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sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Famílias de hoje

Livro: The family book de Todd Parr

Quem não se lembra das fotos antigas de família com uma escadinha de filhos? O pai com a cara séria de provedor, e a mãe, como uma madalena arrependida; afinal, mãe de família devia se comportar, podia ser mal-interpretada. Nos tempos dos meus avós, cada núcleo tinha uns 14 filhos. Uma penca que servia de modo útil e conveniente aos pais. E não havia tempo para o afeto, o cuidado, a dedicação aos pimpolhos.

Na era de meus pais, nasceram poucos filhos. Lá em casa, apenas três. Só alguns tios se arriscaram a imitar os coelhos. E o afeto começava a aparecer na rotina diária. Hoje, todos vivemos em pequenas famílias, algumas até sem filhos, e o cuidado e o carinho ocupam um bom lugar em todas as peças da casa. As coisas mudaram, e família, com F maiúsculo, é artigo de luxo na sociedade, exigindo além de tudo, respeito e diálogo.

Tem gente teimando que família é aquela tradicional em que o homem é quem manda no negócio. Não é bem por aí. Muitas famílias estão de pé por causa da bravura das mulheres. Outras tantas são compostas por dois pais, duas mães, pai e filho, mãe e filho, tem avó que é mãe e pai, tem criança parindo criança, tem gente solitária que encontrou sentido em viver com a companhia de um bichinho de estimação... Tem de tudo. É a vida! “Existimos, a que será que se destina”, pergunta Caetano Veloso.

Nesse sentido, já na infância, conheci famílias diferentes. Uma, o pai era caminhoneiro e sempre voltava para casa com presentes. Outra, sem prole, o marido era violento e sofria de alcoolismo – ainda não classificado como doença; era sem-vergonhice, diziam. Na adolescência, a família de um amigo homossexual o aceitava em sua orientação. E, mais tarde, um cara com cinco filhos vivendo com ele, resolveu se casar de novo. Detalhe: a nova mulher também trazia um punhado: seis filhos. Ô coragem!

Para mim, família é o desafio diário do afeto, do perdão, da paciência. Não importa se tem mãe, pai, irmão. De que adianta a velha tradição, com cachorro e papagaio inclusos, se não há respeito? Melhor dois pais amorosos do que nenhum ou um violento. Simples assim. Ah! Mas a hipocrisia, embora resista às novas formações familiares, aos poucos, começa a amolecer o coração frente às evidências do amor. (Adriane Lorenzon) 

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Dia do professor

(Arte: autoria desconhecida)

Todo mundo sabe que ele é importante, de longo tempo na História. Não tem engenheiro, advogado, grande empresário ou médico, com título forçado de doutor, que não tenha passado pelas orientações dele. Até aqueles que não subiram na escala hierárquica fosforescente das profissões, para aprender fazer um calculozinho qualquer ou uma pequena redação, precisaram dele em algum momento da vida.

Antes, o mestre era bancário, depositava informações na cabeça da criança. E o aluno que se danasse a achar espaço na mente. Com a evolução da humanidade, o professor tornou-se educador. Algo muito mais complexo, porque ajuda o outro a desenvolver habilidades físicas, intelectuais, morais, ecológicas, emocionais, espirituais... E quantos reúnem condições psicológicas para se dedicar às suas subjetividades e às dos pupilos?

Tenho observado e me questionado acerca do lugar ocupado pelo professor hoje no Brasil. De modo geral, pode-se dizer que esse posto, nada louvável, é o lugar da queixa. A poltrona mais cobiçada, badalada e confortável da sala dos professores. Nela, reclama-se de tudo, menos de si mesmo – porque o “eu” não tem nada a acrescentar, já fez tanto e tão bem, que agora, só espera a aposentadoria...

Uns lamentam que tudo é jogado em suas costas e a sociedade e governos deveriam oferecer justas contrapartidas. Concordo. Porém, não enxergam que a lamúria por si só é vazia e não traz conquistas nem avanços. Ademais, ninguém deveria desconhecer as características do ser professor. No século XXI, é bem diferente de outros períodos da História: as competências se ampliaram e a função social do professor também.


Sim, reconheço seus limites, dores, esforços. Todavia, fragilidades estão expostas. Em especial, aquelas suscitadas por uma cultura vitimista, que sempre vê no outro a responsabilidade pelas mazelas – neste caso, o governo, o prefeito, o ministro, os alunos, a secretária, a diretora, os pais... Claro, todos esses têm seu papel. Mas e o nosso, colegas? Quando teremos a certeza de que ser professor é uma escolha pessoal e intransferível? Assim, a partir desse entendimento, tudo o mais se descortinará. (Adriane Lorenzon)

domingo, 29 de setembro de 2013

Lenço nos olhos

(Charge: Bier)

Ao publicar esta crônica, sinto que estou cutucando a onça com vara curtíssima... E se descobríssemos um lugar que comemorasse, anualmente, infortúnios tipo o massacre de minorias nos campos de concentração alemães, ou chacinas como a dos presos do Carandiru em São Paulo? As pessoas, de modo geral, não teriam passado do nível básico acerca do porquê daquilo. Lá, estaria a mídia, favoravelmente cobrindo.

Isso foi só uma reflexão inicial. Corta. Perto de nós, no Rio Grande do Sul (e por onde mais se espalha a gauchada), não são festejadas as mortes citadas. Contudo, celebra-se a Revolução Farroupilha (1835-1845) e, consequentemente, as mortes, desgraças, torturas, conchavos daquele período. Quem participa da festa setembrina sabe que o que menos se quer nos acampamentos farroupilhas é estudo, pesquisa e meditação.

Não sou contra que as pessoas se divirtam, entende? Aliás, a alegria é sempre bem-vinda. Que comam o prato preferido, recitem poemas, vistam a bela pilcha, tomem o chimarrão. Porém, compreendendo o que isso representa. Até imagino um sábio historiador contando causos nas rodas de acordeona, e os peões e prendas indecisos entre tirar o lenço dos olhos e seguir abraçados às ilusões da versão oficial dos fatos.

Para mim, é angustiante a falta de consciência e questionamento quase que decretada sobre as vitórias e derrotas ocorridas nos pagos do Sul do país. Lacuna essa reforçada por escolas, poderes públicos, formadores de opinião... Destaca-se a bravura do povo, as epopeias, as conquistas, mas pouco se declama criticamente a respeito dos insucessos e equívocos, como a “trairagem” contra os bravos Lanceiros Negros.

