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sexta-feira, 23 de março de 2012

Fim da picada


(Foto: autoria desconhecida)

Volta e meia, Mario Quintana falava da amizade, quiçá pela solidão de poeta ou por muito praticá-la. Um dia a definiu como “o amor que nunca morre”. Em outro, advertiu: “Não te abras com teu amigo que ele um outro amigo tem. E o amigo do teu amigo possui amigos também”. É como se o poetinha do Majestic me alertasse: “[Adriane], cada pessoa pensa como pode”. Assim, hoje vou olhar para um aspecto da amizade: ela é para sempre?

Lá pelos 18 anos, considerava todo mundo amigo. Talvez porque me esforçasse para sê-lo. Com o tempo, surgiram as afinidades e uma parte deles se espalhou. Agora, a temática do companheirismo volta à tona. A propósito, há quase uma década me deparo com situações em que alguns se comportam de modo equivocado comigo e fico perdida, sozinha, sem saber como tratar a questão.

Em 2004, contei a uma amiga sobre o fim do romance com meu namorado. Dois dias depois, recebi convidados numa comemoração acadêmica. Chamei também o ex-namorado e a amiga. Pois não é que ela “deu em cima” dele o tempo todo? Veja. Com o término do namoro, ele poderia fazer o mesmo (não o fez por respeito a mim, por ser um gentleman). A moça, como amiga, poderia? Sem a desejar mal, escolhi me afastar dela.

Em 2008, pedi socorro a outra – eu sofria com a morte de minha mãe. Disse-lhe com todas as letras: “Me ajuda”! Desatenta, proferiu que o mundo não pararia por minha dor. Em silêncio estarrecedor, olhei-a sem entender se devia correr dali ou o quê. É óbvio que o mundo não iria parar. Queria apenas chorar com aquela espécie de irmã. No fundo, não me ouviu. Continuamos nos relacionando, porém algo havia se quebrado.

Em 2009, um fato inacreditável com outra amiga. Grosserias, olhares, silêncios, patadas... Sabe a fúria de um coice de cavalo? Deixei “pra lá” para não afetar indivíduos ao redor. Mas foi punk, viu! Em 2011, recaída da amiga de 2008. Desta vez, revelou algo que havia lhe confidenciado. No mesmo período, um familiar fez igualzinho. Aí, decidi reavaliar as parcerias. Entendi que as pessoas, não ficarão, necessariamente, para sempre na vida da gente.

Nesse contexto, sinto ainda por minhas crônicas mexerem com alguns amigos. São os prós e contras de se posicionar no mundo. Explico: há camaradas que discordam da digital literária que escolhi. Não quero perdê-los nem deixar de escrever. Todavia, diversas criaturinhas, exatamente por sintonizarem com temas e óticas espinhosos que trato, estão surgindo no caminho. Quem sabe serão companheiros que me ensinarão renovados saberes?

De tudo isso, é certo: não sei mais lidar com tais amizades. Preciso reprogramá-las. Nessa história, quem são elas, quem sou eu? O que é ser amigo? Não venha com a história de que chapa tudo pode. Nã-nã-ni-nã-nãe. Não pode ser indelicado, dizer tudo de qualquer jeito. Amigo é amoroso, gentil, conhece nossas dores, precisa estar atento, deve nos puxar para cima e não despenhadeiro abaixo. Entretanto, Mario Quintana sentencia: “No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas que o vento não conseguiu levar”.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Crônica de uma dor anunciada


Sócrates em sua melhor forma.
(Foto: autoria desconhecida - Getty Images)

Ninguém esperava, ninguém desejava, mas aconteceu. O ex-jogador de futebol e comentarista esportivo Sócrates foi parar no hospital. Ao lado dele, médicos e a esposa dedicada deram-lhe o suporte necessário. Sobreviveu. Sócrates aprendeu tanta coisa na faculdade de medicina, deve ter visto tanto exemplo nesse mundo – do alto dos 57 anos de vida – e, mesmo assim, precisou trilhar o caminho da dor para aprender algo que o fizesse modificar hábitos. Logo o “doutor” Sócrates, como é chamado.

Depois de nove dias internado, concedeu entrevista coletiva em São Paulo, confessando ser alcoolista. “Quem usa álcool cotidianamente é alcoólatra”, afirma. Em seguida, contou sua história no programa Fantástico da tevê Globo. Uma revelação surpreendente para muitos. Entretanto, para quem já se ligou que a vida é muito mais que um passeio, levou as declarações do famoso ex-jogador como “naturais” do processo de quem busca a dor – conscientemente – como opção de vida. Uma pena, certo?

Com um ponto cirrótico em região hipersensível do fígado, precisou se submeter a procedimentos terapêuticos para estancar uma hemorragia digestiva decorrente da doença. Pode-se afirmar que o fígado adoeceu, em parte, pela própria vontade do agora enfermo. O quê? Sim, observe. O eterno craque do futebol afirmou ser dependente do álcool “quando queria” e, se bebia, constantemente, o fez de modo forçado, obrigado por alguém? Isso lhe é familiar, caro leitor? Desde quando ouvimos falar em livre arbítrio, lei da causa e efeito ou da ação e reação, e ainda, da importância de responder por nossos atos?

Veja bem. Eu sei que estou pegando pesado, como se diz por aí. Porém, uso o exemplo de Sócrates – tornado público por ele – para chamar à atenção um assunto gravíssimo que permeia nossa sociedade e insistimos não ver. O ídolo observa que não poderá beber nem fumar para poder auxiliar na eficácia do tratamento. Sem esquecer-se da dieta rigorosa e dos exames frequentes. A “abstinência vai ser total daqui para frente, para que meu fígado reúna condições de se equilibrar totalmente e que não dê mais problemas”, comenta. 

Sócrates tem noção de que renasceu. “Eu não vou beber porque eu quero que meu fígado esteja bom para que eu possa usar bem a nova vida que eu ganhei. Ganhei outra vida e vou ter que saber usar”, sentencia. Bingo! A gente deveria entender isso sem precisar passar pelo caminho da dor – todavia, ela é generosa e nos ensina tanto em pouco tempo. Esperançoso e com vontade de viver, Sócrates fala de sua experiência: “É nessas horas que a gente cresce. Saio muito mais forte, muito maior e com muito mais compromissos e responsabilidades que eu tinha antes”.

