menos egoístas, hipócritas, impacientes, intolerantes. Agora restam poucas classes para vencermos, finalmente, o primeiro degrau daquilo que chamamos evolução.

A sétima arte, o cinema, me ensinou a ser um tiquinho mais sensível. Isso com todos os filmes latino-americanos que vi: mexicanos, brasileiros, argentinos – além dos indianos e japoneses. Não deveria citar uma ou duas películas, pois me esqueceria de outras. Porém, as de Kurosawa, Iñarritu, Almodóvar e Campanella são espetaculares. Inesquecível é Como água para chocolate de Alfonso Arau – bela trilha sonora, eu me lembro bem. Cheguei a comprar o CD e o livro que traz receitas culinárias da autora Laura Esquivel.

Falando em literatura, existem obras que nos pegam pela mão como um carinhoso professor nos socorrendo na complicada lição. Há livros incomparáveis, vide Grande sertão: veredas de Guimarães Rosa. Esse é hors-concours! Escreve o velho Rosa: “Viver – não é? – é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é o viver mesmo”; “Eu quase que nada sei, mas desconfio de muita coisa”; “As pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas”.

Contudo, o que seria de mim sem os amigos? Uns se dispersaram; outros, permaneceram. Aprendi e aprendo tanto com eles. As matracas ligadas e muita conversa boa rolando. Um sonzinho de qualidade superior ao fundo ou o silêncio. O barato é ter um ombro, uma solidariedade em alto grau de dedicação. “Quero ter alguém com quem conversar, alguém que depois não use o que eu disse contra mim”, me lembra a amiga Marisa, recordando o mestre Renato Russo. Aliás, os versos do Trovador Solitário são uma escola completa.

Alguns lugares parecem nos levar a um universo paralelo. Paisagens paradisíacas, sotaques diferentes, sabores exóticos, praias desertas ou matas fechadas. Museus, exposições, shows, arte por toda a parte como em cidades históricas. Ambientes educativos e um aprendizado ao qual estamos prontos naquele momento. Lembro-me de uma viagem que fiz com amigos, aos 24 anos. Um deles, o Maurício Miguelito, desceu comigo a fenda do Cânion Itaimbezinho. Sem água ou equipamentos de segurança. Nada era perigoso. Espiar a vida lá de baixo foi como mirar o céu e avistar Deus.

Quanto às religiões, elas nos ajudam a sobreviver ao caos que edificamos com nosso livre arbítrio. A melhor delas é a que nos liberta criando um viver entusiasmado, apesar dos obstáculos. Não dá para perder o ânimo por qualquer eventualidade. As doutrinas que incentivam a fé cega nas criaturas amarram-nas numa espécie de prisão ficando difícil o autodesenclausuramento diante do desespero. Depois de entendido isso, fica mais fácil seguir o caminho de, no meu caso, nosso amigo JC.

Já o quesito “familiares” é, talvez, o que realmente nos desafia ao crescimento. Verifique. Analise a si, a sua família e os acontecimentos da parentela ao longo dos anos e confirme. Aprende-se muito com todos. A ter paciência, por exemplo. Ai, ai. A esperar o tempo deles ou a agilizar o nosso andar para acompanhá-los. Viver em família é uma empreitada complexa a que nos propomos. É igualmente rica e intensa. Ali se formam preciosos elementos, como, o nosso caráter, os princípios morais, a ética, a generosidade ou o egoísmo.

Grandes sacadas humanas de todos os tempos, poesia e filosofia são duas senhoras milenares que nos sustentam e suavizam o caminho. Não tiram as asperezas, mas nos fazem ver as pedras, também chamadas dores, com renovado olhar. Entretanto, não tem pra ninguém: é ele, o Amor, que nos coloca num mundo jamais imaginado. Amar – o namorado, um doente, um animalzinho, um morador de rua – é tão profundo que se trata da experiência mais revolucionária que a vida nos possibilita. Viva o amor em toda a sua plenitude! Experimente! (Adriane Lorenzon)

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Planejar ou deixar a vida levar?


(Foto: autoria desconhecida)

Andei pensando bastante na filosofia pagodiana – é bonita, confortável e... ingênua. Euzinha, antes da música de Serginho Meriti e Eri do Cais, cantada por Zeca Pagodinho, estourar nas paradas populares, a adotava. É o velho “deixa rolar” – oportuníssimo, por exemplo, ao tentarmos controlar algo irrefreável, externo à nossa vontade. Mas, no que depende exclusivamente de cada um, o lance muda de figura. O viver, também chamado destino, pode e deve ser alterado até acertarmos o ponto – como numa receita culinária.