Talvez porque o ser humano ainda necessite vangloriar-se com suas pretensas grandezas, camuflando o que nos envergonharia. O engraçado de tudo isso, para não dizer trágico? É que o cidadão gaúcho, considerado, muitas vezes, por si mesmo, como o mais politizado do país, num contrassenso, esbarra nessas pegadinhas que o enredo contado pelos vencedores e seus asseclas sempre terá um novo capítulo a distorcer. (Adriane Lorenzon)

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Independência ou...

(Arte: autoria desconhecida)

Quando o país se encontrava às margens da bancarrota com a inflação lá em cima e inúmeros empréstimos tomados do Fundo Monetário Internacional, o temível e terrível FMI, os movimentos sociais diziam que precisávamos nos independentizar dessa extorsão. Aos poucos, o Brasil se fez “livre”, então, de instituições e países com generosidade duvidosa. E o tema da independência parece ter se arrefecido...

Todo dia 7 de setembro é a mesma coisa. Durante a semana, um documentário na tevê paga ou pública sobre a história do Brasil; nas escolas, talvez, um apanhado do que é a data que lembra o ano de 1822; no dia, a mídia transmite os desfiles comemorativos e alguns grupos manifestam-se contra um fato ou medida do governo de sua época. Para 2013, as massas prometem invadir as cidades: “Vem pra rua”!

Falando nisso, em diversas localidades brasileiras, desde os anos 1990, entidades sociais realizam o Grito dos Excluídos na Semana da Pátria. O manifesto convoca a sociedade a refletir sobre a exclusão social no Brasil e culmina no dia 7 objetivando, segundo o site gritodosexcluidos.org, transformar a participação passiva da população nas comemorações dessa data em cidadania consciente e ativa. Da hora, não?

Mas de qual independência estamos falando? No portal há uma pista: “A verdadeira independência passa pela soberania da nação”. E o que é um país soberano? Aquele que “costura laços internacionais e implementa políticas públicas de forma autônoma e livre”. Em que organizações variadas da sociedade, incluindo o Estado, e a população inteira se esforçam solidariamente para construir uma vida digna e justa para todos...

E tem mais, ainda que seja o repeteco da mesma lição que sabemos de cor: a única forma de nos independentizarmos efetivamente, tornando-nos autônomos, é pela educação. Uma educação libertária, que estimule o despertar da curiosidade, da própria autonomia, da reflexão, da afetividade, do autoconhecimento... Bem, se sairmos da escola tendo aprendido a reflexionar, já seremos uma pátria de verdade. (Adriane Lorenzon)

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Eterna estudante



(Arte: autoria desconhecida)

Sempre amei estudar. Não sei qual estímulo recebi nem como isso se fez em mim. Provavelmente, essa história começou com uma provocação na infância e, depois, cresceu numa grande confluência de motivações. A propósito, muitos de meus professores não tinham habilidade para auxiliar nesse despertamento. Ademais, a ditadura militar, a sociedade machista e influências culturais estimulavam o contrário.



Claro, algum professor deve ter exercido papel fundamental para hoje eu ter um coração de estudante. Sou ávida por conhecer, descobrir, escarafunchar. Não me contento com pouco, quero sempre mais, saber algo que me complemente e me torne melhor – está na minha alma e na minha digital profissional. Como não saberei tudo, edifico-me eterna estudante. Impossível a completude? Bora recomeçar!



Nesse sentido, minha família e o clima lá de casa durante a meninice e adolescência contribuíram sobremaneira para esse meu gostar. Livros de Monteiro Lobato; gatos e cães nos ensinando sobre respeito e cuidado; sem tevê, jornais ou revistas infantis, muito menos canetinhas coloridas – só o velho rádio de pilha. O que mais havia não era material, mas o incentivo ao estudo, que nunca desistíssemos do aperfeiçoamento.



A mensagem ficou. É até óbvia, porém extremamente necessária ser ouvida diversas vezes quando criança. Ali, a gente vai gravando e selecionando o que será de suma importância nas decisões da vida, na escolha dos caminhos. Afinal, o que fica é o que reunimos em nós e distribuímos ao mundo. Ao morrer, não levamos nada – apenas os bem-fazeres e delicadezas que ofertamos e a ternura que nasce em nós...


Como diria Leonardo Boff, sou aprendiz e aprendente. Passo a vida buscando me graduar à altura de mestres inspiradores como Rubem Alves, Gandhi, Eduardo Galeano, Francisco de Assis... Não porque me reconheço no mesmo patamar deles. Contudo, é nesse apoio e suporte que encontro ressonância. Esses caras vão me ajudando e eu vou tentando nesse meio tempo dar a mão a quem por mim passar. (Adriane Lorenzon)

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

A solidão de acordar cedo

(Foto: autoria desconhecida)

Longe de mim a insônia, contudo tenho o hábito de levantar cedo. Aliás, despertar também. Antes de pular da cama, estou de olhinhos bem abertos, adivinhando figuras no escuro da noite. Muitas vezes, escuto galos a cantar, cães e seus latidos amedrontadores, corujas dando um último rolé na madrugada; e a moto do jornaleiro, o apito do trem ao longe... Além de sabiás e tico-ticos prenunciando a alvorada.

Ao computador escrevendo e produzindo logo cedo, de vez em quando olho em direção à janela para ver se o dia finalmente apareceu. A noite é como um filho à espera da mãe que nunca chega do trabalho. Então, mirando a janela, o escuro ainda se faz negro. Entretanto, quando vislumbro no horizonte os primeiros raios de sol, a manhã que principia, ouço o alarido dos pássaros, é como se algo me acalentasse.

Nessas horas – cinco ou seis da matina – sinto uma vontade louca de ligar para os amigos distantes. Sempre tem alguém espalhado por esse mundão, que eu adoraria estar conversando naquela horinha exata que meu coração está mais aberto ao diálogo fraterno, às elucubrações pueris, à construção de projetos de mundo melhor. Mas todos estão dormindo ou achando curtíssimo o período na horizontal.

Minha mãe costumava me ligar cedinho. Seis e meia da manhã tocava o telefone. Eu, no Planalto Central; ela, na fronteira gaúcha. Além de sua terna voz, ouvia o ronquinho da bomba de chimarrão, só para me provocar – dizia. Sem pretensão, contava-me que estava ouvindo música clássica ou o canto dos pássaros. Minha gata Penélope, outro amor de uma vida inteira, também não deixava por menos nessas horas. Miava insistentemente, queria companhia – estava cansada de curtir a escuridão sozinha.