Mal comemorou a alta hospitalar, o ex-meio-campista das copas de 1982 e 86 voltou a ser internado para intervenção medicamentosa e endoscópica na segunda hemorragia digestiva – consequência danosa no organismo dessa doença que muita gente pensa que é coisa da família do vizinho: a dependência de álcool. E, segundo a mulher dele, Kátia Bagnarelli, a notícia não é boa. Se em seis meses o fígado não responder positivamente, a hipótese da substituição do órgão será considerada. “Hoje ele não pode fazer, mas a cura para a doença (...) seria o transplante”, afirma.

Começaria, então, uma emocionante fase. Não sem um misto de esperança e ansiedade. Se tiver de transplantar o fígado, a fila é enorme – são cinco mil pessoas em todo o país aguardando para receber outro órgão. O ex-atleta terá de exercitar a paciência. Segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Hepatologia, Raymuno Paraná, a ordem de prioridade é determinada pela gravidade de cada caso. “O Brasil tem um dos programas de transplantes do mundo mais sérios. Ele é nacional, não há prioridades. A prioridade é ditada pelo quadro clínico do paciente”, conclui o médico categórico. Além do mais, não há como furar a fila.

É claro: não falta torcida para o ídolo do futebol brasileiro se recuperar logo. Amigos, também ex-jogadores, enviaram recados, como Biro-biro e Zenon. A mensagem de Wladimir foi a mais contundente: “Você fica negligenciando a sua saúde e esquece que é referência para muita gente no país inteiro, no mundo inteiro. Vamos cobrar isso de você, boa sorte”! Palavras sábias do ex-lateral esquerdo; talvez, sirvam muito mais a mim e a você, do que ao próprio doente. O amigo Casagrande, completa, em tom de brincadeira: “Agora é só aguinha tônica, água sem gás. Nós dois sentadinhos, batendo papo, tomando água”.  E eu pergunto: quer coisa melhor? (Adriane Lorenzon)

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

O mal e a inteligência


(Foto: autoria desconhecida)

Lá se vai uma década do maior atentado terrorista de que se tem notícia no Ocidente. Um plano “perfeito”, gestado aos poucos, sem pressa, mostrando a competência da humanidade quando seu desejo íntimo é usar a inteligência a serviço do mal; sua alma se satisfaz com o egoísmo; quando o duelo é prioridade e, o diálogo, coisa de um futuro distante; ensinamos e vivenciamos a guerra dentro de nossas casas; quando somos intolerantes com o diferente e o desconhecido – logo nós, eu e você, que fomos criados tão bem, dentro de elevadíssimos princípios éticos.

Alguém poderia pensar: o evento ao World Trade Center é um caso isolado, pois Bin Laden sempre teve bens materiais disponíveis e associou-se desde a Guerra Fria aos Estados Unidos. Criou-se, então, a cobra. Será? E a obscura Idade Média com a elite religiosa matando em nome de Deus? Mil anos devastando a inteligência que poderia criar, esclarecer, consolar! Falando nisso, e o extermínio de indígenas em nosso território? E a perseguição e carnificina de ciganos, judeus, homossexuais, testemunhas de Jeová, doentes mentais, eslavos, deficientes físicos da longa lista dos enjeitados de Hitler?

O passado não serve para o remoermos, porém é útil para nos aperfeiçoarmos, empregando a inteligência em favor de todos. Entretanto, teimosos, preferimos atrasar tudo. Os tempos bárbaros, nesse sentido, vão longe e muito evoluímos enquanto trajetória humana, em especial, nos quesitos tecnológicos e intelectuais. E os morais? A propósito, essa melhoria só ocorre quando não impomos condições adversativas à sociabilidade respeitosa e mantemos o bom ânimo para não estagnar. Vejamos alguns casos de como a inteligência é utilizada para o mal, para a obtenção de “vitórias” pessoais – num intenso exercício de vaidade e ambição. É o mau direcionamento da inteligência desviando condutas, caracteres, famílias...

Fernandinho Beira-mar: um homem com o corpo preso; a cabeça, não. De dentro das cadeias, fatura, por mês, cerca de um milhão e meio de reais comandando exércitos obstinados a alimentar o mal – este, arquitetado, diga-se de passagem, ao longo de desestruturadas vivências familiares. Estudiosos afirmam: o menino Luiz Fernando da Costa, criança de alta habilidade (superdotada), recebeu os estímulos que precisava em tenra idade no específico do que é hoje. Possivelmente, tinha um “talento especial” que foi valorizado ao revés. Daí a importância de pais e educadores incentivarem crianças, de todas as classes sociais, para o positivo: amor, compreensão, respeito, disciplina, tolerância, afabilidade.

Ah, e a corrupção!? Essa erva daninha de raízes profundas em solo tupiniquim nascidas, sob um aspecto, antes da invasão, quando Portugal dominava países africanos e o Brasil, de fato e de direito, não fora cartografado. Basta ler a obra de Sérgio Buarque de Hollanda, Raízes do Brasil. Homens corruptos sempre existiram. Está certo: em algum momento, mulheres, apesar de sua sensibilidade aguçada para ver além, igualmente se converteram à prática ignóbil e perversa de enganar o outro. Há poucos dias, no plenário da Câmara dos Deputados, a jovem parlamentar Jaqueline Roriz justificava o pesado maço de R$ 50 mil – recebido nas coxias da política brasileira – com argumentos ofensivos a qualquer cidadão honesto: “Em 2006, eu era uma cidadã comum”.

Diz-se que Alberto Santos Dumont ao saber do aproveitamento funesto de seu maior invento, o avião, na Guerra Mundial de 1914 a 1918 e, depois, com o mesmo fim bélico, na Revolução Constitucionalista de 1932, sentiu profunda tristeza. Santos Dumont já estava doente com a esclerose múltipla e uma depressão profunda, vindo a piorar com a constatação do uso de sua “cria” mais engenhosa. “Ele acreditava que o avião deveria servir para unir as pessoas, como meio de transporte e, por que não, de lazer, como (...) havia demonstrado, ao deslocar-se em suas aeronaves em Paris para assistir à ópera ou visitar amigos”, afirma Luciano Camargo Martins da Universidade do Estado de Santa Catarina.