Você viajaria de avião, ônibus ou carro se soubesse que o piloto ou chofer não dominam a técnica de pilotar/dirigir? Já pensou nisto: a existência nos conduzindo como motorista cega? Muitas vezes, intuímos que haverá um desastre logo ali; porém, é bem mais cômodo ficarmos paradinhos, sem refletir, permitindo que as coisas simplesmente aconteçam – assim, culparemos o marido, a esposa, o pai, a mãe, os filhos, a vizinha, o governo... O rol de alvos nessa hora é infinito. Sempre haverá, pelo menos, uma vítima: você.

A dimensão se amplia quando sabemos da própria responsabilidade e papel que temos no mundo. Conseguimos resolver se vamos atuar como atores principais ou meros figurantes. Há anos optei por traçar meus passos antes de gastar a energia em realizá-los. Confesso: não tem sido fácil – estamos, frequentemente, conectados a outras pessoas e, dessa forma, precisamos estar preparados para ajustar os planos. Para tanto, é fundamental habilidade e competência. A experiência de vida poderá oportunizar maior êxito no empreendimento.

Todo planejamento estratégico requer determinar etapas: ações, objetivos, prazos, responsáveis, tarefas, estratégias, meios... Contudo, antes dessa serviçama há um estágio essencial exigindo toneladas de sinceridade da gente: definição de prioridades. Não adianta querer comprar o badalado carro do mercado se você não tem recursos nem para pagar as contas do mês. Inclusive, o dinheiro teria de financiar depois diversos itens: manutenção, taxas, melhorias. Embora mediano, sem uma programação detalhada, tal desejo permaneceria na categoria de sonho.

Uma dica importante é entender que sonho não é meta. Sonho é divagar, criar fantasias, devaneios, cenários. Nele, compra-se, faz-se, viaja-se. Naquela é diferente. É necessário ousadia, temperança, disciplina, planejamento, decisão, foco, discernimento. Para transformar um sonho em meta é preciso pensar sobre ele, analisá-lo, depurá-lo. Só então surgirá a meta. Como as prioridades variam, deveremos nos atentar ao fio condutor que guiará a diligência.

Depois de checadas as prioridades e elencadas as metas e demais itens do projeto, é hora de arregaçar as mangas. Arrá! Aqui é que a porca torce o rabo. Metade dos animadinhos de início de ano, aí pelo dia 12 do mês um, já se esqueceram de tudo: caem na real, entendem que não têm vontade suficiente para se manterem firmes no propósito e abandonam o próprio barco. Dá-lhe incentivo nessa hora para compensar a frustração – desculpas não faltam para justificar a todo custo a acovardada atitude.

Trabalhar em uma atividade que nos levará a um resultado com mudança significativa no cotidiano é suar a camisa, incansavelmente. De forma diferente de um plano empresarial em que as ações têm um encarregado por setor, no pessoal, somos o único responsável desde a coordenação até a execução das tarefas propiciadoras da efetivação da meta. É claro que em algum momento contaremos com o valoroso auxílio de quem está ao redor. Mas se não puderem colaborar, não desista! Afinal, o intento é seu.

Observe. Se a meta é não se alimentar com pão branco para melhorar a saúde, morar sozinho é uma vantagem para vencer o desejo de comê-lo. Basta não comprá-lo e formar o hábito de consumir massas integrais. Acompanhado, vivendo em família, a empreitada será mais difícil – conscientize-se disso. Se a turma aderir à sua ideia, ótimo. Se não topar, sinto muito. Árdua tarefa lhe espera – seus olhos vão enviar ao cérebro imagens de pães deliciosos sendo comidos no café da manhã pela parentela. Todavia, novos comandos e condutas deverão ser criados para ajudá-lo a seguir adiante, firme, com prazer e alegria. Por você. Quer motivo melhor? (Adriane Lorenzon)

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Desesperança


(Foto: autoria desconhecida)

Às vezes dá um desespero, a gente momentaneamente deixa de acreditar que é possível mudar alguma coisa. Tem dias que a dúvida é cruel e se faz presente em nossa vida. Bate à porta, entra pelas frestas, dá um jeito de se infiltrar no mais íntimo para desestabilizar, quer ver o circo pegar fogo. E a gente permite, se quiser. Contudo, o que move o mundo é a esperança, o ânimo, a coragem, a vontade, o trabalho. Repito para mim mesma: “A esperança não é a última que morre. A esperança não morre”.

