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sexta-feira, 31 de maio de 2013

É o meu jeito

Sônia Braga e a personagem Gabriela de Jorge Amado - 1975 (foto: autoria desconhecida)

Se o assunto é convivência, ambiente de trabalho, família, é comum ouvirmos: “Esse é o meu jeito, todo mundo tem uma maneira de ser e as pessoas precisam me respeitar”. Ainda mais se concluirmos que nas interações humanas é necessário que tenhamos uma dose de paciência, um bocado de tolerância e, quiçá, um punhado de compreensão. Entretanto, o lado conveniente dessa frase me incomoda muito. Outro dia ouvi de novo: “Eu sempre fui assim”.

Como diria um personagem de uma novela: “Epa, epa, epa, epa”! As coisas não são bem assim. Não nascemos com a Síndrome de Gabriela. Lembra-se daquela música? “Eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim, vou ser sempre assim, Gabriela.” A letra é de Dorival Caymmi e foi imortalizada na voz da também baiana Gal Costa. Os versos parecem alertar sobre a zona de conforto que pode se instalar e permanecer em nós por toda esta existência.

Pessoas que costumam usar essa máxima, geralmente, se apoiam nela para continuarem a ser: carrancudos, fofoqueiros, mal-humorados, corruptos, abusadores, gritões, enganadores, e toda a sorte de tipos que adoram, veneram tal sentença. Sem falar naqueles que insistem em usar uma viciação para “obrigar” os outros a “curtirem” o hábito igualmente, sugerir que só dessa vez será usado o jeitinho brasileiro, causar polêmica para ver o circo pegar fogo...

Entendo que, se vivemos em sociedade, o coletivo se faz presente e precisamos aprender a nos portarmos, de modo equilibrado, nesses grupamentos em que transitamos. Entendo que devemos respeitar o próximo sempre que conseguirmos (infelizmente nem sempre alcançamos êxito devido a nossa falta de habilidade com as diferenças). Entendo que as pessoas gostam de ser respeitadas (e eu também) em suas características mais peculiares.

Contudo, há outra fala popular que eu adoro: “Se não ‘guenta’, por que veio”? Se não damos conta de segurar nossos ímpetos mais baixos, não podemos viver em coletividades. Para isso existe o cume das montanhas. Porém, no contato diário – e sendo seres sociais vamos ter de coexistir – “o meu jeito” deve ser melhorado para que haja um mínimo de harmonia. Seria péssimo imaginar que as pessoas com quem convivemos apenas aguentam o nosso jeito insuportável. Em contradita, é maravilhoso pensar que podemos evoluir ad infinitum. (Adriane Lorenzon)

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Liberdade de imprensa


Ilustração para campanha por uma nova lei da imprensa (Arte: autoria desconhecida)

... E a democracia foi nascendo e se impondo – apesar da aparente contradição – como pôde. Na Grécia Antiga, a escravidão parece ter facilitado seu nascimento. Escravos suavam as vestes enquanto os chamados cidadãos dedicavam-se à vida política. Estes podiam entabular conversações nas praças públicas e compor o que talvez fosse o embrião da democracia conhecida atualmente, mesmo que somente em parte.

Mas falar é perigoso e as cobranças e perseguições já existiam nessa época – pesquise a história de Sócrates, precursor, ao que sabemos sob alguma ótica, de certa liberdade de opinião. Se falamos o que pensamos, inimigos, adversários, amigos e familiares começam a se rebelar contra nossos pensamentos e sentires da vida. Em pleno século 21, quando passei a escrever e publicar minhas crônicas, vivenciei um pouco disso.

Até aqui, muito evoluímos enquanto humanidade e fomos avançando; às vezes em aparente retrocesso, como no caso das guerras e intolerâncias, para progredir lá na frente. De qualquer modo, seguimos, passo a passo, formando nações que podem afirmar que estão construindo suas democracias. Afinal, a democracia não é, ela está; faz-se a cada dia, pois limitado e incompleto é o ser humano que a edifica.

Assim, um dos operários da aclamada e temida democracia chama-se imprensa, ou mídia – termo mais atual. Jornalistas, escritores, comunicadores em geral auxiliaram sobremaneira na arquitetura daquilo que entendemos como direitos humanos e deveres do cidadão. O direito de viver, de não ser discriminado, de ser livre. O dever ao respeito e às obrigações individuais e coletivas com o outro, com o todo ao redor.

Três de maio é o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. Tal imperativo se dá porque a democracia do dizer ainda é artigo de luxo em algumas sociedades. Inclusive naquelas ditas democráticas, abertas, livres, plurais. Muitos jornalistas e radialistas morrem vítimas de represálias das denúncias feitas por eles. Logo, só com uma mídia livre e democrática conquistaremos e fortaleceremos o direito que queremos para todos. (Adriane Lorenzon) 

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Diga sim


(Arte: autoria desconhecida)

Um sorriso abre mil portas. Certamente, caro leitor, você já ouviu essa máxima em algum lugar. Até o mais carrancudo dos mortais se rende, nem que seja com o tempo, com o poder da expressão maior de simpatia. Observe. Um sorriso sincero é o sim, a cara fechada é o não. E a humanidade, é claro, precisa de “mais sim do que não”, como canta Lulu Santos em Tempos modernos. O sim faz fluir a vida, o não empaca o viver. O sim é vitória, o não é derrota.

Brincar de viver, de Guilherme Arantes e Jon Lucien, também aponta o imperativo do sim: “Você verá que é mesmo assim, que a história não tem fim, continua sempre que você responde sim à sua imaginação, à arte de sorrir, cada vez que o mundo diz não”. O sim abre caminhos. “Dizer sim é provocativo. A partir dele, muitas coisas acontecem. Dizer não é impeditivo. A partir dele, muitas coisas são obstruídas”, explica a amiga Adriana Studart.

Nesse sentido, por que será que o não faz tanto sucesso? Arrá! Provavelmente porque ouvimos o não todos os dias desde pequeninos: “Não mexe, não coma isso, tira a mão da boca, você vai cair, não coloque a mão aí porque dá choque, você vai se queimar”. São inúmeros os incentivos ao não que aprendemos e levamos para nossas vidas. Embora vários nãos evitem acidentes e sejam sinônimo do cuidado de nossos pais e responsáveis.