Amigo leitor, observe. O mal está em todo lugar pela omissão dos fracos, também conhecidos como bons, que dizem não fazer o mal. Aliás, o mal seria o resultado da ignorância? O bem “é” – o mal foi inventado por quem, será? Paradoxal, meu caro Watson. Seres inteligentes... os únicos do Planeta! Enquanto não enxergarmos o tanto de bem que existe em nós e o quanto dele se expandirá ao atingir o outro sobremaneira, permaneceremos em castelos de areia, iludidos com a felicidade gerada por sensações vãs e polêmicas vazias – de braços cruzados, dizendo com imponência: “eu” não faço o mal, “eu” sou uma pessoa do bem. (Adriane Lorenzon)

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Portas e janelas do coração

(Foto: autoria desconhecida)

Aproveitando-me de nossa amizade, caro leitor, faço-lhe um convite de chofre. Abra o guarda-roupa e veja a quantidade de peças que você não usa faz tempo. Esqueceu-se que havia comprado; está esperando emagrecer; achou que não caiu tão bem num dia e na primeira oportunidade, miraculosamente, cairá; aguarda a aquisição de uma veste especial que, aí, sim, vai combinar... De desculpa em desculpa o armário vai enchendo de um vestuário cheirando o mofo da futilidade. Olhe para dentro de si mesmo e invista no amor...

Nesses dias de inverno, uma dor cortante faz pessoas sofrerem por falta de agasalhos. Crianças e idosos são os mais castigados. Entretanto, moradores de rua, de todas as idades, são alvos dessa espécie de entidade que circunda os corpos, impede-os de dormir, machuca ossos e músculos. E os cães e gatos, em pleno julho, esquecidos ao relento? Minha prima Marta coloca água quente em garrafas PET, depois de bem fechadas e enroladas em panos velhos, as deixa no local de dormir dos bichos. Eles adoram! O frio é como a fome, tem pressa.

Para ajudar, bolei um passo a passo da faxina no armário. Se você é muito apegado ao material, até se sensibiliza com a tristeza alheia, mas está sem atitude, siga as dicas: primeiro, tome a decisão e vá ao quarto sozinho ou com alguém de bom gosto. Segundo, selecione peças. Verifique aquelas mais usadas porque você gosta e se sente bem. Deixe-as de lado. Depois, separe as que não usa e quais combinam com as reservadas.

De imediato, note: muitas delas não são vestidas, basicamente, por dois motivos: você as comprou no impulso e não iria utilizá-las mesmo ou não pensou em usá-las com outro traje. Experimente a vestimenta trocando as combinações, inclusive com calçados diferentes. Olhe-se no espelho, perceba a harmonia e em quais eventos poderia usar a peça. Se a conclusão é que você a usaria pouquíssimas vezes, em alguma solenidade que raramente será convidado, jogue-a no monte de doação. Você não irá usá-la. Confie nisso!

Feio o modelito? Descarte-o, sem medo. Seja autoconfiante, bem como autocrítico. Se não agradou, assuma. Se ficou bem, acredite. Porém, não se iluda que se você emagrecer dois quilos a calça daí, sim, será um luxo. Sei de inúmeros necessitados em que essa roupa ficará muito melhor.  Desapegue-se, já! Observe a contradição: quanto mais o ser humano envelhece, mais difícil de se desapegar. Isso é quântico! Imagine: fluidos e fluidos de apego e acúmulo material durante toda a vida só podem gerar mais apego e acúmulo. Ah, e caixão não tem gavetas!

Outra sugestão: compartilhe o que adquiriu. Esse entulho todo serve para isso. Aproveite a chance que o inverno lhe dá e seja caridoso. Custa quase nada porque tudo o que você conseguiu juntar, na realidade, foi um empréstimo do universo para seu transitório pseudoprazer. Agora é hora de auxiliar em uma tarefa muito maior que o próprio umbigo. Ajude pessoas e animais a aliviarem o que sentem à flor da pele: as baixas temperaturas.

Além do mais, se você for muito apegado mesmo, preste atenção: nesse mundo consumista em que vivemos, não se preocupe, você será muito mais estimulado a comprar, comprar, comprar, do que doar, doar, doar. Certamente, haverá um shopping nas redondezas, uma loja com uma megafaixa de 50% off na vitrine, e muitas promoções e liquidações. Estratégias para convencê-lo de que sempre falta alguma coisa. A indústria do consumo existe para lembrá-lo disso. Doar para quê?

Por fim, uma cutucadinha importante para agilizar a empreitada. Se há dificuldade de se desvencilhar de um pedaço de pano, que se dirá da separação de um namorado, amigo, ente querido? Vá se testando com roupas, calçados e objetos. Capriche na reeducação interior enquanto é tempo. Quartos, malas, estantes empoeirados, obscuros e com teia de aranha de tanta vaidade são doença, e gostar de enfermidade é masoquismo. Nesse caso, egoísmo. A cura está ao alcance de seu coração – abra as portas e janelas e deixe a luz entrar. (Adriane Lorenzon)

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Sem medo de ser feliz

(foto: autoria desconhecida)

Você brinca de esconde-esconde consigo mesmo? Sabe dos seus sonhos e teme concretizá-los porque os outros os consideram ousados demais? Passou no curso almejado por seus pais e vai terminá-lo, afinal, já estudou quatro ou cinco semestres? Adoraria viver numa região de clima ameno ou com menos violência, mas suporta a atual, fazer o quê, está acostumado? Um monstrinho toma forma dentro de quem insiste em negar a própria realização. Um dia a coisa toma uma dimensão tamanha e a criatura perde a referência do que é seu e do que é de outrem.

Eu quis atuar como fotógrafa, ginasta, professora, dançarina de jazz contemporâneo, engenheira civil, cantora, jogadora de handebol, poeta. Está bem, é certo: poeta sobrevivendo da comercialização de seus poemas é meio difícil, porém, sonhei. Participei de festivais de música, comecei com Rosana, passei por Elis Regina e Tom Jobim.  Fui péssima jogadora de handebol e o troquei pelas corridas. A engenheira rendeu-se às letras. O jazz virou música para ouvir. Apesar dos empecilhos, procurava uma direção a trilhar...

Certa feita, acordei respirando trabalho, trabalho, trabalho...  Aí decidi sair do emprego e tentar a cidadania italiana. Andava vasculhando a história familiar e, morando em Brasília, aproveitei para buscar dicas na embaixada e com pessoas que conseguiram o documento. A ideia: ficar três meses na Itália para agilizar o processo. Antes, curtiria uma temporada com a família e depois... Velho Continente.