O princípio do dia me dá ânimo para produzir compulsivamente – e ponho-me a escrever nesse mar revolto que é a vida. Construo moinhos de vento com meu amigo Cervantes, rego as rosas do jardim auxiliada pela mão iluminada de Exupéry, e vou me dando conta de como é solitário, porém extremamente produtivo, acordar cedo sem encontrar ressonância disponível nas redes sociais, ao alcance do celular... E solidão por solidão, o poeta Camões já dizia que é solitário [até] andar por entre a gente. (Adriane Lorenzon)

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Inverno sem glamour

(foto: autoria desconhecida)

Observadora, sempre me questiono como os agricultores sem muitas posses e confortos sobrevivem ao terrível inverno. Por gostar do campo – que depende da estabilidade climática para o plantio ou colheita – e viver viajando por essas estradas, basta mudar o tempo para eu me ligar na previsão meteorológica da região em que me encontro. É frente polar ou fria? Se frente polar em cima de frente polar é de lascar. Como é que se vai para a roça, tirar leite, lavar aquela imensidão de roupas acumuladas na estação gelada do ano?

Lembro-me de uma tia contando que falta roupa nos dias chuvosos do inverno gaúcho. O vestuário não é lavado porque não seca e, se lavado e secado à força, fica malcheiroso. Como está molhado e, muitas vezes, cheio de lama e sujeira, o montinho vai crescendo no cesto. Logo, as doações de agasalhos são sempre bem-vindas: para usar na lavoura, no curral, no almoço, ou mesmo para o culto de domingo. Uma espécie de uniforme trocado diariamente.

Há ainda os pequenos produtores muito pobres que dependem da ajuda dos outros para aliviar as dificuldades causadas pelo inverno. Aguardam ansiosos por um cobertor, um pacote de arroz ou farinha. Sem esquecer que a agricultura depende basicamente dos humores de São Pedro. Se chover muito é ruim, se chover pouco desagrada, se fizer muito sol queima o broto, se formar geada queima também, se for a geada negra então... O equilíbrio dos dias e da farta safra depende de muito trabalho, do Senhor Tempo e de um pouco de sabedoria...

Tem uma história que ouvi na infância, que durante um inverno de seca tremenda no Sul do país, um agricultor do Paraná não teve dúvida: foi acertar as contas. De arma em punho, em direção ao céu, no meio da lavoura morta pelo sol (e pelos agrotóxicos, desmatamento e a terra esgotada pela monocultura), disparou contra Deus. O barulho ressoou no horizonte sem resolver o problema. Deus deve ter optado por despertar outras aprendizagens.

Alguns agricultores têm dificuldade de planejamento. Lá isso é. A necessidade de estocar, de se precaver para a escassez, buscar auxílio antes de o problema chegar – como na fábula da cigarra e da formiga. Contudo, vamos abandoná-los à própria sorte? Cadê a solidariedade e a fraternidade? Certamente há em nossos armários uma peça para doação que fará a diferença. Hoje o apelo é para os irmãos da zona rural, mas siga seu coração e doe para quem possa compartilhar a peça o mais breve possível. O frio, assim como a fome, tem pressa. (Adriane Lorenzon)

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Dia do homem

Gianecchini: eu cuidava direitinho (Foto: autoria desconhecida)

Quinze de julho é o Dia Nacional do Homem. A ideia principal, desde os anos 1990, não tratou de garantir direitos a homens oprimidos, como é o caso das motivações da data da mulher. O que pegou por aqui foi a necessidade de advertir indivíduos Y e toda a sociedade sobre a importância de tratar da saúde do homem: dos meninos, rapazes, homens-feitos, até dos vovozinhos. Aliás, todo ser humano merece o cuidado à vida.

Segundo o Instituto Nacional do Câncer, o tumor de próstata é uma das causas mais frequentes de mortes entre os homens. A propósito, quantos homens você conhece que são pró-ativos e vão ao médico? Com uma perspectiva de vida menor, o homem é acometido, com maior incidência, por infartos do miocárdio e acidentes vasculares cerebrais. Além disso, as mortes por crimes agravam as baixas masculinas.

Nossos amados homens, entendedores de que sempre detiveram uma espécie de invencibilidade gravada em seus corações e mentes, confundiram-se ao longo da História. Esqueceram-se que eram frágeis e que seus corpos, tão perecíveis quanto quaisquer outros, poderiam adoecer. Assim, organizações ligadas à saúde abraçaram a causa de ajudá-los a perceberem sua porção de falibilidade. E não doeu quase nada.

Seguindo para o lado do bom humor, conte-me se você já viu um homem resfriado. Ou com um simples e rápido mal-estar. A cena é, no mais das vezes, patética, trágica, cômica. Homens adoentados viram indefesos guris porque, talvez, vislumbrem uma rara oportunidade de deixar as emoções e a humildade aflorarem. Então podem aceitar auxílio, proteção, socorro, caldinhos e cuidados. E quem não gosta?

Nesse sentido, o dia em homenagem aos homens serve para buscarmos alcançar uma vida digna para todos, homens e mulheres, independentemente das características que nos personalizem. Pensemos que as datas comemorativas são usadas, geralmente, para lembrar a população que um determinado público carece de atenção, em algum aspecto. Chegaremos ao dia que não teremos o dia da mulher e o dia do homem, mas o dia do ser humano – enfatizando a nossa condição comum, a nossa humanidade. (Adriane Lorenzon)

sexta-feira, 19 de abril de 2013

A descoberta da voz


Adriane Lorenzon em estúdio de gravação em Brasília (Foto: Elizabete Braga)

A primeira vez que entrei numa rádio foi para declamar um poema da cultura tradicional gaúcha no programa Festival de Violeiros, da Municipal 620 AM de Tenente Portela (RS). Isso era fim dos anos 1970. Imagine aquela pequerrucha cabeluda, de uns oito ou nove anos, declamando poemas com o sotaque fronteiriço carregadíssimo, ensaiando gestos de trovadora e de improvável oradora...

Depois, eu tinha uns 14 anos, o diretor dessa rádio chamou a mim e outras meninas para fazer um teste de locução. A escolhida trabalharia na emissora. Nenhuma foi selecionada. Nesse tempo, meu gosto cultural se afinava ouvindo estações como a JB 940 AM (RJ). As críticas e nãos me ajudaram na lapidação, levando-me, no futuro, a trabalhar em uma das emissoras mais importantes do país, a Câmara FM de Brasília.

Os festivais de MPB são um capítulo à parte na minha vida, pois eu levava jeito, mas não era muito afinada. Entretanto, achava que podia cantar. Não havia incentivo de ninguém, muito menos orientação musical. Apenas uma vontade muito grande de cantar. E “cantei, cantei, nem sei como eu cantava assim” (Chico Buarque). Cantei até O bêbado e a equilibrista de Aldir Blanc e João Bosco. Que tal a ousadia?