Pensando bem, que estímulos as crianças recebem com um viés mais amplo, do tipo: “veja o sol nascer, agradeça o alimento, vá em frente, planeje como você quer ser, leia bastante, assista a bons filmes, ouça músicas plurais”? O não, ouvido e motivado desde nossa infância, é o caminho mais fácil e certeiro na fase adulta. Então, novos reprodutores do não serão gerados. “Nada pode o olvido contra o sem sentido apelo do não”, escreveu Drummond.

Muitos passam a vida inteira dizendo sim e, mais tarde, precisam pagar terapia para aprender a dizer não, quando necessário, aos outros. Ou para dizer sim a si mesmo. São os que não se impõem, como se não tivessem uma digital. Contudo, há um porquê escondido nisso. Dizer apenas sim aos outros e negar o próprio sim é extremamente prejudicial à saúde do corpo, da psique e do espírito. Provavelmente, carecerão reorganizar as funduras do seu eu.

Existem ainda os que se preservam dizendo não, concluindo que estarão a salvo dos perigos de se comprometer com o interlocutor. Tem gente que fala não com o silêncio e acaba se excluindo da vida de quem está ao redor. Em outro sentido, a palavra mais constante de minha mãe era sim e isso lhe fazia um bem danado, contagiando todos ao redor – parceira perfeita para uma caminhada, andar de bicicleta, comer uma pizza, conversar, e até para coletar mel...

Perguntinha incômoda: quantos nãos teriam escutado as criaturas que sobrevivem gritando não a tudo e todos? Dizer sim à vida não é aceitar calado o que lhe exigirem; é, às vezes, simplesmente ouvir, sorrir, abraçar, jogar a razão para escanteio e deixar falar a emoção, a sensibilidade. Chega de racionalismos baratos! Sabe a história do menino Exupèry que mostrava o desenho de um elefante engolido por uma cobra e todo mundo só via um chapéu? (Adriane Lorenzon)

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Viver ritualizado


(Arte: autoria desconhecida)

Ainda pequenina dizia que se um dia me casasse cada um moraria no seu apartamento ou, pelo menos, ele teria o próprio quarto e, eu, o meu. Ah, quando batesse a saudade... Também entendia que a cerimônia seria apenas um encontro a dois. Vestido branco? Nem pensar! Desse modo, desde aquela época contrario os padrões sociais da maioria das pessoas com quem convivia e convivo. Mas, afinal, para que servem os procedimentos do rito?

Ao concluir pedagogia, em 1995, sendo escolhida oradora da turma, achei justo comentar a decisão de não usar, na colação de grau, a tão reverenciada capa preta do Batman. Disseram-me que não havia problema. No dia marcado, cheguei de vestido vermelho, mostrando as pernas. Os cabelos curtíssimos, raspados em lâmina dois, há tempos eram motivo suficiente de espanto. Se era para ser especial, que fosse de um jeito que me fizesse sentido.

Qual não foi a surpresa de uma das colegas que, olhando-me de cima a baixo com reprovação, bradou: “Francamente, Adriane, não esperava isso de você”. Eu, mais rebelde e irônica do que em qualquer fase da vida, perguntei do que ela estava falando. Recebi de volta a carranca e o silêncio, linguagem e metodologia mais apropriadas para situações como aquela. Portar-se e vestir-se de modo diferente do padronizado exige, além de estilo, coragem e determinação.

Já durante o mestrado, ouvi do amigo Testa, professor experiente e tendo passado por diversos rituais acadêmicos, que eu devia me ocupar, no dia da defesa da dissertação, de mostrar aquilo que eu havia estudado. Disse-me ainda, que ninguém saberia mais do que eu naquele instante, porque, pensando bem, quem havia realizado as pesquisas, leituras e escritas? O dia D, segundo ele, era só um protocolo, nada mais, não devia supervalorizá-lo.

É nas comemorações de fim de ano que pessoas ficam tristes, devido, em especial, ao hábito causador de frisson em famílias e grupamentos. Todo mundo tem a obrigação de ter sido próspero no período que passou e entusiasmado quanto ao novo. Sem o ritual, muita gente nem perceberia os fracassos gigantescos e as vitórias alcançadas. Festas, correrias, presentes, visitas, ausências motivam sentimentos a serem mexidos, averiguados, entendidos.

Claro que algumas normas devem ser seguidas para um melhor convívio. Isso faz parte da etiqueta social. Aprendi como motorista que o bom senso, muitas vezes, é o melhor caminho; ao procurar uma vaga, por exemplo, se não há proibição, eu estaciono. Requisito fundamental, porém, é conhecer os códigos e símbolos de trânsito e observar ao redor – pode ter uma placa logo ali. No caso da formatura, a toga não era obrigatória. Simples assim.

É compreensível que rituais de passagem sejam necessários para sociedades ultrapassarem portais imaginários ou concretos. Simbolismos plurais ocupam corações e mentes alçando-os à plenitude. Aliás, momentos especiais são relativos e, para uns, adquirem um baita significado. Para mim, representam um dos degraus da escadaria que me leva ao autoconhecimento. É o que faz sentido com o que acontece comigo – antes, no decorrer, e depois do fato: quais sentimentos afloram e o que me leva além do imposto por regras e convenções? Serei mais feliz participando de liturgias, costumes, formalidades e ritos mecânicos? (Adriane Lorenzon) 

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Falsas alegrias

(Foto: autoria desconhecida)

Duas meninas, de um ano e seis meses e um ano e dez meses, se encontraram e foram se aproximando, titubeantes, como é o caminhar dessa idade. Meus olhos flagravam o inusitado. Todos aguardavam a possibilidade de confronto – crianças brigam, puxam cabelo... Contudo, o que presenciamos foi um gesto de amor. Uma delas parou, fitando a outra se achegar. Esta alcançou o rosto da nova amiga e o acariciou com a delicadeza típica da pureza.

O filme (poderia sê-lo, mas era realidade) estava rodando quando um grito, três mesas à frente, interrompeu a tomada. A mocinha em ação parou, olhou em direção ao som com a calma dos sábios, aguardou o pseudossilêncio, e prosseguiu na eternidade e ternura do gesto. Novo grito, nova parada, novo recomeço. Depois, tudo de novo de novo. Até que as pequenas professoras envolvidas com a possibilidade de comer um salgadinho saíram de cena. Corta.