Para ir ao Rio Grande do Sul, à casa paterna, usaria meu carro – levando os pertences principais e oferecendo mais conforto à Penélope, a fofucha gata Pepê. Colegas professores tinham feito jornadas emocionantes parecidas e, por isso, estimaram sucesso no empreendimento. Todavia, quando amigos souberam que não haveria outra pessoa comigo no trajeto... o mundo se acabou. Note, a-mi-gos! Tocaram o terror, como se diz na gíria. Despejaram seus medos em mim afirmando que era perigoso, arriscado, devia tomar cuidado. Perguntei: “Perigoso em quê”? Ninguém soube responder: o medo residia na cabeça de cada um.

Reconheço. Alguns falaram em tom de afeto. Contudo, deram-me de presente um pacote de temores e até de disfarçado desejo de fazer o mesmo e serem impedidos pelo trabalho, marido, namorada, escola das crianças, convenções sociais. O desconhecido assustava a eles; a mim, instigava. Um pouco mais frágil e aberta a influenciações, cancelaria a viagem, mudaria os planos... ou nem pediria demissão porque sair de um trabalho numa empresa pública – ó o status – é quase uma insanidade. Um colega radialista me alertou: “E a estabilidade, Adriane”? E eu lá com os meus botões: “E a minha felicidade”?

Depois de chacoalhar o pelo como fazem os cachorros molhados, botei o pé na estrada. Comprei um superguia em formato A4, separado por estados, facilitando a busca pelas rodovias a serem alcançadas pelo potente um ponto zero, 70 cavalos de pura adrenalina. A peripécia intitulada “A Grande Viagem” me levou a vários estados brasileiros, e cada vez que cruzava divisas sentia-me tão livre e desbravadora como espanhóis e portugueses pelos mares na época dos descobrimentos. Aquilo, sim, era aventura!

Ouvi e reouvi as músicas selecionadas para os dois mil quilômetros do roteiro. Conversei com Pepê – afinal, éramos somente eu, ela e Deus. Refleti sobre o que fizera até ali, as novas conquistas, sonhos e interesses. Aquela parada obrigatória servia para avaliações mais profundas. Tratava-se, na realidade, de uma viagem interior. Em resumo, não fui à Itália, fiquei só na pesquisa genealógica junto à parentela brasileira – Penélope adoeceu e as prioridades mudaram. De novo ouvi barbaridades: “Você está louca, deixar de ir à Europa para cuidar de um bicho”? Ai, ai... dá-lhe paciência...

Descubra: um dos maiores baratos da vida é seguir “o rumo do teu próprio coração”, como nos versos de Nico Fagundes. O lance é que poucos concebem tal projeto porque, entre outros requisitos, é exigido coragem, disciplina e saber surfar no caos das dificuldades do caminho – a propósito, essas estão garantidas. Entretanto, há muito mais que obstáculos – flores, pores do sol, pessoas fabulosas, conhecimento, novos paladares, animais carinhosos nos cativando como a raposa de Saint-Exupéry... E assim a gente vai, dia após dia, se transformando naquilo que sempre quis ser.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Workaholic de plantão

(Arte: autoria desconhecida)


Durante muito tempo fui uma workaholic (lê-se uorcarrólic). Na tradução literal do inglês, viciada em trabalho. Eu achava o máximo. Desde adolescente ralava pra caramba, nem desconfiava do uso de tal palavrinha esquisita. Lazer e descanso? Só o básico. No início eu me divertia bastante, sempre disposta a sair mais tarde e madrugar no trampo, como diz a gíria. Embora eu me aperfeiçoasse profissionalmente, tudo ia muito bem para chefes e empresas. Mas a minha saúde...

Comecei a me questionar, pois algo não andava bem: o principal instrumento de trabalho, a voz, apresentava pequenas falhas. O quadro geral evidenciava sensibilidade ao engolir a saliva, rouquidão e pigarro constantes; resultado do mau uso dessa ferramenta. A formiguinha envaidecida por gostar tanto da labuta teve de parar. Classifiquei a dependência como estágio agudo, não crônico. Isto é, havia salvação.

Nessa época, 2003, larguei algumas atividades. Afinal, eu produzia, redigia e gravava um programa de rádio, dava aula em duas instituições de ensino superior (com aquele mundaréu de provas e trabalhos para corrigir), cursava mestrado, atuava como free lancer, participava de um grupo de estudo e me dedicava a uma tarefa voluntária. Detalhe: os serviços de casa também ficavam sob minha responsabilidade, além das compras e dos cuidados com o carro. A bola de neve ia crescendo, crescendo... Usei o dinheiro faturado no período de alto rendimento para pagar médicos, psicoterapias e afins.

Depois da fase pior consegui me reequilibrar, mas o trabalho permanecia assumindo o posto de primeiro lugar na escala de prioridades. Então, surgiram dores nos ombros. Lembrei-me de 1998, quando senti uma sensação desagradável parecida e acabei parando no pronto atendimento de um hospital. Pensava até em meningite porque doía demais a nuca. Por sorte, o médico era neurologista e, após os exames, afirmou: “É stress”.

Os ponteiros voando, 2005, e lá estava eu, novamente (ou seria ainda?), trabalhando como um burro de carga [sempre gostei de muares] com dores fortíssimas no pescoço e ombros. Nenhum remédio alopático aliviava; eu buscava a todo custo uma forma de conforto. Nesse contexto, conheci a acupuntura que se tornou meu consolo, e decidi dar um basta e viver um ano sabático: viajar, curtir a família e dar atenção às inquietações emergentes para saber de que ponto recomeçar.

Voltaria correndo em dois ou três meses para o campo de batalha do qual dependia psicológica e financeiramente? Qual nada! Passada a primeira crise de abstinência, me vi navegando em mar tranquilo. Conseguiria, sim, ficar sem o vício do trabalho – encontraria outras ocupações que me dariam maior satisfação. Os valores e escolhas precisariam, é verdade, de um arranjo diverso do habitual.

Em 2010, novo aprendizado. Contudo, o personagem da vez foi um familiar que teve, digamos assim, um contato mais próximo com o pintadinho Aedes aegypti e pegou dengue. Precisava de repouso absoluto. Desobedeceu. Continuava serelepe, “no trecho”, como ele mesmo diz, mas já sentia o corpo mole. A toxoplasmose, oportunista, atacou, deixando-o mais debilitado. Assim como eu, meu parente achava impossível ficar sem trabalhar e aprendeu preciosas lições.