Em 1989, fui conhecer a Peperi 104,9 FM de São Miguel do Oeste (SC) e aproveitar para gravar um som do Tavito para eu participar de um festival. “A vida tem sons, que pra gente ouvir, precisa aprender a começar de novo...” Não só recebi a música gravada, como fiz um teste de locução que foi aprovado na hora, com alguns elogios e outras ressalvas a serem melhoradas. Lições e oportunidades começavam a surgir...

Assim descobri minha voz. Bem despacito entrei no mundo mágico do discurso, da expressão oral, da linguagem. E a cada dia renasço professora com a pretensão de ensinar, orientar e polir vozes, por esse mundão afora, para se expressarem melhor. Hoje, posso afirmar: soltar a voz nas estradas, como canta Milton Nascimento, em Travessia, já não quero parar. Ainda que seja somente para espalhar meu dizer. (Adriane Lorenzon)

sexta-feira, 29 de março de 2013

Educação pelo exemplo


Pai e filha lendo juntos (foto: Paloma Varón)

Crianças aprendem muito a partir do que veem, e adultos igualmente, eu diria! Afinal, somos seres aprendizes por natureza, temos a incrível capacidade de assimilarmos, constantemente, novas lições e conceitos. Nesse sentido, o hábito dos indivíduos forma o patamar em que a sociedade se encontra. Observe. Todos cooperam para educar ou deseducar os outros, norteando suas escolhas, princípios, caminhos.

Numa viagem ao Nordeste, peguei um táxi e, como é de costume, puxei conversa com o taxista. De cara, percebi que o cinto estava enguiçado e pedi ajuda. O motorista justificou-se: “Eu não uso cinto, não gosto”. Expliquei que preferia colocar, por segurança. E com a maior tranquilidade prosseguiu: “Eu não uso, mas mando meu filho usar”. Quando esse filho irá aprender que usar cinto é algo positivo, atitude protetiva?

Em duas cidades gaúchas vi a mesma estupidez. Em Ijuí, o pequeno shih tzu caminhava com sapatinhos para evitar contaminações. Porém, a dona deixou o cocô do cãozinho no jardim do prédio em que eu morava. Em Tenente Portela, uma senhora levou o cachorro ao banheiro privativo dele – um canteiro que é rótula de trânsito. Depois de raspar as patas para trás – ele, claro –, foram-se embora na maior tranquilidade.

Era sábado de folga. Resolvi andar a esmo por Belo Horizonte (MG). Logo avistei uma mulher e seu cachorro. Ele, ansioso, ela, atenciosa: “Espera aí, bebê”! Depois do cocô, o aliviado queria sair correndo, e ela, firme na guia, pedia paciência enquanto retirava os excrementos com um saquinho plástico para não emporcalhar a praça Raul Soares. Não podia destoar da música clássica que soava ao comando do maestro chafariz.

Observe este raciocínio. Jogar uma casca de fruta pela janela do carro não seria problema se fosse pelo aspecto do adubo em que ela se transformaria – desde que caísse na terra. E não seria se a casca não fosse entendida como lixo pela criança que vê a cena de outro carro. Somos responsáveis por ela e pela limpeza do mundo... Se os adultos fazem, por que não faria? Educação é isto também: raciocínio lógico. Sacou? (Adriane Lorenzon)

sexta-feira, 22 de março de 2013

Atrasos de vida


(Ilustração: autoria desconhecida)

Você percebeu, caro leitor, como algumas pessoas com quem nos relacionamos são um atraso de vida? E como é difícil promover o devido afastamento delas para podermos avançar e não continuar retrocedendo? Delicado isso! Provavelmente porque algumas são amigas, parentes, colegas... Como sair de fininho sem grandes estardalhaços, se poderemos sentir sua falta e recairmos no vício da companhia?

Nesse sentido, é imperioso saber quem é o quê na sua vida: amigo, amigo de festa ou de bar, amigo muito amigo, conhecido, familiar, colega de trabalho, colega de aula, vizinho. Tem uma diferença danada em cada um! Às vezes a gente confunde e mistura tudo e acaba esperando de todos mais ou menos a mesma recíproca. Por isso, gosto desta frase: “Não espere das pessoas aquilo que elas não podem [ainda] lhe oferecer”.

Um dia um amigo me contou que precisava muito se afastar de criaturas que duvidavam de sua capacidade de seguir em frente sem determinados apetrechos, conhecidos como muletas, desfrutando de maior autonomia. Riam-se muito dele. Sabedor que eu havia vivenciado situação parecida, desabafou confessando dificuldade em apartar-se dessas figuras que habitualmente o puxavam para trás.

Afastar-se não quer dizer desejar mal e aviltar esse indivíduo como se fosse o último dos mortais merecedores de nossa companhia. Distanciar-se é preciso porque em determinado período da vida novas afinidades são necessárias para obter-se êxito em objetivos não alcançados – afinal, o rio sempre renova suas águas. Afastar-se pode ser olhar mais fundo para dentro de si mesmo e, assim, voar mais alto, sem amarras.

Desligar-se de quem não contribui em nada e, além disso, só atrapalha, é tarefa, por vezes, dura e custosa. O jeito, talvez, seria averiguar os anseios da alma e analisar se estão harmonizados com quem convivemos. Mirar o abissal escuro individual pode ser um ato corajoso que exija certas renúncias, inclusive de pessoas queridas que um dia imaginamos que nunca viveríamos sem elas por perto. Haja disciplina, sô! (Adriane Lorenzon)

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Empreendimentos de sucesso


Foto: autoria desconhecida

Apesar de eu fugir de polêmicas, a torto e direito, pois elas não levam a nada, a existência me permite reflexões incômodas de ideias incomuns, chocantes à maioria dos que convivo. Uma delas é entender que algo que começa mal terminará, em quase todos os casos, mal. Se começamos falidos, qual a probabilidade de lucros? E isso ocorre nos diversos objetivos de quem solta as rédeas e se deixa conduzir por qualquer um. Salvo matéria restrita, é claro.

A controvérsia surge porque sempre tem aquele que diz: “Nada a ver”! E eu respondo, ou penso: “Nas exceções, nada a ver. Mas na prática, na regra das circunstâncias da vida, observe melhor usando o autoconhecimento”. Ao aguçar o pensamento, deparei-me com uma conclusão provisória que se tornou genérica: “A empresa que começa mal, vai falir logo ali, ou vai penar muito”. Nos relacionamentos, projetos, viagens, cursos e empreitadas, idem.