Numa dessas circunstâncias da vida, reencontrei uma amiga que não via há dez anos. Ela sugeriu um bar para irmos e não vi problema nenhum – não era eu que conhecia a cidade e o reencontro em si era o mais importante. Ao chegarmos, vi um telão ao fundo e uma tevê gigante na entrada em alto volume. A bola rolava numa disputa de título. O ruído atrapalharia qualquer intento de relaxamento e interação. Pensei: “Será que vamos conseguir conversar”?

Perto da gente, um rapaz, de costas para mim, gritava enlouquecidamente a cada gol ou possibilidade de balançar de rede. Os urros eram altos e prolongados. No apito final, bateu na mesa, gesticulou com o punho fechado para o alto, e se eu olhasse de perto, babava, extravasando sentimento raivoso. Na mesa, tentávamos dialogar. Assim como o gesto das crianças fora interrompido, paramos também. Corta.

O momento, para mim, era singular – não frequento esses espaços. Então, sem resistir à ironia, perguntei ao irmão da minha amiga: “Quanto o Fluminense está pagando para o cara torcer assim”? Também apaixonado, porém controlado, disse que fazia quatro anos que o Clube não ganhava uma premiação dessas. Eufórica (o ambiente estimulava isso), ouvi 34 anos. Aí entendi, aceitei por um segundo, mas fui corrigida: “Não, é quatro anos”. E eu: “Ah”...

Além do mais, o gritão vinha acompanhado da namorada/esposa. Lá no fundo, a feminista que mora em mim, perguntava-se: “Que mulher é essa que se sujeita a isso ou, pior, que gosta disso”? Entenda, caro leitor. Mesmo que algumas ainda passeiem meio tontas, nós mulheres viemos equalizadas de fábrica, ligadas a sentimentos nobres, pois temos, de modo geral, a missão de elevar a frequência vibracional do mundo: famílias, relacionamentos, empresas...

Conclusão mais do que óbvia: sinto uma megadificuldade de me situar numa sociedade que valoriza abusos. Não me refiro aos grandes dramas humanos como a miséria e a guerra. Falo daquilo que aos olhos da maioria é bonitinho, engraçado, e, portanto, aceitável: excessos no carnaval, futebol fanático, músicas incentivadoras de vidinhas mais ou menos. Por fim, acabo sendo, eu, a desajustada, digna de reconhecer a velha máxima: “Os incomodados que se retirem”. Entretanto, da grande viagem da existência, não dá para desembarcar. Mas do bar, bem que eu respirei aliviada quando minha amiga nos convidou: “Vamos”? (Adriane Lorenzon)

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Lembra de mim


(Arte: autoria desconhecida)

Às vezes, rio de tanto mico que pago nesse mundão. Um deles refere-se ao fato de eu me lembrar das pessoas e as mesmas nem imaginarem quem seja a dona à sua frente. Em outras, elas se lembram de mim e eu quase morro de vergonha quando a figura me chama com a maior intimidade: “Dri, como vai o pessoal, o projeto, cê tá ainda lá”? Então, fico vermelhaça – nenhum batalhão de incêndio consegue abafar o caso.

Aos 18 anos, conheci um rapaz que se encantou pela moçoila aqui. Pedida em namoro, disse-lhe que não via possibilidade na empreitada pois o tinha como amigo. Anos depois, enquanto procurava conhecidos que sumiram por aí, consegui o telefone dele. Sem pestanejar, liguei para dar um oi e falar dos rumos da vida. Ao dizer meu nome, perguntei: “Lembra de mim, Gilberto”? E ele: “Não, nem imagino quem seja”. Toma!

Bem menos tempo atrás, outro me cumprimentou: “Adri, oi”! Meu Deus, eu queria que o chão se abrisse. Sem reconhecê-lo, fiquei tentando adivinhar até que caiu a ficha. Ele estava diferente e usava boné. O Paulo Sérgio era um dos coleguinhas de escola, junto com o Felipe José e o meu primo Paulinho, que era fera em matemática. Para mim, Paulo Sérgio era “o máximo” por dominar o idioma da incógnita.

Certa feita, nos corredores da Câmara dos Deputados ouvi: “Oi, Dri, tudo bem”? Sem ter a mínima ideia de quem era a carinha feliz: “Oi, tudo bem, e você”? E a linda morena, sacando que eu nem tchuns: “Você não está me reconhecendo, né”? Porém, na maior sem-cerimônia lasquei: “Você foi minha aluna”? O esquecimento virou um elogio. A ex-colega mandara para o espaço 40 quilos e estava elegantérrima.

Nessa época, o deputado Orlando Desconsi (RS) assumira uma vaga na casa de todos os brasileiros. Fiquei feliz por ele e a nova condição de legislador. Estava cobrindo o plenário e o vi de longe. Desconsi fora um ativo colega de movimento estudantil. A seguir, ao encontrá-lo nas vielas do Anexo Quatro, disse: “Oi, Orlando, lembra de mim? Atuamos juntos no DCE, em 1995, na Unijuí”. Ele: “Não, não me lembro”. Toin!

Atores, músicos, políticos e pessoas mais expostas publicamente ouvem muitas gracinhas de fãs perguntando se eles se lembram da(o) beltrana(o). Capaz, bem capaz! Há ainda quem não se lembre de mentirinha, ou seja, faz de conta para não se comprometer ou se envolver. Isso é outra história. E os que não querem saber do passado? Aliás, tem de tudo no mundo, até quem minta para se livrar de você.

Se a criatura recordar, vai manifestar de algum jeito. Perguntar para quê? Só se for para correr o risco de um sonoro não. É que a memória é um dispositivo incrível que oferece inestimáveis serviços para nos tirar de enrascadas. Entretanto, ela trai com a mesma facilidade do contrário, e nos derruba feito fruta madura do pé. O orador romano Cícero já alertava: “A memória diminui se não for exercitada”. É ou não é? (Adriane Lorenzon)

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Bon voyage


Bons tempos da Panair, anos 1930 (Foto: autoria desconhecida)

Sempre que o assunto é viagem, o papo descamba para saber qual é a nossa melhor companhia aérea. E nas rodas de amigos, a maioria sempre prefere a TAM. Como em todas as vezes que me dirigi a ela, até o ocorrido a ser narrado aqui, eu havia sido mal-atendida ou recebida com aquele olhar de quem está fazendo o basicão, ficava pensando: “Quando vou conhecer esse luxo de bom atendimento”?