De forma alguma estou fazendo apologia ao ócio como sinônimo de vadiagem. Há um contexto de enfermidade, em ambos os casos, a ser respeitado. Mas note. Quando a vida pede temperança, é o que devemos retribuir a ela. Muitas vezes, reduzir a marcha é ganhar anos de vida. Portanto, é fácil perceber: sofrimentos e fatalidades nos auxiliam a descobrir a arte, a leitura, o serviço voluntário, o estudo e, principalmente, o ser mantido preso em nós.

Inúmeras façanhas realizaremos, enxergaremos o mundo com outro olhar, se soubermos dividir a vida como uma pizza em pedaços. Cada fatia é uma área, todas importantes: social, intelectual, física, espiritual, emocional... Se só um campo receber ênfase, haverá aí um nítido equívoco. Para mim, hoje, menos é mais. Há superior qualidade no que faço. Sou mais worklover [termo usado pelo professor da Universidade de Brasília, Wanderley Codo] do que workaholic. Para diferenciar, o primeiro trabalha e vivencia outras coisas também. Este último, trabalha e só, não se permite viver. Ufa! 

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Minimanual para derrotar o orgulho

(arte: autoria desconhecida)


O ano de 2010 terminou com a necessidade premente de uma nova palavra em meu vocabulário: reinvenção. Reinventar a vida, a sobrevivência, a coragem, a alegria e a vontade de seguir com bom ânimo. Confesso: para quem sempre teve a renovação como lema não deveria ser tão difícil. Mas, é. Sair debaixo das cinzas qual Fênix, chacoalhar as asas, arrancar o voo com toda a potência e renascer é tarefa que exige valentia hercúlea.

Esse vocábulo cobrando, crescendo, se impondo em mim foi o anfitrião de 2011. Não havia como fugir, tudo exigindo o inventareinventar constante. Então, no sexto mês surgiu outro termo. Aliás, pacote completo: exterminar o orgulho – tendo o cuidado de verificar a cada dia se sobrou algo, porque de qualquer maneira sobra, e destruir mais um pouquinho, por precaução. Esmagá-lo bem, no cantinho da sala, no quarto escuro, nos eventos sociais, na escola, no escritório...

Isso veio à tona quando, depois de esperar por muito tempo para conseguir um exemplar de obra que havia revisado e editado, constatei a falta do crédito no expediente. Essa contrapartida acertada com a coordenação de produção do material não fora cumprida. Um livro bem feito, sofisticado e de conteúdo nobre. Revisei e devolvi o combinado. Todavia, aceitaram um presente: ofereci de graça e com alegria a edição de texto, melhorando períodos, frases, orações.

Ao abrir a obra e buscar a ficha técnica, tcharan, surpresinha, a revisora era outra. Confabulei rapidamente com meus botões: “Que sacanagem e falta de respeito”! Engoli seco e refleti. Em cinco minutos entendi a lição: aproveitar a circunstância para testar e desmascarar a própria soberba. É claro: tenho o direito de ter o nome citado na atividade realizada com tamanho gosto. Sobre essa desconsideração, não há dúvida, reconhecer a tarefa executada é um dever da instituição contratante. Afinal, algo deve ter acontecido para justificar indelicada conduta.

E nessa percepção doída do orgulho sendo cutucado pela fome – pois ele só se alimenta de comidas temperadas com vaidade e neste caso o prato estava insosso – lembrei-me de um curso que estou fazendo em área de minha competência para ampliar os conhecimentos e trocar experiências. Habitualmente espontânea, tenho evitado ser voluntária nas atividades propostas. Ao me manifestar, poucas vezes, a instrutora interrompeu-me bruscamente para discordar. A agressividade resvalava da vivente.

Detalhe. As sugestões são testadas por mim, profissionalmente, há mais de duas décadas e confirmadas por professores e estudiosos da área de comunicação e expressão. As dicas serviam para facilitar aos colegas, por exemplo, atividades simples de leitura ou mesmo na área filosófica na compreensão das coisas da vida. Neste caso, o aporte teórico é em literatura que essa mesma pessoa diz se instruir. Não aviei receitas.

Quando a criatura, ríspida, bradou em minha direção, encolhi-me na cadeira. Diga-se de passagem, a metodologia da agressão é obsoleta. Pensei: “Calma! Ela não percebe como está falando. Não se ofenda e, sim, valha-se do instante desagradável para abafar, extinguir, detonar o orgulho de bem conhecer um tema. Porque a sabedoria superior, que um dia você conhecerá, sabe do quanto não sabe”. E ainda por cima, a gente vive servindo de instrumento de aprendizados diversos.

Não estou confundindo o conceito de autoestima com excesso de amor próprio. A ênfase aqui é na oportunidade de identificar e tratar dessa doença da alma, do “sentimento de menos valia”, como define Paulo Cordeiro. O orgulho é, definitivamente, um dos dois maiores entraves de nosso desenvolvimento pessoal. O outro é o egoísmo. Ambos da mesma laia. Fonte de todo o mal, ele é indulgente com tudo que o agrada. Por isso, sempre que puder, vá demolindo os altares construídos ao orgulho. Desse modo, terá alguém renascendo logo ali...

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Da pergunta mais difícil

(Arte: autoria desconhecida)

Muita gente pensa que saber o porquê das coisas é fundamental para solucionar problemas pessoais. Se um acidente, a morte de um ente querido, a doença o atingem, o vivente logo entra em conflito e saca do bolso: por quê. Fica ali martelando os miolos tentando descobrir possibilidades para livrar-se do incômodo. É evidente que a referida indagação é significativa, senão o quesito raciocínio ficaria obsoleto em nós; mas, às vezes, torna-se produtivo mudar o foco de investigação e trocar a pergunta-base para como ou para quê.

De fato, o porquê recebe maior atenção em nossa sociedade. E nos acostumamos a ele sem questionar sua validade, usando-o em situações diversas. Mas será que o porquê é o infalível recurso para os males do mundo? O tempo todo a ênfase é no porquê. Por que meu filho morreu, por que minha vida desabou, por que perdi o emprego, por que não sou uma pessoa magra? Alguns apontamentos poderão até surgir no visor de opções, mas o bom termo precisará de tempo... o argumento do início será apenas um tópico possível.