Para um voo começar bem, a aeronave exige decolar com toda a energia necessária, com as turbinas, motor e demais engrenagens funcionando a todo o vapor – ou seja, o avião deve estar bem mecanicamente. Também não adianta garantir a força inicial se o piloto não é competente, experiente e tomador de decisões precisas, se o combustível não é suficiente para todo o trajeto... Uma junção de fatores faz com que um voo seja considerado um sucesso.

Um estudante de medicina que faça o curso com desempenho meia-boca será um profissional medíocre... até o dia em que resolva alterar o nível em que se encontra aperfeiçoando o déficit e as limitações – na qualidade técnica do atendimento, na humanização do trato com colegas e pacientes... Senão, o que temos visto e recebido em consultórios e hospitais? O desvio do padrão é o que nos encanta e dá a certeza do êxito na carreira desse profissional.

Pesquisa informal de uma amiga da escritora Martha Medeiros com mulheres estadunidenses aponta que o tempo necessário para uma mulher transar com um homem é de três meses. Dessa forma, o casal poderia se encantar com as afinidades, conhecer as famílias, fazer exames laboratoriais. No Brasil, o mesmo papo aconteceu. Mas o reloginho aqui correria apenas 30 minutos. O suficiente para enganar-se que a solidão acabou e começar a frustração?

Hoje tenho a amizade de quem me detestou à primeira vista. Geralmente a recíproca da antipatia era verdadeira. Até o dia em que paramos para conversar, se descobrir e se encantar. Permitimos um momento só nosso para o reconhecimento um do outro. E foi mágico. A amizade só desabrochou porque escolhemos começá-la com diálogo, autorizando o estar do outro à nossa frente. Poderíamos ter optado por não nos ouvirmos e ela não teria surgido.  

Sim, há casos que começam bem e terminam mal – porque começaram mal, com a ilusão da tranquilidade, ou porque realmente algo saiu do curso habitual das relações. Quando auxilia uma empresa a se constituir e se firmar no mercado, por exemplo, o Sebrae indica diversas etapas a serem planejadas, executadas, analisadas. Ainda assim, para qualquer vida nova desabrochar é preciso novos planejamentos, avaliações, mudanças e tomar, então, a decisão de batalhar para que não termine mal; embora tudo passe, pois a vida é cíclica e recomeça. (Adriane Lorenzon)

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Diga sim


(Arte: autoria desconhecida)

Um sorriso abre mil portas. Certamente, caro leitor, você já ouviu essa máxima em algum lugar. Até o mais carrancudo dos mortais se rende, nem que seja com o tempo, com o poder da expressão maior de simpatia. Observe. Um sorriso sincero é o sim, a cara fechada é o não. E a humanidade, é claro, precisa de “mais sim do que não”, como canta Lulu Santos em Tempos modernos. O sim faz fluir a vida, o não empaca o viver. O sim é vitória, o não é derrota.

Brincar de viver, de Guilherme Arantes e Jon Lucien, também aponta o imperativo do sim: “Você verá que é mesmo assim, que a história não tem fim, continua sempre que você responde sim à sua imaginação, à arte de sorrir, cada vez que o mundo diz não”. O sim abre caminhos. “Dizer sim é provocativo. A partir dele, muitas coisas acontecem. Dizer não é impeditivo. A partir dele, muitas coisas são obstruídas”, explica a amiga Adriana Studart.

Nesse sentido, por que será que o não faz tanto sucesso? Arrá! Provavelmente porque ouvimos o não todos os dias desde pequeninos: “Não mexe, não coma isso, tira a mão da boca, você vai cair, não coloque a mão aí porque dá choque, você vai se queimar”. São inúmeros os incentivos ao não que aprendemos e levamos para nossas vidas. Embora vários nãos evitem acidentes e sejam sinônimo do cuidado de nossos pais e responsáveis.

Pensando bem, que estímulos as crianças recebem com um viés mais amplo, do tipo: “veja o sol nascer, agradeça o alimento, vá em frente, planeje como você quer ser, leia bastante, assista a bons filmes, ouça músicas plurais”? O não, ouvido e motivado desde nossa infância, é o caminho mais fácil e certeiro na fase adulta. Então, novos reprodutores do não serão gerados. “Nada pode o olvido contra o sem sentido apelo do não”, escreveu Drummond.

Muitos passam a vida inteira dizendo sim e, mais tarde, precisam pagar terapia para aprender a dizer não, quando necessário, aos outros. Ou para dizer sim a si mesmo. São os que não se impõem, como se não tivessem uma digital. Contudo, há um porquê escondido nisso. Dizer apenas sim aos outros e negar o próprio sim é extremamente prejudicial à saúde do corpo, da psique e do espírito. Provavelmente, carecerão reorganizar as funduras do seu eu.

Existem ainda os que se preservam dizendo não, concluindo que estarão a salvo dos perigos de se comprometer com o interlocutor. Tem gente que fala não com o silêncio e acaba se excluindo da vida de quem está ao redor. Em outro sentido, a palavra mais constante de minha mãe era sim e isso lhe fazia um bem danado, contagiando todos ao redor – parceira perfeita para uma caminhada, andar de bicicleta, comer uma pizza, conversar, e até para coletar mel...

Perguntinha incômoda: quantos nãos teriam escutado as criaturas que sobrevivem gritando não a tudo e todos? Dizer sim à vida não é aceitar calado o que lhe exigirem; é, às vezes, simplesmente ouvir, sorrir, abraçar, jogar a razão para escanteio e deixar falar a emoção, a sensibilidade. Chega de racionalismos baratos! Sabe a história do menino Exupèry que mostrava o desenho de um elefante engolido por uma cobra e todo mundo só via um chapéu? (Adriane Lorenzon)

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Viver ritualizado


(Arte: autoria desconhecida)

Ainda pequenina dizia que se um dia me casasse cada um moraria no seu apartamento ou, pelo menos, ele teria o próprio quarto e, eu, o meu. Ah, quando batesse a saudade... Também entendia que a cerimônia seria apenas um encontro a dois. Vestido branco? Nem pensar! Desse modo, desde aquela época contrario os padrões sociais da maioria das pessoas com quem convivia e convivo. Mas, afinal, para que servem os procedimentos do rito?

Ao concluir pedagogia, em 1995, sendo escolhida oradora da turma, achei justo comentar a decisão de não usar, na colação de grau, a tão reverenciada capa preta do Batman. Disseram-me que não havia problema. No dia marcado, cheguei de vestido vermelho, mostrando as pernas. Os cabelos curtíssimos, raspados em lâmina dois, há tempos eram motivo suficiente de espanto. Se era para ser especial, que fosse de um jeito que me fizesse sentido.