Há inúmeros acontecimentos que nos fazem desacreditar num mundo melhor. Assista a um telejornal sem se proteger psicologicamente e ficará desnorteado. São pais abusando sexualmente de filhos, mães jogando as crias em lixeiras, homens matando mulheres que antes eram seus xodós. As cracolândias se alastram pelo país com uma enorme quantidade de mortos-vivos sem banho, comida, casa, dignidade. Autoridades e especialistas afirmam, para nos desanimar ainda mais, que a guerra contra as drogas está perdida.

Casos de corrupção, dólares em cuecas, malas recheadas de garoupas... Realmente, dá uma vontadezinha de não acreditar mais. Propinas e vantagens para a velha oligarquia e seus descendentes. Pesquisa feita logo em seguida ao escândalo do primeiro “mensalão” apontava indicativo preocupante: se tivessem oportunidade, os entrevistados, representantes dos brasileiros, roubariam também. Então, parece certo: desejar, esperar e, pior, trabalhar por um presente bom é pura perda de tempo – que se dirá do futuro?

Na BR 116, próximo a Osasco (SP), vivi uma situação desalentadora. Num engarrafamento ao anoitecer, um caminhoneiro me alertou que aquele era um trecho perigoso. “Há muito assalto por aqui”, perguntei. “Não, os caminhoneiros, em alta velocidade, jogam a máquina pra cima dos carros pequenos”, confessou. Depois, na prática, entendi o alerta recebido: caminhões com farol alto o tempo todo forçavam a ultrapassagem para chegar a seus destinos. Os fins justificam os meios, diria Maquiavel. Pedi proteção a Deus na empreitada “boca braba” que me enfiei e segui. Dormi e acordei num hotelzinho em Miracatu (SP) – poderia ter sido no céu.

Esse é só um exemplo de como o cotidiano nos oferece estímulos para desistirmos de arregaçar as mangas: a morte planejada de gatos com Estricnina, nossa “arte” atravessando fronteiras com refrões medíocres como “nossa, assim você me mata, ai se eu te pego”, o transporte público aos pedaços, a maledicência vertendo das línguas que parecem não se cansar, leis favorecendo seus autores, salário altíssimo para uns e merreca para outros, velhinhos sem os cuidados básicos de saúde... Como manter a esperança?

Caetano Veloso canta música de autoria dele: “Alguma coisa está fora da ordem”. Outros afirmam que está tudo errado. Entretanto, perder por W.O, jamais! “Eu tô de luto, mas não sem esperança”, ensina minha ex-aluna Fernanda de Souza Lima. No fundo, no fundo, lá onde chamamos de coração, bate uma força que alguns ainda não sabem de onde vem – está viva e se alimenta com ações abnegadas de solidariedade, esperança, construção de autonomia e novas condutas, acesso ao conhecimento.

Confio, sim, num mundo “pra frentex” quando alguém separa o lixo na lixeira mesmo não havendo coleta seletiva em sua cidade, a televisão exibe novela de cunho social, índios são respeitados por não índios, adultos não bebem ou fumam na frente de crianças, candidatos não se elegem porque o povo, finalmente, aprendeu a votar, a escolher, a exigir. Acredito na evolução humana quando vejo a história deixando o mal para trás: os tempos bárbaros, a guerra fria, as ditaduras, a escravidão... Já nos aperfeiçoamos bastante, isso meus olhos conseguem enxergar.

Todavia, algumas criaturas só conseguem visualizar o copo vazio. Suas consciências estão adormecidas. Assim, a esperança vai ficando também em estado meio amorfo e sem cor. Porém, se a mantivermos desperta, nossa alegria, essa chama que nos põe de pé, estará garantida. Se a desesperança bater à porta, voltemo-nos para dentro ou para o passado e vejamos o tanto já construído e não o pouco que se desfez. O processo é demorado porque somos lentos, preguiçosos, presunçosos. Saibamos ler com olhos de ver e faremos mais. (Adriane Lorenzon)

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Baratas tontas


(Arte: autoria desconhecida)

Que correria é essa, alguém pode me explicar? Para onde vai todo mundo com tanta pressa? Tirar o pai da forca? Eu quero entender – diferentemente da frase atribuída à Clarice Lispector “viver ultrapassa qualquer entendimento” – para quê tudo isso nesta época do ano? Ao compreendermos um processo, conseguimos nos colocar no mundo de modo mais consciente, não a passeio, e, portanto, agir de modo menos animal e impulsivo. “Basta de clamares inocência”, diz a música de Cartola.