Até que, em 2011, indo a Florianópolis, fui apresentada ao quesito tão elogiado por amigos e importante para mim. A equipe do voo JJ 3416 arrasou. Sim, porque são os detalhes que dão sentido a tudo: um projeto, uma amizade, um passeio. Ao alcançar a estabilidade da aeronave, o piloto falou ao interfone o que resumo a seguir com minhas próprias palavras.

“Caros passageiros, aqui é o comandante Antônio Lopes. Primeiramente, quero me desculpar pelo atraso em nossa saída. Foi detectada uma pane, fácil de ser resolvida, mas preferia aguardar os procedimentos necessários para ter certeza que tudo estava bem.” Acrescentou que precisava estar em certa altitude para se comunicar com a devida atenção aos passageiros. Por fim, relatou como estava o tempo e a temperatura na cidade de destino, despedindo-se amavelmente.

Contudo, o mais impressionante foram os aspectos não verbais: a maciez da voz, a firmeza ao tratar de coisas técnicas, a calma no ritmo da fala, o pedido de desculpas (revelando “humildade”, mesmo que treinada). Não havia ruído no equipamento, era possível ouvi-lo com nitidez. Para completar, fez um pouso tranquilo como há muito tempo eu não vivia em tais situações. Pouso de “lamber a pista”, ensinou-me o amigo Paulo Triolo, ex-comissário.

Além disso, que desejo não ser apenas um episódio, a chefe de cabine, Roselaine Procópio, e a comissária, Gabriele Valerie, merecem meu agradecimento. Elas realizaram aquilo que nem mesmo atores experientes conseguem: sorrir com sinceridade. Interagiam com atenção a todos, olho no olho, sorriso nos lábios. Difícil encontrar nesse campo de trabalho uma expressão sem cara de teatrinho, cansaço e máscara blasé.

O transporte aéreo brasileiro melhorou muito, mas há quem se lembre com saudade dos bons tempos da Varig, Varig, Varig. Hoje, classes menos abastadas deslocam-se de avião, ao contrário de 10 anos atrás que só viajava quem podia bancar os altos preços das tarifas. Assim, o acesso ao serviço foi democratizado com a ampliação da malha aérea e, em alguns casos, a redução dos preços – o que pode ser uma ilusão, se analisado o todo.

E já que estamos gastando mais, com diversas empresas operando, é hora de exigirmos atendimento de qualidade superior. Quem viaja de avião sabe que risinho entediado é o menor dos problemas. Falta transparência quanto à manutenção das aeronaves, capacitação adequada das tripulações, respeito com os funcionários das firmas e clientes, simplificação e lisura nas milhagens e pontuações, reestruturação geral dos aeroportos... Mais alguma coisa? (Adriane Lorenzon)

sábado, 5 de maio de 2012

Mastigar pra quê?


(foto: autoria desconhecida)

Claro que você já acordou com uma canção na cabeça e ficou o dia inteiro com ela grudada feito chiclete. Aquelas decoradas, beleza, são cantadas do início ao fim. E as que se sabe apenas uma frase ou o refrão? É um martírio porque a melodia persiste e a letra vira nãnãnã. Se a música é de qualidade superior, meno male. Mas e se for dessas infernais, de gosto duvidoso, que a gente conhece porque foi “obrigado” a ouvir?

Dizem que a perenidade das músicas de baixa qualidade (sob o ponto de vista da elaboração técnica, poética, melódica, instrumental) não existe, pois não criam raízes, são feitas para deglutição rápida por um número acentuado de consumidores sem fome. Comem por comer, por estar na moda, pela imposição da mídia e não porque têm ânsia por algo mais requintado no cardápio cultural de sua lista de preferências musicais.

Então, será que há um tempo específico para tais músicas serem esquecidas? Consideremos as novas tecnologias, o acesso fácil por meio das seleções pessoais, as redes sociais, a disseminação e troca de arquivos entre blogueiros, colecionadores, internautas em geral. Até eu, ou mesmo você, que não sou consumidora de sertanejo universitário, funk, brega, pagode, axé, lembro-me perfeitamente de trechos dos tipos citados.

Saca só. Não preciso nem escrever a letra inteira que dá para recordar a melodia. Faça o teste. “A nova loira do Tchan é linda” (É o Tchan); “Baba baby, baba” (Kelly Key), “Nossa, nossa” (Michel Teló); “Amor, por favor, não desligue o telefone” (Djavu). O problema não é o gosto musical de cada um, e, sim, a formação do gosto musical individual por meio da massificação de um grupo de “músicos” em detrimento da invisibilidade de tantos outros.

É muito chato ligar o rádio na região onde nasci no Sul do país e raramente ouvir uma música que não agrida os ouvidos. Ou, por exemplo, estar às margens de um rio como o Juruá, entre o Acre e o Amazonas, e em vez de soar uma canção local no telefone do moleque que passa por mim, tocar uma dupla de sertanejo universitário “cantando” qualquer coisa conhecida como a música do Neymar. É triste, deprimente, embora compreensível.

Esse mal – que eu chamo de necessário – nos serve para atiçar a urgência do debate. Está mais do que na hora de fazermos uma virada cultural. A começar pelos professores: refinando seu gosto artístico para fomentar a ampliação e pluralidade cultural de seus pupilos dentro e fora da sala de aula. Desse modo, as famílias seriam incluídas num efeito dominó que afetaria, por fim, toda a sociedade – mais crítica, autônoma, tolerante com a diversidade.

Sim, a mídia faria o serviço mais rapidamente. Contudo, ela toparia frear a própria sanha pelo dinheiro fácil? Os movimentos sociais pró-democratização da comunicação lutam para que outras vozes sejam tocadas e ouvidas no rádio, na tevê, na Internet. Mas, enquanto não sofisticarmos o paladar e entendermos que nossos ouvidos não são lixeira, continuaremos a ouvir porcarias. O livre arbítrio se faz quando temos consciência da vida, comparamos situações compreendendo o ambiente ao redor e podemos escolher com independência. (Adriane Lorenzon)

sexta-feira, 23 de março de 2012

Fim da picada


(Foto: autoria desconhecida)

Volta e meia, Mario Quintana falava da amizade, quiçá pela solidão de poeta ou por muito praticá-la. Um dia a definiu como “o amor que nunca morre”. Em outro, advertiu: “Não te abras com teu amigo que ele um outro amigo tem. E o amigo do teu amigo possui amigos também”. É como se o poetinha do Majestic me alertasse: “[Adriane], cada pessoa pensa como pode”. Assim, hoje vou olhar para um aspecto da amizade: ela é para sempre?