Qual não foi a surpresa de uma das colegas que, olhando-me de cima a baixo com reprovação, bradou: “Francamente, Adriane, não esperava isso de você”. Eu, mais rebelde e irônica do que em qualquer fase da vida, perguntei do que ela estava falando. Recebi de volta a carranca e o silêncio, linguagem e metodologia mais apropriadas para situações como aquela. Portar-se e vestir-se de modo diferente do padronizado exige, além de estilo, coragem e determinação.

Já durante o mestrado, ouvi do amigo Testa, professor experiente e tendo passado por diversos rituais acadêmicos, que eu devia me ocupar, no dia da defesa da dissertação, de mostrar aquilo que eu havia estudado. Disse-me ainda, que ninguém saberia mais do que eu naquele instante, porque, pensando bem, quem havia realizado as pesquisas, leituras e escritas? O dia D, segundo ele, era só um protocolo, nada mais, não devia supervalorizá-lo.

É nas comemorações de fim de ano que pessoas ficam tristes, devido, em especial, ao hábito causador de frisson em famílias e grupamentos. Todo mundo tem a obrigação de ter sido próspero no período que passou e entusiasmado quanto ao novo. Sem o ritual, muita gente nem perceberia os fracassos gigantescos e as vitórias alcançadas. Festas, correrias, presentes, visitas, ausências motivam sentimentos a serem mexidos, averiguados, entendidos.

Claro que algumas normas devem ser seguidas para um melhor convívio. Isso faz parte da etiqueta social. Aprendi como motorista que o bom senso, muitas vezes, é o melhor caminho; ao procurar uma vaga, por exemplo, se não há proibição, eu estaciono. Requisito fundamental, porém, é conhecer os códigos e símbolos de trânsito e observar ao redor – pode ter uma placa logo ali. No caso da formatura, a toga não era obrigatória. Simples assim.

É compreensível que rituais de passagem sejam necessários para sociedades ultrapassarem portais imaginários ou concretos. Simbolismos plurais ocupam corações e mentes alçando-os à plenitude. Aliás, momentos especiais são relativos e, para uns, adquirem um baita significado. Para mim, representam um dos degraus da escadaria que me leva ao autoconhecimento. É o que faz sentido com o que acontece comigo – antes, no decorrer, e depois do fato: quais sentimentos afloram e o que me leva além do imposto por regras e convenções? Serei mais feliz participando de liturgias, costumes, formalidades e ritos mecânicos? (Adriane Lorenzon) 

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Verbo esperançar

Gafanhoto conhecido como Esperança (foto: Joel Júnior)

Partidária do ditado “a esperança é a última que morre”, um dia fui surpreendida de forma retumbante ao ouvir de alguém que “a esperança não é a última que morre; ela não morre”. De imediato, aquilo foi um divisor de águas. Era uma lógica completamente diferente de entender a vida, de se portar frente aos obstáculos e dificuldades inerentes a um caminhar plural, autoeducativo, fora do padrão social, em tentativa constante de ser mais amoroso.

Nesse sentido, uma das frases prediletas de minha mãe, quando visitava doentes no único hospital da cidade em que vivia, era: “Coragem”! Certa vez, eu a acompanhei num desses “passeios” de encorajamento e fiquei contagiada pela força que saía de suas palavras simples e pelo olhar reanimado dos internados. Antes de morrer, disse-me estar preocupada com seus velhinhos e doentes, queria tanto não partir na grande viagem para continuar cuidando deles.

Tem alguma coisa que nos motiva e nos põe em ação, percebeu? O que é afinal que não nos deixa desistir? O que é que nos faz levantar da cama todos os dias e tomar um banho, um café e sair rumo a um trabalho, que nem sempre gostamos ou nos identificamos? Seria apenas o mísero ou supersalário que não paga a consciência tranquila, a paz de espírito, o bem estar no mundo? Quiçá, os sapos que muitos precisam engolir diariamente? Ou seria algo mais?

Sem a esperança em dias melhores, que alguns chamam de fé, não teríamos inventado engenhosidades que tornam a vida atual bem mais fácil: criar a roda, desbravar terras, revolucionar tecnologias, produzir vacinas e medicamentos. Em vários casos, não existiam dados, comprovações, certezas – apenas um quê impulsionando a humanidade a progredir. E os que ousaram ou se atrevem pensar em coisas impalpáveis são chamados de loucos.

Eduardo Galeano conta que um inexperiente médico foi chamado às pressas para ajudar no difícil parto de um menino. Ao chegar, viu que o pai havia tentado puxar a criança e o bracinho caía desfalecido. Pensou o socorrista que não tinha mais nada a fazer. Contudo, fez um carinho no pequeno braço. Ao tocar a mão do moleque, esta “se fechou e apertou seu dedo com força. Então o médico pediu que alguém fervesse água, e arregaçou as mangas da camisa”.

Para mim um desconhecido, Nelson Henderson nos estimula: “O verdadeiro significado da vida é plantar árvores, sob cujas sombras você não espera sentar”. Assim é a educação. A gente planta e semeia em todo tempo e lugar – um dia, quem sabe, o broto se faz verde. Já o poeta libanês Khalil Gibran arremata: “O entusiasmo é um vulcão em cuja cratera não cresce a relva da hesitação”. Dois caras que animam nossa empreitada de recriar a vida a cada amanhecer...

Lembro-me ainda de Mario Quintana: “Lá bem no alto do décimo segundo andar do ano mora uma louca chamada Esperança. E ela pensa que quando todas as sirenas, todas as buzinas, todos os reco-recos tocarem atira-se. E – ó delicioso voo! Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada, outra vez criança... E em torno dela indagará o povo: – Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes? E ela lhes dirá (É preciso dizer tudo de novo!). Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam: – O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA”... (Adriane Lorenzon) 

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Fim do mundo


Irmã Dulce, exemplo de vida (Foto: autoria desconhecida)

Para mim, o fim do mundo é mais embaixo, num buraquinho escondido, cheio de máscaras e disfarces: maledicência, desrespeito, arrogância, relações afetivas doentes, egoísmo, julgamentos, hipocrisia... Entretanto, já que o povo Maia resolveu fazer uns cálculos, que têm certo sentido, a gente acaba por parar um instante e se perguntar: seria mesmo o fim? Se sim, vai ser um baita susto para muita gente. Se não, tudo continuará como dantes. Será?