Algumas pessoas praticam esporte sempre; outras, só em dezembro. São os adeptos da Corrida Maluca junto a Mutley, Penélope Charmosa e toda a turma – com Dick Vigarista, claro, ditando “novas” regras de, por exemplo, como roubar a rara vaga disponível no estacionamento de um shopping. Se você já esteve num lugar assim neste período, sabe do que estou tratando. É constrangedor presenciar cenas em que ética e generosidade são trocadas por coisas tão perecíveis.

As lojas estão entupidas, os caixas têm filas gigantescas, nos hipermercados carrinhos no melhor estilo bi ou tritrem são empurrados ou puxados pelo vivente “sorteado” pela própria família. Toda reclamação de falta de dinheiro vai-se por água abaixo. Cerveja, vinho e espumante, refrigerante, carnes, temperos, enlatados e afins vão se juntando, em fardos, aos itens já escolhidos no fundo do pequeno transporte de carga. Agora, o esforço é válido e, os maridos, de modo geral, não se importam com a demora nas compras.

Já passou na rua da Praia em Porto Alegre ou na 25 de Março em São Paulo? E em Ciudad del Este no vizinho Paraguai? “Parece uma praça de guerra”, disse-me alguém. Reviram cestos e prateleiras na ânsia de encontrar um regalo para dar sentido à vida. Estabelecimentos para públicos mais bem aquinhoados não escapam da manifestação do consumo exacerbado. E dá-lhe propaganda incitando o comprar – bens são adquiridos pelo capital e a virtude nasce quando o consumidor passa a usar um determinado objeto. Ô maravilha de sociedade a nossa!

Em manchetes, a mídia confirma a onda de saque autorizado mostrando gerentes a estimular vendedores a não perderem clientes. Pareço ouvir: “Precisamos bater a meta”. No final, no microuniverso, o saldo de vendas é bom, mas com um macrorresultado doloroso: altos índices de acidentes em rodovias, a maioria por excesso de álcool e velocidade. Carros retorcidos, vítimas estendidas lado a lado, choro de familiares que constatam ou recordam como o Natal e o Ano-novo não são mais datas para equivocados festejos. Sem falar dos excessos de comida, afogamentos, mal-estares, vaidades, fingimentos...

Apesar de o ciclo vicioso se repetir, como é de se esperar, e nada mudar efetivamente, todos fazem suas apostas de que o Natal e o Ano-novo serão inesquecíveis desta vez. O peru é especial porque apita quando pronto e traz um molho feito... sei lá, na Inglaterra. A roupa branca da virada trará sorte e a estreia da lingerie virá com um emprego, o novo namorado, a família menos triste e hipócrita. “O Natal me deprime porque família não é fácil”, me diz uma amiga. “É verdade”, respondo. Se a família soubesse do seu valor e potencial, amaria mais, na prática, e pronto.

Essas criaturas enlouquecidas buscam algo que não existe num centro comercial, mercado, padaria, viagem... Conclui-se o óbvio: os produtos vão estar nas prateleiras no dia primeiro de janeiro, não vão fugir. Encher o carrinho e voltar para casa com um punhado de sacolas cheias completa o vazio de suas vidas. Esbanja-se como se só o contrário fosse um mal. Enquanto isso, irmãos nossos, perto ou longe, carecem de um pouco desse muito e seguem suas jornadas sem a prodigalidade da vida contemporânea.

Possivelmente, tais pessoas afobadas estão atrás daquilo que protelaram o ano inteiro. Enganam-se que, consumindo desvairadamente, vão melhorar um projeto, a casa, educar o filho, concluir um curso – tudo o que não se fez, não se começou ou concretizou. A checagem dos itens pendentes da agenda está sem o risquinho que confirma que a ilusão não faz mais parte do gigantesco abismo de seu dono. Assim, a pressa equivale a um pedido de socorro, de atenção, de autopreservação. Quem ousará tirar as próprias máscaras? (Adriane Lorenzon) 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Cucas para o Natal


(Foto: autoria desconhecida)

Peguei as fôrmas emprestadas e a receita com a querida tia Nadir. O intento? Fazer cucas para o Natal. Deliciosas, diga-se de passagem, e recheadas com coco. Minha irmã Ana reclamara que depois que nossa mãe morreu não tínhamos mais “aquele” espírito natalino que os europeus legaram à culinária gaúcha: cucas, bolachas enfeitadas, docinhos. Assim, decidi botar a mão na massa. Pronto. Não tem mais volta. Aos desavisados, resumidamente, cuca é um pão doce.