Ao se inverter a lógica de análise, imediatamente o aborrecimento ganha roupagem com melhor definição no corte e é possível observá-lo com maior discernimento. Note. O porquê fica em nossa cachola como um carro ao patinar na lama: afunda enquanto aumenta a complexidade do atolamento. O porquê não encontra resultado imediato, carece de tempo de maturação para surgir em prova ao objeto de exame. Já o como e o para quê adquirem um formato plausível de resolução com ampla agilidade e, portanto, menor desgaste.

O para quê nos chega como alternativa para cambiar a premissa do debate, alterando a metodologia de pesquisa e apontando um norte, apesar das prováveis longas distâncias que o separam do eixo de atrito. Pegue o porquê e troque-o para o para quê e veja o saldo. Para que tal situação está acontecendo comigo? Para que tenho de passar por isso? Para que trabalho justamente com esse chefe ou colega? Para que uma tragédia de tamanha envergadura surge nessa altura do campeonato?

Certamente a resposta não virá pronta, precisará de certa paciência e vontade de compreendê-la. Mas apontará uma possibilidade. É claro: a bússola virá em socorro de quem estiver minimamente aberto, voltado para o satélite que o conecta. Daí a importância de uma análise profunda e sincera. E cá entre nós, ser honesto consigo mesmo é algo não muito exigido em nossa época. Fácil é fazer dos dias um carnaval de máscaras e se entregar ao barato caríssimo: pensar, para quê? Deixa a vida me levar, diz até a música...

Entretanto, no meio do caminho surge uma pergunta, talvez a mais difícil a ser feita e aceita como condição de deslocamento do olhar para dissipar o feito problemático. É o como. Faça o teste. Como atravessar esse momento complicado? Como vivenciar isso tudo sem respingar nos outros as limitações pessoais? Como cruzar o rio caudaloso, considerando que estou no meio dele? Como buscar e encontrar saídas em etapa tão dolorosa?

O como é perfeito para entender a existência sob outra ótica. A visão Thundercat, além do alcance, se avoluma, ganha força e, de repente, vupt!, a miopia vai embora dando-nos uma certeza: é possível vivenciar dores, contrariedades e apertos administrando-os com menos sofrimento. E a diminuição do mal-estar se dá quando conseguimos atravessar as águas da aflição com braçadas firmes, respirando na hora certa e boiando, se necessário.

Diz um ditado: se o problema tem solução, desse modo, deixa de ser problema. Assim, não há motivo de quebrar a cabeça. Se não tem escapatória, adianta preocupação e agonia? Não ajudam em nada! Existem algumas situações que exigem capacidade de adaptação para um desenlace sem grandes turbulências. Quiçá, a estratégia razoável indicada seja tentar equacionar uma coisa de cada vez. Todavia, é sempre recomendável averiguar a presença de coisinhas desagradáveis em nossas vidas para que, pelo menos, saibamos passar por elas...

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Melindres, vitimizações e afins

Tenho observado, há algum tempo, o quanto as pessoas se ofendem à toa. Geralmente, trata-se de miudezas. Exemplo: uma olhada recebida por alguém, em que o possível examinador, na realidade, está divagando absorto e, sem querer, deteve a visão, por um instante, na pobre “vítima”. A criatura “coitadinha” dá um jeito de entender que aquele olhar “quis dizer” isso e aquilo e cria um universo paralelo de achismos e compreensões equivocadas.

Buscando aprimorar o estilo literário, sinto que estou mexendo em vespeiro. O gênero escolhido? A crônica. Miro o infinito a partir de leituras particulares do cotidiano. Impossível cronicar sem conectar meu entendimento pretérito ao que avisto agora. Não faço por mal. Em tais produções, sirvo-me de múltiplos temas dolorosos: os preconceitos homofóbicos; o uso de drogas para sobreviver ao caos do dia a dia; o autoconhecimento, base para a reforma íntima; as relações afetivas tão carentes de zelo...

Mas por que estou metendo a mão em cumbuca? Porque convido meus textos a promoverem a saída da zona de conforto de indivíduos ajustados a uma vidinha de máscaras, ilusões e apatias. Incluindo, aí, euzinha. A comodidade pode ser perigosa se o conhecer a si mesmo estiver ausente das avaliações da vida. Um quê crítico se faz oportuno nessas horas. Indispensáveis, então, a reflexão e o agir profundos para gerar autonomia e liberdade.

Em uma ocasião, falava do apuro técnico de alguns músicos na feitura de seu trabalho. É o caso da paulistana Ná Ozzetti. E citei, ao revés, o funk carioca para ilustrar pobreza melódica, harmônica, poética – até porque o funk originário dos Estados Unidos empregado em trabalhos magistrais de brasileiros (Tim Maia, Djavan, banda Black Rio) é de visível competência. Sem demora, uma pessoa natural do Rio de Janeiro, foi vestindo a armadura na defesa de seu estado. Sabendo-me gaúcha, ironizou: “Por quê? O funk do Rio Grande do Sul é melhor”?

Respirei fundo e expliquei: “Funk carioca é um ritmo criado por moradores da periferia da capital do Rio de Janeiro, a batida é rápida e as letras são erotizadas e violentas. A denominação vem do local onde surgiu o novo estilo”. Entretanto, eu bem preferia tê-la colocado no colo, como um pai ao contar para o filho uma experiência de vida, e esclarecido que é muito dispendioso o revide constante. Gasta-se muita energia. A propósito, muita gente vive como se fosse sempre a vítima e precisasse se defender, atacando.

Daí surgiu uma espécie de hipótese/doença, a “teoria da vitimização” ou o “complexo de coitadinhos”. Conheço vítimas do governo, da burguesia, das dietas, do professor, do médico, da amiga... até dos meus escritos. Uma coisa é a pessoa ser vítima, em alguma situação específica. Outra, bem diferente, é jogar sua raiva para o mundo pelas suas frustrações e descontentamentos e o tempo todo se colocar no posto do prejudicado, no altar da imolação. Onde está a autoria dos seus passos?

Infelizmente, já fui um pouco assim. Estou me tratando e tenho obtido bons resultados. Ou seria felizmente? Tomando consciência do que sou e dos exemplos ao redor, posso observar quando o tsunami do “coitadismo” se aproxima de minha praia pessoal. Sócrates, ao ser apontado como o maior sábio da Grécia, afirmou ter certeza do quanto não sabia, mas amava o não saber que o estimulava a perscrutar o desconhecido.