O que mais me instiga a refletir sobre o tema apocalíptico é imaginar que se fosse agora a minha partida, eu não teria feito praticamente nada em nome da humanidade. Está bem, em prol do outro, aqui do lado, já bastaria: um tanto de caridade, a mesa farta compartilhada, essas coisas que a gente imagina “conseguir” fazer quando ganhar a Megassena da Virada. Quase 200 milhões de reais me auxiliariam a desapegar, como se diz por aí, fácil, fácil...

Nascida em família pobre, materialmente falando, meu destino estaria desenhado: estudar até no máximo o ensino médio. E precisaria agradecer porque a cidade em que vivia dispunha do curso de magistério para garantir a brilhante carreira profissional feminina – e de alguns homens mais ousados. Mas eu fui além, pelo meu esforço, e muito antes, pelo incentivo de meus pais que sempre estimularam os filhos a estudar e buscar o aperfeiçoamento.

A propósito, eu mesma paguei dois cursos superiores e consegui uma vaga no mestrado de uma instituição pública. Só por isso, eu deveria devolver à sociedade um pouco daquilo que recebi, e procuro fazer, embora nunca seja suficiente. Estou sempre em dívida. Lembro-me de Chico Xavier reconhecendo que não havia realizado uma décima parte do que deveria fazer para ajudar a humanidade: melhorar o seu redor, a dor alheia, a fome do próximo.

Um incômodo enche os olhos ao se ouvir criaturas loucas de medo do fim do mundo. Tem gente que preparou um bunker para estocar água e comida e se proteger durante a possibilidade de três dias de escuridão e revolta da natureza. Imagino que quem viveu passeando e resmungando até agora, sem noção de que tudo é mais além, deva mesmo estar preocupado. “Viver é muito perigoso”, dizia Guimarães Rosa. Esse mineiro sabia das coisas...

Paulinho Moska canta: “O que você faria se só te restasse um dia”? Vai dizer que ia deixar de pagar as contas, beber até cair, empanturrar-se de guloseimas, copular irresponsavelmente, só porque o tempo de protelar mais uma vez estaria se findando? Nossa, você conseguiria ser assim tão previsível?! O mundo vai se acabar em algum momento, no âmbito da matéria, para todos nós. Deixe a ficção científica para os diretores e roteiristas de cinema; eles são ótimos nisso! Sugestão: pegue uma enxada e cuide de seu quintal! Há flores querendo desabrochar!

Desse modo, a partir de leituras e convicções, acredito que não será agora a derradeira incursão humana na bolinha azul do universo. Para mim, é muito mais assustador pensar que o meu fim chega todas as vezes que não consigo ser mais amorosa, paciente e compreensiva com meu próximo. Isso, sim, me mata, me aniquila! Ando com uma pressa urgentíssima de fazer algo mais, de oferecer daquilo que já recebi tanto, de ajudar a tornar, agora, o mundo um pouco mais alegre, leve, inclusivo, amoroso e interessante de se viver. Bora lá comigo? (Adriane Lorenzon)

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Cinco passos para transformar o mundo


(Arte: autoria desconhecida)

Às vezes, me perguntam: “Como, afinal, melhorar o mundo a partir de nosso estar no planetinha azul”? A resposta é simples. O complicado é acoplar a receitinha ao modus vivendi de cada um, pois quase ninguém quer agir nessa seara, tamanha a dor de cabeça que é sair do quentinho da preguiça. Contudo, com apenas duas mãos, vou morrer tentando aprimorar o mundo, nem que seja o meu interior. Daí o imperativo de um querer profundo.
 
Nesse sentido, a primeira coisa é observar-se, descobrir-se, criar um filme da sua vida até então, reconhecendo seu papel na família, no trabalho, nos círculos sociais. Qual é a sua onda, saca? Esta é a fase do autoconhecimento. Que leituras poderiam ajudá-lo nessa empreitada e o que o auxiliaria a desenvolver um olhar abrangente, menos endurecido frente à existência? O que você faria para aperfeiçoar o seu redor, a começar pelos recôncavos de si mesmo?

Ao me dar conta da necessidade de minha própria modificação, uma das providências foi reduzir os palavrões e usar vocabulário sem tanta grosseria. E isso acontece no dia a dia, não tem essa de inventar retiro espiritual para conseguir. Trata-se de uma decisão politicamente correta que não chateia, porém eleva a aura a sua volta. Por conseguinte, aos poucos, além das palavras, vão-se os pensamentos arcaicos desse homem velho que vive em mim.

Fácil perceber que a gente fica com uma vontade incontrolável de ocupar-se com temas nobres. É a mudança de atitude. Como, por exemplo, elogiar as pessoas, evitar apelidos constrangedores e gozações, passar a agradecer por tudo – até quando ajudamos, percebemos que fomos assistidos –, o desejo de impor nossa opinião diminui muito, já não fazemos questão de termos razão, e ainda que sofregamente, seguimos rumo a um viver pleno.

E o respeito? Ô palavrinha bonita. Não custa nada e ao mesmo tempo é artigo de luxo. Não julgar, deixar a hipocrisia de lado, optar pela gentileza (para virar hábito), reconhecer as potencialidades do outro, ser indulgente porque o amanhã nos mostrará o revés... Sem falar que as diferenças existem – chega de achar que a vastidão é só aquilo que nossa janela aponta. Há nuanças que nem desconfiamos existir, até o dia que nos atrevemos mirar além...

A quinta fórmula para desembolar o emaranhado que trançamos o mundo é o óbvio. Não se lembra, caro leitor? Trata-se da chave dourada para todas as fechaduras enferrujadas. Para ele os caminhos se abrem. O amor. O amor se traveste de várias maneiras: um abraço, um sorriso, uma conversa demorada com o desconhecido carente de atenção, um cliente que você atende como se a presença dele, ali, fosse alterar substancialmente a sua vida. Experimente!

É claro que falando assim parece fácil, simples e rápido. Parece, não. É. Ocorre que os humanos preferem dar uma embromadinha. A propósito, eu poderia elencar outros 500 passos para refinar o mundo. Mas se conseguíssemos realizar o que Teresa de Calcutá nos ensinou, já estaria de bom tamanho. “Não devemos permitir que alguém saia da nossa presença sem se sentir melhor e mais feliz”. Ah, moleque, vai fundo! (Adriane Lorenzon)

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Dona Morte

A persistência da memória (Salvador Dalí)


Um dia abri os olhos e me dei conta que estava viva, que só a vida importava, como se a fonte fosse inesgotável. O Ocidente em que vivia (e vivo) estimulava curtir a vida “adoidado”... Mas quase nunca tratava do seu contrário, a dona Morte; aquela que quando chega não é esperada, embora saibamos que baterá à porta, impreterivelmente. Adjetivada, tal senhorinha tornou-se a foice, a miudinha, a caveira, algo sem assertividade nenhuma.

