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quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Cadê eu?

(Arte: autoria desconhecida)

Com o advento das redes sociais, o Facebook, em especial, todo mês de outubro é a mesma coisa. Os perfis se transformam com as fotografias fofas de nossos amigos da época de criança. Tem marmanjo que não mudou nadinha. A cara é de um e o focinho também. Na hora dá para detectar que o rosto é nosso velho conhecido. Tem bebê de colo, no berço, engatinhando, com animais de estimação, com os pais, na bicicleta...

Quanto a mim, quase não tenho fotos da infância. Embora isso esteja resolvido, sinto uma vontade danada de saber como eu era. Eu sei que eu seria como todo mundo, igualzinha ao que sou agora. Mesmo assim, essa outra Adriane, perdida num passado distante, me fascina e instiga a recordação que, às vezes, traz à tona imagens sem negativos ampliados. Quiçá, poderei descrevê-las, para o deleite dos psicanalistas...

O retrato mais antigo que tenho de mim, eu não apareço nele. Explico. Trata-se de um 3 x 4 de minha mãe grávida de mim. Mas euzinha só vou aparecer numa foto do meu batizado quando tinha seis anos, em 1978. Em pé, de vestido rosa-bebê, tento me equilibrar de cabeça para baixo na pia batismal. De novo não apareço na foto, quem se destaca é o padre. Contudo, depois tiramos uma com D. Maria e seus três filhotes.

Muitas famílias guardam fotos dos filhos montados num cavalinho de brinquedo. Já viu? Os fotógrafos eram uma espécie de vendedores de sonhos. Como os mascates que vendiam de tudo pelos rincões do Brasil, os retratistas ofereciam essa futura viagem ao passado impressa no papel. E todo mundo queria aproveitar a estada deles na região para registrar as lembranças, ainda que fossem nos pequenos monóculos...

Recentemente, apareceu outra, de 1977, postada pela querida Geovana Lang. Alheia ao desfile de Sete de Setembro, minha roupa é alaranjada, diferente do azul e branco predominante. Geovana afirma que a moreninha de farta cabeleira sou eu. Será? Minha mãe explicava que não existia o hábito de fotografar, como na atualidade que todos temos uma câmera à mão. Tirar foto era o evento. Porém, no fundo, no fundo, lá onde o tempo faz morada, sinto falta da memória dissipada no esconderijo dos dias. (Adriane Lorenzon)

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Falsas alegrias

(Foto: autoria desconhecida)

Duas meninas, de um ano e seis meses e um ano e dez meses, se encontraram e foram se aproximando, titubeantes, como é o caminhar dessa idade. Meus olhos flagravam o inusitado. Todos aguardavam a possibilidade de confronto – crianças brigam, puxam cabelo... Contudo, o que presenciamos foi um gesto de amor. Uma delas parou, fitando a outra se achegar. Esta alcançou o rosto da nova amiga e o acariciou com a delicadeza típica da pureza.

O filme (poderia sê-lo, mas era realidade) estava rodando quando um grito, três mesas à frente, interrompeu a tomada. A mocinha em ação parou, olhou em direção ao som com a calma dos sábios, aguardou o pseudossilêncio, e prosseguiu na eternidade e ternura do gesto. Novo grito, nova parada, novo recomeço. Depois, tudo de novo de novo. Até que as pequenas professoras envolvidas com a possibilidade de comer um salgadinho saíram de cena. Corta.

Numa dessas circunstâncias da vida, reencontrei uma amiga que não via há dez anos. Ela sugeriu um bar para irmos e não vi problema nenhum – não era eu que conhecia a cidade e o reencontro em si era o mais importante. Ao chegarmos, vi um telão ao fundo e uma tevê gigante na entrada em alto volume. A bola rolava numa disputa de título. O ruído atrapalharia qualquer intento de relaxamento e interação. Pensei: “Será que vamos conseguir conversar”?

Perto da gente, um rapaz, de costas para mim, gritava enlouquecidamente a cada gol ou possibilidade de balançar de rede. Os urros eram altos e prolongados. No apito final, bateu na mesa, gesticulou com o punho fechado para o alto, e se eu olhasse de perto, babava, extravasando sentimento raivoso. Na mesa, tentávamos dialogar. Assim como o gesto das crianças fora interrompido, paramos também. Corta.

O momento, para mim, era singular – não frequento esses espaços. Então, sem resistir à ironia, perguntei ao irmão da minha amiga: “Quanto o Fluminense está pagando para o cara torcer assim”? Também apaixonado, porém controlado, disse que fazia quatro anos que o Clube não ganhava uma premiação dessas. Eufórica (o ambiente estimulava isso), ouvi 34 anos. Aí entendi, aceitei por um segundo, mas fui corrigida: “Não, é quatro anos”. E eu: “Ah”...

Além do mais, o gritão vinha acompanhado da namorada/esposa. Lá no fundo, a feminista que mora em mim, perguntava-se: “Que mulher é essa que se sujeita a isso ou, pior, que gosta disso”? Entenda, caro leitor. Mesmo que algumas ainda passeiem meio tontas, nós mulheres viemos equalizadas de fábrica, ligadas a sentimentos nobres, pois temos, de modo geral, a missão de elevar a frequência vibracional do mundo: famílias, relacionamentos, empresas...

Conclusão mais do que óbvia: sinto uma megadificuldade de me situar numa sociedade que valoriza abusos. Não me refiro aos grandes dramas humanos como a miséria e a guerra. Falo daquilo que aos olhos da maioria é bonitinho, engraçado, e, portanto, aceitável: excessos no carnaval, futebol fanático, músicas incentivadoras de vidinhas mais ou menos. Por fim, acabo sendo, eu, a desajustada, digna de reconhecer a velha máxima: “Os incomodados que se retirem”. Entretanto, da grande viagem da existência, não dá para desembarcar. Mas do bar, bem que eu respirei aliviada quando minha amiga nos convidou: “Vamos”? (Adriane Lorenzon)