Certa de que dispunha dos ingredientes, pus-me a quebrar os ovos, amornar a água, separar as medidas de açúcar, leite, fermento, nata. Aliás, um prato nada light... Comecei cedo, passava das oito da manhã. Não tenho grande experiência em panificação, porém, dei-me conta, ao acrescentar farinha várias vezes, que a coisa seria mais demorada do que imaginava. O papel indicava amassar (e não bater como se faz em bolos, tornando o processo mais rápido). Então, colocava o pó do trigo e a massa respondia ficando durinha e firme.

Preparar uma comida para alguém ou para si mesmo é doar ou fazer florescer amor e dedicação. São horas e horas de misturas, mexidas, testagens. Tudo para homogeneizar as partes. Sem resistir, vou logo me autorizando a comer pedacinhos da massa crua. Adoro! Desde criança faço isso. Experimente! No meu caso, não houve ninguém para me censurar e dizer: “Vai fazer mal, menina! Não coma isso”! E eu, “nem bola”, como se diz nas bandas do Sul para a expressão “dar de ombros”. Meti a mão e me fartei com a iguaria.

Embora não seja uma exímia fazedora de rango, cozer é a minha praia. A preferência descamba para o universo dos salgados e agridoces. Programa legal é reunir-me a amigos ao redor da mesa e, enquanto todos conversam, relembram histórias e contam causos, eu vou lidando com os alimentos. Sem pressa, o amor se infiltra nos furinhos do macarrão, no ramo do alecrim, nos segredos que compartilho... Para cozinhar não há mistérios: é necessário sensibilidade e gostar de fazer.

Na receita original da tia, o recheio da cuca é composto de leite, açúcar e coco. Eu dei uma incrementadinha e incluí leite condensado. Aprecio essa combinação. Apesar de ser tudo a mesma coisa. Enquanto a massa descansava e crescia a olhos vistos, fui prepará-lo. Nunca tire os olhos da panela. Por quê? Arrá! Ou gruda no fundo ou o leite entorna e lambuza a panela, o fogão... Faça-o em fogo baixo após levantar fervura e tenha calma. Muita, de preferência. Assim você domina a química ocorrida ali e não o contrário. Simples assim.

Depois de algum tempo mexendo, desliguei o fogo e fui almoçar a comidinha preparada pela secretária Marli. Foi ela quem me alertou que o ponto era aquele mesmo. Se continuasse fervendo, chegaria ao de doce de leite e no lugar de recheio de cuca, eu cortaria barrinhas. Marli é descendente de alemães, povo habilidoso em quitutes como o famoso apfelstrudel – folhado de maçã e canela.

Nesse ínterim, a massa já crescera o suficiente. Era a vez de enformar. Primeiro, dar aquela amassadinha, abri-la e aplicar o recheio. Como ainda estava quente, precisava deste, frio ou, pelo menos, morno. Mexi um tempão – enquanto o fazia, pensava em como tudo na vida exige pa-ci-ên-cia. Quando se tem consciência disso, fica mais fácil e prazeroso viver. A felicidade torna-se alcançável, pertinho de nossas mãos. E eu lá mexendo, mexendo – ora no sentido horário, ora ao revés – e deixando de obrigar a mente a pensar. Acho que a esvaziei, como sugere o budismo.

No total, quatro cucas grandes e uma pequena. Último passo: aplicar “farofa” (feita de açúcar, nata e farinha) na cobertura e enforná-las. Lá se foram as cucas tornarem-se, efetivamente, cucas – o que só ocorreria quarenta minutos depois. No jantar comi... Adivinha? Cuca, lógico. Ué, mas não era para o Natal? Ahã. Desculpa para comer antes de todo mundo? Ah, um cozinheiro carece de autocrítica para avaliar os comentários dos outros! Resultado: aprovadas, até pela tia Nadir. Não é mole não! E olha que as dela são maravilhosas. Agora é aguardar a reação dos olhinhos de Ana. Acho que ela vai gostar. (Adriane Lorenzon) 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Respeitem meus cabelos brancos


(Foto: autoria desconhecida)

O cantor e compositor paraibano Chico César escreveu, alguns anos atrás, canção com o mesmo título desta crônica, mas colocou vírgula depois de “cabelos” – queria chamar a atenção de um público não negro. Ele abordava uma verdade: a discriminação com o crespo da afrodescendência. Aqui, de propósito, renunciei à vírgula porque a intenção é diversa: tratar de preconceito, porém, com o prateado de minhas madeixas. Enfim, resolvi assumir o grisalho. Chega de tinturas, esperas em salão, testa manchada, lambuzos em casa...