Lá pelos 18 anos, considerava todo mundo amigo. Talvez porque me esforçasse para sê-lo. Com o tempo, surgiram as afinidades e uma parte deles se espalhou. Agora, a temática do companheirismo volta à tona. A propósito, há quase uma década me deparo com situações em que alguns se comportam de modo equivocado comigo e fico perdida, sozinha, sem saber como tratar a questão.

Em 2004, contei a uma amiga sobre o fim do romance com meu namorado. Dois dias depois, recebi convidados numa comemoração acadêmica. Chamei também o ex-namorado e a amiga. Pois não é que ela “deu em cima” dele o tempo todo? Veja. Com o término do namoro, ele poderia fazer o mesmo (não o fez por respeito a mim, por ser um gentleman). A moça, como amiga, poderia? Sem a desejar mal, escolhi me afastar dela.

Em 2008, pedi socorro a outra – eu sofria com a morte de minha mãe. Disse-lhe com todas as letras: “Me ajuda”! Desatenta, proferiu que o mundo não pararia por minha dor. Em silêncio estarrecedor, olhei-a sem entender se devia correr dali ou o quê. É óbvio que o mundo não iria parar. Queria apenas chorar com aquela espécie de irmã. No fundo, não me ouviu. Continuamos nos relacionando, porém algo havia se quebrado.

Em 2009, um fato inacreditável com outra amiga. Grosserias, olhares, silêncios, patadas... Sabe a fúria de um coice de cavalo? Deixei “pra lá” para não afetar indivíduos ao redor. Mas foi punk, viu! Em 2011, recaída da amiga de 2008. Desta vez, revelou algo que havia lhe confidenciado. No mesmo período, um familiar fez igualzinho. Aí, decidi reavaliar as parcerias. Entendi que as pessoas, não ficarão, necessariamente, para sempre na vida da gente.

Nesse contexto, sinto ainda por minhas crônicas mexerem com alguns amigos. São os prós e contras de se posicionar no mundo. Explico: há camaradas que discordam da digital literária que escolhi. Não quero perdê-los nem deixar de escrever. Todavia, diversas criaturinhas, exatamente por sintonizarem com temas e óticas espinhosos que trato, estão surgindo no caminho. Quem sabe serão companheiros que me ensinarão renovados saberes?

De tudo isso, é certo: não sei mais lidar com tais amizades. Preciso reprogramá-las. Nessa história, quem são elas, quem sou eu? O que é ser amigo? Não venha com a história de que chapa tudo pode. Nã-nã-ni-nã-nãe. Não pode ser indelicado, dizer tudo de qualquer jeito. Amigo é amoroso, gentil, conhece nossas dores, precisa estar atento, deve nos puxar para cima e não despenhadeiro abaixo. Entretanto, Mario Quintana sentencia: “No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas que o vento não conseguiu levar”.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Planejar ou deixar a vida levar?


(Foto: autoria desconhecida)

Andei pensando bastante na filosofia pagodiana – é bonita, confortável e... ingênua. Euzinha, antes da música de Serginho Meriti e Eri do Cais, cantada por Zeca Pagodinho, estourar nas paradas populares, a adotava. É o velho “deixa rolar” – oportuníssimo, por exemplo, ao tentarmos controlar algo irrefreável, externo à nossa vontade. Mas, no que depende exclusivamente de cada um, o lance muda de figura. O viver, também chamado destino, pode e deve ser alterado até acertarmos o ponto – como numa receita culinária.

Você viajaria de avião, ônibus ou carro se soubesse que o piloto ou chofer não dominam a técnica de pilotar/dirigir? Já pensou nisto: a existência nos conduzindo como motorista cega? Muitas vezes, intuímos que haverá um desastre logo ali; porém, é bem mais cômodo ficarmos paradinhos, sem refletir, permitindo que as coisas simplesmente aconteçam – assim, culparemos o marido, a esposa, o pai, a mãe, os filhos, a vizinha, o governo... O rol de alvos nessa hora é infinito. Sempre haverá, pelo menos, uma vítima: você.

A dimensão se amplia quando sabemos da própria responsabilidade e papel que temos no mundo. Conseguimos resolver se vamos atuar como atores principais ou meros figurantes. Há anos optei por traçar meus passos antes de gastar a energia em realizá-los. Confesso: não tem sido fácil – estamos, frequentemente, conectados a outras pessoas e, dessa forma, precisamos estar preparados para ajustar os planos. Para tanto, é fundamental habilidade e competência. A experiência de vida poderá oportunizar maior êxito no empreendimento.

Todo planejamento estratégico requer determinar etapas: ações, objetivos, prazos, responsáveis, tarefas, estratégias, meios... Contudo, antes dessa serviçama há um estágio essencial exigindo toneladas de sinceridade da gente: definição de prioridades. Não adianta querer comprar o badalado carro do mercado se você não tem recursos nem para pagar as contas do mês. Inclusive, o dinheiro teria de financiar depois diversos itens: manutenção, taxas, melhorias. Embora mediano, sem uma programação detalhada, tal desejo permaneceria na categoria de sonho.

Uma dica importante é entender que sonho não é meta. Sonho é divagar, criar fantasias, devaneios, cenários. Nele, compra-se, faz-se, viaja-se. Naquela é diferente. É necessário ousadia, temperança, disciplina, planejamento, decisão, foco, discernimento. Para transformar um sonho em meta é preciso pensar sobre ele, analisá-lo, depurá-lo. Só então surgirá a meta. Como as prioridades variam, deveremos nos atentar ao fio condutor que guiará a diligência.

Depois de checadas as prioridades e elencadas as metas e demais itens do projeto, é hora de arregaçar as mangas. Arrá! Aqui é que a porca torce o rabo. Metade dos animadinhos de início de ano, aí pelo dia 12 do mês um, já se esqueceram de tudo: caem na real, entendem que não têm vontade suficiente para se manterem firmes no propósito e abandonam o próprio barco. Dá-lhe incentivo nessa hora para compensar a frustração – desculpas não faltam para justificar a todo custo a acovardada atitude.