O pensar investigativo é construído, portanto, a partir do ato de constatar. E de mais a mais, afirma Paulo Freire, “ninguém supera a fraqueza sem reconhecê-la” (in Pedagogia da indignação, 2000). É tempo de o “complexo de coitadinhos” ou a “teoria da vitimização” cederem espaço para a prática da responsabilidade sobre nossas escolhas, ação embasada no livre-arbítrio consciente. Chega de colocar a culpa no outro. Liberte-o! A causa dos sucessos e
fracassos que apresentamos no curriculum vitae está somente em nós.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Tabagismo: doses para o suicídio

(Foto: autoria desconhecida. Plantação de fumo comum no Sul do Brasil)

Em 31 de maio, dia mundial sem tabaco, lembrei-me de uma conversa, certa feita, com alguém que me disse uma pérola: “Se fumar é morrer aos poucos, não tenho pressa de morrer”. E se o argumento é nesse nível, vou logo abrindo o jogo: o problema não é, necessariamente, a morte que o cigarro causa, mas o sofrimento antes dela. As dores, a falta de ar, ou ainda, não ter um ente querido sem nojo de catarros e outras secreções para cuidar desse enfermo. Parece fácil?

Por meio de leituras, conversas com médicos e doentes de câncer, posso afirmar que adoecer devido ao uso de fumo é um tipo de suicídio. Pesquisas apontam: de cada dois usuários de tabaco, um vai ter câncer. Sem falar nos fumadores passivos. E se a morte provocada pelo cigarro, com padecimentos dolorosos, é o caminho mais provável na trajetória de um fumante, não há outra chance a não ser cair fora. Ou dirigir-se, espontaneamente, ao precipício. Aí é escolha, mesmo.

Pode ser que o sofrimento pré-morte não ocorra aos adeptos da droga nem aos “caretas”. Mas a possibilidade é sempre maior ao fumante. Isso é lógica e é ciência. Está comprovado. Entretanto, depois de parar de fumar, o ex-usuário de tabaco e derivados já sente benefícios. Segundo o Instituto Nacional de Câncer, após 20 minutos da última aspirada a pressão sanguínea e a pulsação voltam ao normal. Duas horas depois, não há mais nicotina circulando no sangue. Entre 12 e 24 horas, os pulmões funcionam com mais autonomia. É uma melhora crescente e constante.

Anualmente, a prática tabagista mata 200 mil brasileiros e, no mundo, cerca de cinco milhões de indivíduos. A maioria começou a consumir antes dos 19 anos. Infância e juventude sempre foram os principais alvos de campanhas publicitárias agressivas da indústria do fumo.
Tudo para convencê-los, estrategicamente, a serem adultos seguros, poderosos, saudáveis, irresistíveis. Diariamente, 100 mil crianças tornam-se fumantes no mundo. São elas que vão financiar as companhias fumígenas nas próximas décadas e recebem dessas empresas o título de “reservas de abastecimento”. Cruel, não?

E as vítimas se multiplicam porque a nicotina funciona do mesmo modo que todas as drogas causadoras de dependência, como álcool e cocaína. É substância psicoativa e faz parte da Classificação Internacional de Doenças – CID. Portanto, tabagismo é doença, sim. A nicotina atua fechando aquelas lacuninhas de angústia, decepção, tristeza, frustração do indivíduo ao longo dos anos. A funesta nicotina e as demais 4.699 substâncias encontradas num cigarro dão falsas sensações de prazer a quem fuma.

Observe. Embora o cérebro se alimente do “conforto” gerado pelo tabaco, a saúde do fumante vai degringolando. Daí o pseudoprazer. Os sinais podem custar a aparecer e muita gente demora a se dar conta da bomba-relógio em seu tórax. Com a ingestão contínua de nicotina, o cérebro se adapta e passa a precisar de doses cada vez maiores para manter o nível de satisfação do início. Por isso a dificuldade de encontrar saídas sozinho e a necessidade de ajuda externa.

Enquanto se é jovem, tudo certo. Mas e na velhice? Como cada organismo irá reagir? Imagine-se daqui a 20, 30, 50 anos... Um velhinho cheio de saúde! E se for o contrário? Imagine-se também e busque alternativas agora para fazer valer a primeira opção de futuro. Estimule habilidades para resistir às tentações de fumar. Evitar ambientes e pessoas que o façam desistir de tal propósito é um bom começo para o fim do tabaco em sua vida. Estudos mostram: cerca de 80% dos fumantes querem parar de fumar.

Portanto, o ponto central da cessação de tão terrível vício é a mudança de comportamento, dizem os especialistas. Verifique o quanto você está disposto a transformar-se. Previna-se contra recaídas com um querer e agir profundos. Trata-se de um pequeno grande passo para a sua liberdade. Porque, convenhamos, ser “feliz” a partir de amarras e prisões é pura ilusão. Você é o ator principal do espetáculo de sua vida. Cabe a você representar bem esse papel.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Ignorância

(Cartum: Frederico Ponzio, 2007)


Adriane Lorenzon está preparando um texto para mexer com as podridões humanas.

Vamos conversar abertamente sobre preconceito e ignorância, aliás, termos indissociáveis...

Pense no quanto você fala em amor, não julgar, cuidado, responsabilidade, cidadania... e no quanto você age em cima desses argumentos...se ainda não sabe, você é parte do mundo, pode ajudá-lo a ser melhor!

Até amanhã! 

sexta-feira, 18 de março de 2011

Hoje não é o meu dia...

(Foto: Adriane Lorenzon in Flores diversas, 2009)

... se eu permitir. Recentemente fui a uma padaria em Porto Alegre e, enquanto aguardava o atendimento, um senhor se desculpava porque derrubara o pacote de pães espalhando-os aos meus pés. Em seguida, justificou-se que já havia levado um tombo naquela manhã. E sentenciou: “Hoje não é o meu dia, nem devia ter saído pra rua”. E eu, lá com os meus botões: calma, isso não é motivo suficiente para acabar com seus planos confinando-se obrigatoriamente em casa.

Esta semana o enredo se repetia, porém, comigo. No aeroporto Salgado Filho da capital gaúcha fiz o habitual check-in. Na bagagem de mão, apenas meu estúdio portátil. Perguntei à atendente se isso geraria algum problema – fora avisada em cima da hora que se tratava de um voo em rota internacional (desse modo, há alguns cuidados extras). A moça, muito atenciosa, disse que não sabia, mas aguardaria uns dez minutos para despachar meus pertences restantes e que eu devia me dirigir à sala de embarque. Se eu não voltasse, teria dado tudo certo.