De início, o corante servia para mudar a cor, dar um tchan no estilo pessoal. Como uso cortes curtos ou curtíssimos há duas décadas, ninguém os percebia. De uns anos para cá, se me demorava em retocá-los, notava que a situação estava, digamos assim, junta e misturada. Acho graça e me divirto muito com o olhar surpreso de quem ainda não sabe dos meus fios descoloridos pela vida. Alguns brincam: “Ah, é como se você tivesse feito luzes”.

No entanto, atualmente, a coisa está séria. Tem até mechinha a William Bonner. O motivo da existência tão precoce desse branquicelismo todo, desde os 18 anos, pode ser predisposição genética. Como de uns anos para cá passei por situações estressantes, cogita-se, portanto, outro fator. Mas... adianta saber? Nada vai alterar. A medicina confirma a falta de soluções na área – isso está claro e é tranquilo para mim. Já para o meu semelhante, não. Aí a coisa complica – somos seres sociais, está lembrado?

Ao falar na possibilidade de deixar à mostra a melena assanhada, tenho ouvido de cabeleireiros e amigas que sou muito jovem para tal intento. Modéstia à parte, apresento mais ares de moleca do que minhas quatro décadas novembrinas. Claro, fui aceitando a imposição descarada da sociedade de que aparentaria um envelhecimento antecipado e pintava uma vez mais. Observe. Cabeleira curta precisa ser cortada a cada 15 ou 20 dias. Senão, dá uma impressão de desleixo – e se o corte ocorre nessa periodicidade, a tintura vai-se embora.

Poucas pessoas ao meu redor vivem situação parecida – fico, novamente, deslocada no mundo. Aquele lance do pertencimento... Então, matutei: “Vou para a Internet ver o que a mulherada anda falando. Impossível que só euzinha esteja pensando em assumir os brancos”. Delícia nos sentirmos acompanhados! Não deu outra. Lá estavam depoimentos de mulheres com a mesma dúvida cruel. Senti-me acolhida e encorajada. Viva a web!

Caro leitor, você acha que homossexuais e negros são os únicos discriminados? Qual nada! Embora em grau e metodologia distintos, mulheres brancas, de classe socioeconômica média ou elevada, também sofrem com o mal da ignorância de outrem. Por que seria diferente comigo? Uma “obrigação” nos impele a escondermos a velhice. Ora, quem disse que envelhecer é feio, errado, fora de moda e demais expressões que nos ensinaram para reprimir vontades, ideias e sonhos frente à vida? É a ditadura da aparência jovem em pleno vigor! Quem consegue se esconder por tanto tempo? Dercy Gonçalves? Glória Maria?

Nunca tive problemas com idade. Contudo, agora, sou nova pessoa e não quero pintar os cabelos. Ponto. A não ser que profissionalmente se faça necessário. Curtir essa fase, sim. Imensamente! É o meu envelhecer. Sempre disse: “Ao chegar aos 60, serei linda”. Olha só, faltam-me apenas duas dezenas de anos. A repórter Denise Brito, do jornal A Folha de São Paulo, entrevistou mulheres como a professora de inglês, Mila Rey, 53, que contesta a tirania da beleza: “Abdicar de uma aparência que se convencionou ser rejuvenescedora pode ser considerado até agressivo aos olhos de quem acha difícil lidar com os sinais do próprio envelhecimento”.

Ô, pacato cidadão! Não estaria na hora de conversarmos sobre velhice? Quanto aos meus branquinhos, alguém sentenciou: “Não é que você fique feia, mas é por você ficar velha”. Ãh?! Da amiga, coordenadora pedagógica da escola Olodum, a baiana Mara Felipe, 43, ouvi: “Feliz de quem está vivo para envelhecer. Eu me sinto linda, maravilhosa; eu estou, a cada dia, me sentindo melhor, mais feliz, mais realizada. O ano que vem será melhor ainda porque eu estarei mais velha, mais experiente e com mais vontade de viver... e de envelhecer”. (Adriane Lorenzon)