Trabalhar em uma atividade que nos levará a um resultado com mudança significativa no cotidiano é suar a camisa, incansavelmente. De forma diferente de um plano empresarial em que as ações têm um encarregado por setor, no pessoal, somos o único responsável desde a coordenação até a execução das tarefas propiciadoras da efetivação da meta. É claro que em algum momento contaremos com o valoroso auxílio de quem está ao redor. Mas se não puderem colaborar, não desista! Afinal, o intento é seu.

Observe. Se a meta é não se alimentar com pão branco para melhorar a saúde, morar sozinho é uma vantagem para vencer o desejo de comê-lo. Basta não comprá-lo e formar o hábito de consumir massas integrais. Acompanhado, vivendo em família, a empreitada será mais difícil – conscientize-se disso. Se a turma aderir à sua ideia, ótimo. Se não topar, sinto muito. Árdua tarefa lhe espera – seus olhos vão enviar ao cérebro imagens de pães deliciosos sendo comidos no café da manhã pela parentela. Todavia, novos comandos e condutas deverão ser criados para ajudá-lo a seguir adiante, firme, com prazer e alegria. Por você. Quer motivo melhor? (Adriane Lorenzon)

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Regulando para democratizar


(Arte: autoria desconhecida)

Um dos temas mais comentados nos últimos tempos no ambiente das comunicações e dos movimentos sociais que batalham por ampliar o acesso à informação é o marco regulatório. Entenda o caso: o rádio e a tevê no Brasil são concessões públicas e, portanto, a Constituição Federal estabelece princípios e regras a serem respeitados pelos veículos. Porém, na prática, isso não acontece e, claro, os donos das empresas de comunicação estão atentos para que a coisa fique como está, evitando perda financeira, política, e poder. Sociedade, governo e empresários concordam apenas que é preciso regulamentar o setor em razão do agrupamento das mídias, a chamada convergência digital.

No entanto, quais são os norteamentos deixados de lado pelas “sonsas” emissoras? Por exemplo: a programação deve ser regionalizada; é proibido constituir monopólio ou oligopólio; os conteúdos veiculados, ou seja, as músicas, as notícias, entrevistas, precisam ser culturais, educativos e informativos; é vedada qualquer censura política, ideológica e artística; respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família. Tudo está lá nos artigos 220 a 224 da “nossa” Constituição “cidadã”. Um texto primoroso!

Logo, o que são um conglomerado como a rede Globo e os “pequenos” empreendimentos regionais senão monopólio/oligopólio? De onde são os sotaques mais identificados nos canais? Desde quando uma música como Fugidinha de Thiaguinho e Rodriguinho, cantada pelo próprio Exalta Samba e por Michel Teló, estimulando a sexualidade precoce em crianças e inconsequente em adultos, possui teor educativo? Quando foi divulgado que o pesticida de uma propaganda é perigoso à saúde? Ah, quando, caro leitor, sua opinião foi verdadeiramente importante e levada ao ar?

Mas por que precisamos de um marco regulatório se a Carta Magna é a lei maior? Ocorre que ela não é cumprida porque depende, basicamente, de leis específicas. E as normas já existentes, como o Código Brasileiro de Telecomunicações de 1962, estão ultrapassadíssimas. Afinal, as tecnologias e a sociedade mudaram muito nas últimas décadas. Daí a resolução principal da primeira Conferência Nacional de Comunicação (2009) ser a regulamentação do setor para fomentar a pluralidade e a liberdade de expressão junto a outros públicos da sociedade, não só radiodifusores e seus asseclas.

Sendo assim, o marco regulatório nada mais é que uma lei geral para organizar a bagunça no território dominado pelos donos da mídia. Empresários espertos e jornalistas rasos, sabendo que o Brasil tem um calinho chamado ditadura militar, afirmam: a medida pode estimular a censura. Ora, o argumento das entidades sociais e de subdivisões do governo é justamente o de promover a democracia a partir da regulamentação. Usar a censura como instrumental de luta é pensamento obtuso para desqualificar o debate.

Nesse sentido, o governo federal vem discutindo interna e lentamente tal necessidade e os movimentos sociais criaram uma plataforma para a população opinar sobre o tema. Até sete de outubro qualquer cidadão poderá contribuir com sua opinião. Veja. Não haverá compra de votos, não é obrigatório votar, ninguém será beneficiado com um cargo no governo. Entretanto, a participação popular é de suma importância para a “saúde” de quem se diz ouvinte, usuário ou telespectador.

Provocaçãozinha: você vive reclamando que a tevê está uma porcaria, as crianças não deveriam assistir a certas produções, o rádio só fala o que o dono quer, a mulher é usada como objeto sexual nas propagandas? Apois, intonce. Vamos fazer alguma coisa? Depois não adianta reclamar e dizer que a Globo isso, o Edir Macedo aquilo. Apontar falhas é mais fácil – aliás, mania de muitos conhecidos nossos, não é mesmo? Reclamar é bem menos incômodo do que se engajar.

Acesse www.comunicacaodemocratica.org.br e ajude a construir um modelo de comunicação mais plural, democrático e livre. Isto é, opiniões advindas das diversas correntes e grupos do país, independentemente de região, classe, credo, orientação sexual, partido político, gênero, etnia. Das ideias ali postadas surgirá um documento da sociedade a ser entregue ao governo até o fim de 2011 e, no Dia Mundial da Democratização da Mídia, 18 de outubro, estará disponível no portal. Observe. A democratização do acesso à comunicação e à informação é uma nação falar suas várias vozes e a gente en-ten-dê-las. Não basta ouvi-las. (Adriane Lorenzon)

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Sem medo de ser feliz

(foto: autoria desconhecida)

Você brinca de esconde-esconde consigo mesmo? Sabe dos seus sonhos e teme concretizá-los porque os outros os consideram ousados demais? Passou no curso almejado por seus pais e vai terminá-lo, afinal, já estudou quatro ou cinco semestres? Adoraria viver numa região de clima ameno ou com menos violência, mas suporta a atual, fazer o quê, está acostumado? Um monstrinho toma forma dentro de quem insiste em negar a própria realização. Um dia a coisa toma uma dimensão tamanha e a criatura perde a referência do que é seu e do que é de outrem.