Daí fiz uma conexão direta desse modo de compreender a existência com a forma de usar os recursos naturais pela humanidade: excessiva, abusada, desrespeitosa, egoísta. É como se a natureza tivesse sempre um tanto de água, de minério, de madeira a ofertar – pródiga em sua generosidade, coitada! Como se fosse obrigada a servir certo bípede, pretenso topo da cadeia, inteligência rara, animal diferenciado, poderoso chefão, com um pouco mais de... vida.

Depois de os olhos, além de abertos, se arregalarem, realizei outras ligações e fui pesquisar essa confusão toda. Sim, porque vira uma grande celeuma na minha e nas demais cabecinhas tontas de pensar. Observei que não estudamos a morte, não lemos nem refletimos sobre a morte e, portanto, não entendemos o desapego e toda a dimensão vária que a falta ocupa nos corações quando da “partida” de um amado nosso. Como dirigir a vida, então?

Ah, é, a sociedade até aborda a morte. No Dia de Finados somos lembrados a homenagear essa galera toda que já se foi. Telejornais informam a venda de dúzias e dúzias de crisântemos e que familiares lotarão os cemitérios... Todo ano é a mesma coisa. Repórteres, ainda se quisessem, não conseguiriam ser criativos porque o pauteiro/chefe de reportagem não deixa – a morte, em sentido mais abrangente, não deve mesmo subir à tona do agendamento do dia.

Para alguns, a morte não é oposto; é, sim, sinônimo de vida porque continua em outro plano. O corpo morre e a alma se liberta, prosseguindo a viagem. Para outros, vida e morte formam um todo, se completam. E para outros tantos, é o momento de iniciar o período de penas ou regozijos eternos. Contudo, independentemente do credo, a morte “é”. E isso, talvez, é o que a faz tão poderosa e contundente. Diferentemente da vida, que “pode ser”.

No final das contas, por que não falar de morte, fugindo do crucial instante que nossa jornada impõe? A todos, diga-se de passagem. Um dia vamos parar em outro lugar, sumir da matéria, do mapa. Antes disso, de modo geral, teremos enterrado (cremado e outras formas de “guardar” o corpo) criaturinhas amadas. Agora, se não nos desprendemos nem de uma camisa velha do armário, como desapegar de alguém que amamos profundamente?

“A morte é a libertação total”, escreveu Mario Quintana. E com muito bom humor, o velhinho do hotel Majestic concluía que “é quando a gente pode, afinal, estar deitado de sapatos”. Nesse sentido, Erasmo Ruiz, um cara que conheci lendo um texto da Internet, diz que “a poesia é um dos poucos redutos onde podemos aprender um pouco da arte de morrer”. Assim, que nossa lucidez invada essas zonas perigosas – e libertadoras – para apreendermos a morte e, junto a ela, a intensidade da vida. Morte e vida, vida e morte, uma relação indissociável. (Adriane Lorenzon)

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Raça humana

(Arte: autoria desconhecida)

Um dia precisamos ser lembrados que existe algo mais do que nosso olhar consegue avistar à frente ou de que nosso pobre umbigo pretende saber. Por isso são estabelecidas datas em homenagem a temas complexos como a Consciência Negra, em 20 de novembro, no Brasil. Medida altamente positiva que nos mostra uma parte da gigantesca pluralidade dos grupos sociais que compõem o mundo. Mas até quando precisaremos lançar mão disso?


Pelo que li na área de antropologia – ciência que estuda o homem, na categoria de bípedes pensantes não existe outra espécie que não a humana. Pelo menos, por enquanto. Nesse sentido, a expressão raça negra é a maior bobajada, sem nenhum fundamento. Contudo, o que temos são etnias; aliás, múltiplas – conceito plural e distinto do simplismo que se tenta reduzir o entendimento de humanidade. A raça é humana, não importa a cor da pele.  

Em 2010, no Censo do IBGE, fiquei tentada a me definir como amarela. Minha ascendência genealógica passa pela Itália, Áustria, Espanha, Uruguai, Brasil (caboclos e índios), Portugal, França, e as Arábias... ôps... acabei caindo na África. Eu sabia que tinha um pezinho lá! Muitos antropólogos afirmam que todos descendemos de um único ancestral africano. E a minha palidez? É que a coloração original é mais para a gema do que para a alvura, o sangue ou a noite. Então não seria asiática, logo ali pertinho? A princípio, não. Mas quem dirá o contrário?

Já ao ser indagado sobre o que achava do mês da consciência negra, o ator estadunidense Morgan Freeman, concluiu em entrevista ao 60 Minutes da tevê dos EUA: “Ridículo”. Por quê, pergunta Mike Wallace. “Você vai confinar toda a minha história em um único mês”? E o apresentador: “E como vamos nos livrar do racismo”? Resposta: “Parando de falar sobre isso. Eu vou parar de chamá-lo de branco e o que lhe peço é que pare de me chamar de negro”.

Observe no dia a dia. Ao explicarmos a alguém quem é certa pessoa, personagem de um fato, falamos: “É aquele coxo, zarolho, moreninho, sarará, deficiente”... Ou ainda, partimos para o lado do ter e do glamour: “É o cara do novo Focus, a namorada do promotor, o filho do prefeito”. Tal metodologia de vida é a mesma em obtusidades e preconceitos que a anterior. Dessa forma, julga-se pela aparência, incentivando a falta de foco e amplitude na visão. Sacou?

Sem querer igualar animais racionais a irracionais – apesar de estes, muitas vezes, serem superiores, asnos, por exemplo, também têm suas particularidades. Não deixam de ser da grande família equus a que pertencem porque misturam seus asinus aos caballus. Burros, jegues, mulas, jumentos, bestas, marronzinhos ou cinzentinhos, continuam sendo muares. Isso prova que as diferenças que os destacam é o charme da coisa. No caso humano, é o que nos engrandece. Embora, para alguns, isso, sim, é que é asneira; desculpando o trocadilho...

Para a blogueira Larissa Carvalho, “o resultado do último Censo revela (...) a consciência da valorização da própria identidade entre os afro-brasileiros”. A maioria se considera negra ou parda. Todavia, os números mostram que estamos criando uma consciência integral, que extrapola a quantidade de melanina visível na epiderme. Trata-se do sentir-se humano. Em Alma não tem cor, o músico paulistano André Abujamra diz: “Percebam que a alma não tem cor, ela é colorida, ela é multicolor”. Bem isso! (Adriane Lorenzon)