Eu quis atuar como fotógrafa, ginasta, professora, dançarina de jazz contemporâneo, engenheira civil, cantora, jogadora de handebol, poeta. Está bem, é certo: poeta sobrevivendo da comercialização de seus poemas é meio difícil, porém, sonhei. Participei de festivais de música, comecei com Rosana, passei por Elis Regina e Tom Jobim.  Fui péssima jogadora de handebol e o troquei pelas corridas. A engenheira rendeu-se às letras. O jazz virou música para ouvir. Apesar dos empecilhos, procurava uma direção a trilhar...

Certa feita, acordei respirando trabalho, trabalho, trabalho...  Aí decidi sair do emprego e tentar a cidadania italiana. Andava vasculhando a história familiar e, morando em Brasília, aproveitei para buscar dicas na embaixada e com pessoas que conseguiram o documento. A ideia: ficar três meses na Itália para agilizar o processo. Antes, curtiria uma temporada com a família e depois... Velho Continente.

Para ir ao Rio Grande do Sul, à casa paterna, usaria meu carro – levando os pertences principais e oferecendo mais conforto à Penélope, a fofucha gata Pepê. Colegas professores tinham feito jornadas emocionantes parecidas e, por isso, estimaram sucesso no empreendimento. Todavia, quando amigos souberam que não haveria outra pessoa comigo no trajeto... o mundo se acabou. Note, a-mi-gos! Tocaram o terror, como se diz na gíria. Despejaram seus medos em mim afirmando que era perigoso, arriscado, devia tomar cuidado. Perguntei: “Perigoso em quê”? Ninguém soube responder: o medo residia na cabeça de cada um.

Reconheço. Alguns falaram em tom de afeto. Contudo, deram-me de presente um pacote de temores e até de disfarçado desejo de fazer o mesmo e serem impedidos pelo trabalho, marido, namorada, escola das crianças, convenções sociais. O desconhecido assustava a eles; a mim, instigava. Um pouco mais frágil e aberta a influenciações, cancelaria a viagem, mudaria os planos... ou nem pediria demissão porque sair de um trabalho numa empresa pública – ó o status – é quase uma insanidade. Um colega radialista me alertou: “E a estabilidade, Adriane”? E eu lá com os meus botões: “E a minha felicidade”?

Depois de chacoalhar o pelo como fazem os cachorros molhados, botei o pé na estrada. Comprei um superguia em formato A4, separado por estados, facilitando a busca pelas rodovias a serem alcançadas pelo potente um ponto zero, 70 cavalos de pura adrenalina. A peripécia intitulada “A Grande Viagem” me levou a vários estados brasileiros, e cada vez que cruzava divisas sentia-me tão livre e desbravadora como espanhóis e portugueses pelos mares na época dos descobrimentos. Aquilo, sim, era aventura!

Ouvi e reouvi as músicas selecionadas para os dois mil quilômetros do roteiro. Conversei com Pepê – afinal, éramos somente eu, ela e Deus. Refleti sobre o que fizera até ali, as novas conquistas, sonhos e interesses. Aquela parada obrigatória servia para avaliações mais profundas. Tratava-se, na realidade, de uma viagem interior. Em resumo, não fui à Itália, fiquei só na pesquisa genealógica junto à parentela brasileira – Penélope adoeceu e as prioridades mudaram. De novo ouvi barbaridades: “Você está louca, deixar de ir à Europa para cuidar de um bicho”? Ai, ai... dá-lhe paciência...

Descubra: um dos maiores baratos da vida é seguir “o rumo do teu próprio coração”, como nos versos de Nico Fagundes. O lance é que poucos concebem tal projeto porque, entre outros requisitos, é exigido coragem, disciplina e saber surfar no caos das dificuldades do caminho – a propósito, essas estão garantidas. Entretanto, há muito mais que obstáculos – flores, pores do sol, pessoas fabulosas, conhecimento, novos paladares, animais carinhosos nos cativando como a raposa de Saint-Exupéry... E assim a gente vai, dia após dia, se transformando naquilo que sempre quis ser.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Melindres, vitimizações e afins

Tenho observado, há algum tempo, o quanto as pessoas se ofendem à toa. Geralmente, trata-se de miudezas. Exemplo: uma olhada recebida por alguém, em que o possível examinador, na realidade, está divagando absorto e, sem querer, deteve a visão, por um instante, na pobre “vítima”. A criatura “coitadinha” dá um jeito de entender que aquele olhar “quis dizer” isso e aquilo e cria um universo paralelo de achismos e compreensões equivocadas.

Buscando aprimorar o estilo literário, sinto que estou mexendo em vespeiro. O gênero escolhido? A crônica. Miro o infinito a partir de leituras particulares do cotidiano. Impossível cronicar sem conectar meu entendimento pretérito ao que avisto agora. Não faço por mal. Em tais produções, sirvo-me de múltiplos temas dolorosos: os preconceitos homofóbicos; o uso de drogas para sobreviver ao caos do dia a dia; o autoconhecimento, base para a reforma íntima; as relações afetivas tão carentes de zelo...

Mas por que estou metendo a mão em cumbuca? Porque convido meus textos a promoverem a saída da zona de conforto de indivíduos ajustados a uma vidinha de máscaras, ilusões e apatias. Incluindo, aí, euzinha. A comodidade pode ser perigosa se o conhecer a si mesmo estiver ausente das avaliações da vida. Um quê crítico se faz oportuno nessas horas. Indispensáveis, então, a reflexão e o agir profundos para gerar autonomia e liberdade.

Em uma ocasião, falava do apuro técnico de alguns músicos na feitura de seu trabalho. É o caso da paulistana Ná Ozzetti. E citei, ao revés, o funk carioca para ilustrar pobreza melódica, harmônica, poética – até porque o funk originário dos Estados Unidos empregado em trabalhos magistrais de brasileiros (Tim Maia, Djavan, banda Black Rio) é de visível competência. Sem demora, uma pessoa natural do Rio de Janeiro, foi vestindo a armadura na defesa de seu estado. Sabendo-me gaúcha, ironizou: “Por quê? O funk do Rio Grande do Sul é melhor”?

Respirei fundo e expliquei: “Funk carioca é um ritmo criado por moradores da periferia da capital do Rio de Janeiro, a batida é rápida e as letras são erotizadas e violentas. A denominação vem do local onde surgiu o novo estilo”. Entretanto, eu bem preferia tê-la colocado no colo, como um pai ao contar para o filho uma experiência de vida, e esclarecido que é muito dispendioso o revide constante. Gasta-se muita energia. A propósito, muita gente vive como se fosse sempre a vítima e precisasse se defender, atacando.

Daí surgiu uma espécie de hipótese/doença, a “teoria da vitimização” ou o “complexo de coitadinhos”. Conheço vítimas do governo, da burguesia, das dietas, do professor, do médico, da amiga... até dos meus escritos. Uma coisa é a pessoa ser vítima, em alguma situação específica. Outra, bem diferente, é jogar sua raiva para o mundo pelas suas frustrações e descontentamentos e o tempo todo se colocar no posto do prejudicado, no altar da imolação. Onde está a autoria dos seus passos?

Infelizmente, já fui um pouco assim. Estou me tratando e tenho obtido bons resultados. Ou seria felizmente? Tomando consciência do que sou e dos exemplos ao redor, posso observar quando o tsunami do “coitadismo” se aproxima de minha praia pessoal. Sócrates, ao ser apontado como o maior sábio da Grécia, afirmou ter certeza do quanto não sabia, mas amava o não saber que o estimulava a perscrutar o desconhecido.

O pensar investigativo é construído, portanto, a partir do ato de constatar. E de mais a mais, afirma Paulo Freire, “ninguém supera a fraqueza sem reconhecê-la” (in Pedagogia da indignação, 2000). É tempo de o “complexo de coitadinhos” ou a “teoria da vitimização” cederem espaço para a prática da responsabilidade sobre nossas escolhas, ação embasada no livre-arbítrio consciente. Chega de colocar a culpa no outro. Liberte-o! A causa dos sucessos e
fracassos que apresentamos no curriculum vitae está somente em nós.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Ignorância

(Cartum: Frederico Ponzio, 2007)


Adriane Lorenzon está preparando um texto para mexer com as podridões humanas.

Vamos conversar abertamente sobre preconceito e ignorância, aliás, termos indissociáveis...

Pense no quanto você fala em amor, não julgar, cuidado, responsabilidade, cidadania... e no quanto você age em cima desses argumentos...se ainda não sabe, você é parte do mundo, pode ajudá-lo a ser melhor!

Até amanhã! 

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Faixas de... segurança?

(Ilustração: revista Nosso Amiguinho)

Em abril de 1997, foi lançada em Brasília uma campanha educativa para orientar transeuntes e motoristas quanto ao uso das faixas de pedestre. Durante meses, na televisão local, o menino-personagem levantava a mão ao entrar na faixa, porém, só cruzava por ela depois que os primeiros carros reduzissem a velocidade e parassem. Logo, logo os moradores aderiram à ideia e passaram a cumprir a regra.


Até hoje, 14 anos depois, de modo geral, a coisa funciona mesmo, com alguma publicidade eventual para reforçar o imaginário coletivo. É só parar no início da pintura listrada, esticar a mão e o motorista ao longe já sabe a senha. Exemplo: um ciclista não deve passar pedalando; antes, desce da magrela, dá o sinal e atravessa caminhando. Nesse sentido, poucas são as cidades que realmente se educaram para um trânsito seguro.

Ijuí, Rio Grande do Sul, orgulha-se de ser uma das primeiras cidades do país a respeitar a faixa. Entretanto, euzinha, fui testemunha “incômoda” da história. Como motorista, observei, inúmeras vezes, pedestres tendo a preferência, de forma ininterrupta. Alguns davam-se ao luxo de passear, ou melhor, desfilar pela zebra do asfalto. E os motoristas ficavam esperando, esperando, indefinidamente. Contudo, um semáforo para pedestres aguarda desde 2010 para ser ligado. Quando rolar, todo mundo terá sua vez. Moleza, não?

Em Porto Alegre a situação é complicada. Cidade com trânsito caótico e muita poluição sonora provocada por buzinas. Lá, acompanhei a tentativa de instalação de programa educativo para motoristas e pedestres. Não funcionou, ainda. Aliás, ao dirigir naquelas ruas e avenidas, sofro horrores. Fico sempre na dúvida entre cuidar da pessoa na faixa e deixar o motorista de trás bater no meu carro. Tal cidadão [hein?] não se educou para o trânsito defensivo, ou seja, a campanha existe, mas educação que é bom... exige tempo, investimento, dedicação.

(Foto: Cynthia Vanzella, Porto Alegre)

Conheço cidades em que os habitantes não ousam desafiar motoristas – aguardam os veículos passar e depois atravessam tranquilos. Em outras, cruzam correndo na primeira oportunidade. Um risco! E há localidades sem sinalização, logo, qualquer lugar serve para atravessar. Nos municípios menores, descobri pedestres no início das listras, esperando para passar. Quando o motorista para, eles fazem sinal para o carro seguir: é como se dissessem, não precisava ter parado, só estou curtindo o movimento.

E tem mais. Viajando de carro pelo país, recentemente, vi faixas de segurança no meio da estrada. Como assim? Ninguém para ali. Ninguém. Vi isso no Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Não há quebra-mola, escola por perto, fluxo intenso de pessoas, nem mesmo uma sinaleira para justificar ou auxiliar. As placas indicam, geralmente, 80 km/h, porém a maioria dos veículos ultrapassa o permitido. A faixa é só para ilustrar a pista, compor o visual.

Ora, cada lugar tem uma característica específica, principalmente pelos aspectos culturais. É preciso analisá-los para criar uma metodologia eficaz de educação para o trânsito. Quem são os motoristas, como se comportam, o que pensam, como administram conflitos, como tomam decisões? O trânsito é parecido com a vida, há vias preferenciais, duplas, sem saída, de mão única. Se na sinaleira a criatura se comporta buzinando ao motorista da frente só porque o carro deste não vai de zero a 100 km/h em quatro segundos, nos outros departamentos da vida, muito provavelmente, irá cometer desrespeitos vários.

(Criação: desconhecida / The Simpsons)

Educação é para todos. Certo? Então, não seria sem tempo a criação de uma iniciativa permanente para formar habitantes, do campo e da cidade, pedestres mirins e motoristas neófitos. Mas saliento: campanha e-du-ca-ti-va. A proposta deverá auxiliar aqueles que ainda não sabem viver em comunidade a se inserirem num mundo mais civilizado. E renovar, a quem se diz “educado”, os lembretes necessários de paciência e tolerância. Fácil, fácil.