Em seguida, no aparelho de raios X, avisei o moço nada disposto da Polícia Federal sobre o conteúdo da bolsa. Afinal, eu carregava também um pequeno tripé, o qual, no monitor, poderia parecer outra coisa, algo perigoso, quem sabe? Ele pediu para averiguar e no olhômetro atestou que o objeto passava do tamanho estipulado no protocolo. Logo, não seria possível carregá-lo comigo e, sim, despachá-lo. Sem pestanejar, corri até a moça do check-in que prontamente expediu a encomenda.

Eu estava tranquila, fazendo o que precisava ser feito. Ao retornar à fila, observei que alguém estava, digamos, emperrando o andamento. De repente, leve movimento se fez e uma mocinha passou chorando. Lembro-me de vê-la, ao longe, inutilmente explicando alguma coisa à autoridade. Em geral, os atendentes da Polícia Federal dos aeroportos não são a coisa mais simpática do mundo, ainda que o passageiro esteja em ordem. Nervos mais sensíveis e menos treinados sofrem mesmo. Sei disso por experiência própria de outras situações.

A essa altura do campeonato eu não poderia imaginar que uma sandália me faria “cair” na malha fina da PF. À minha vez, tudo estava certo com o equipamento: tripé despachado, microfone e cabos passaram pelo controle, placa de áudio e notebook, idem. Mas eu, eu não passei.  Aliás, chamei a atenção de todo mundo porque a maquininha geniosa decidiu disparar a sirene.

Pensei em chegar a Brasília vestida com algo que me deixasse elegante. Por isso, escolhi o tal calçado que tem uma fivela e uma esfera de metal. E foi a minha ruína. Snif, snif... Foi nada! Entrei na onda do policial como se fosse brincadeira porque senão meu dia seria um... um excremento? Desci do salto sob o mando do rapazote de farda, claro; usei a sapatilha de tecido que não é tecido, passei pelos raios X novamente, fui até a solitária policial amável que segurava uma espécie de chapinha para varrer meu corpo, abri os braços em cruz – vasculhou-me de frente, de costas, de cabo a rabo. Só não plantei bananeira. Um show. Ao terminar o exame, sussurrei ao seu ouvido na maior gaiatice: Caramba, sete da manhã e vocês me fazendo pagar esse mico!? Ela sorriu. Yes! Já valeu o dia.

Quando voltei, precisava calçar a sandália e arrumar os objetos espalhados na bolsa. Com toda a calma do mundo, olhei para a plateia, afinal, desta vez, eu é que estava engarrafando a fila, e disse sorrindo, meio envergonhada: “Desculpa, aí, gente”! Alguns sorriram como se falassem: tudo bem, está divertido. Na porta da aeronave o comissário me olha como velho conhecido e pergunta: “Não apitou de novo, não, né?”. E ao entrar no avião, a moça de cabelos curtos e salto alto viveu um instante de “fama”. 

sexta-feira, 11 de março de 2011

O preço de ser solteira

(Foto: Rose Bär, UFSC, Florianópolis, 2010)


Minha mãe era chamada de solteirona quando se casou aos 26 anos. Sim, uma mulher de sua época devia estar de aliança no dedo esquerdo aos 16, 19 no máximo. Hoje, os insultos sociais para mocinhas não-casadouras subiram à categoria de plural. Muito mais que a palavra, a dor maior é pela metodologia da fala, a sonoridade da interpretação, o líquido escorrendo no canto da boca do inquisidor.

Por eu ainda não ter casado, já ouvi algumas “impropriedades vocabulares”. Teve gente definindo minha orientação sexual porque tenho amigos gays e quem me considerasse uma moça de vida fácil porque tenho amigos homens. Sem falar naqueles que, contrapondo a alternativa anterior, exatamente por não me virem com um namorado hoje e outro amanhã, intitularam-me mal-amada. Mesmo não dando tanta importância à opinião alheia, escutar bobagens e grosserias faz cansar ouvidos mais exigentes.

Certa feita, uma criatura, com a melhor das intenções e muito atrevimento, sentenciou: a convivência com amigas lésbicas atrapalhava e, por isso, indicou-me a solução, assim, na cara dura; eu devia deixar de conviver com elas. Para esse indivíduo a amizade era algo banal e só desse modo eu conseguiria obter a façanha de arrumar um namorado. Tenso, diria meu amigo Roger. No meio dessa celeuma, se eu tivesse um namorado seria fator preponderante para ser absolvida de tanta barbaridade. E se eu tivesse casado e me separado, serviria também. Viúva? Idem. Não importaria minha felicidade; teria, sim, provado em praça pública uma espetacular vitória na vida sentimental. 

Faz-me rir. Nossa cultura é pródiga em inculcar nas mulheres que vamos encontrar o príncipe encantado, ter apenas filhos saudáveis, morar numa casa com o carro do ano na garagem e viver uma vida de comercial de margarina. E de tanto ouvir ao longo dos tempos, muitas de nós, acreditamos. E provavelmente, quase todas. Algumas omitem de si mesmas a cruel verdade. Porque, cá entre nós, é duro ter de admitir essa mentirada toda.

Considero-me uma mulher minimamente resolvida com as minhas dores, limitações e anseios. Moro há mais de duas décadas sozinha e descobri o lado bom da solidão. Minha companhia é maravilhosa comigo mesma; não preciso ir a uma festa insalubre, entupida de gente, na expectativa de encontrar um homem e, só então, ser feliz. Ele não estará lá. Conheço-me o suficiente para afirmar isso. Talvez numa viagem, numa livraria, numa trilha por cachoeiras ou cavernas, ou mesmo ao meu lado no ambiente de trabalho. Mas não no lugar-comum das conquistas, pois sou ave liberta, sou incomum. Não se trata de simples vaidade. Como esperar que o universo trabalhe na contramão de seu próprio movimento?

Contudo, é indispensável coragem para dar a cara à tapa e deixar que pensem, digam, falem, estigmatizem, preconceituem [acabei de inventar essa palavra]. Pense comigo. É até uma questão de lógica. Se gravidez nunca foi sonhada por mim. Vestido branco, véu e grinalda, também não. Se acho possível um casamento ser algo do tipo “casas separadas”. Logo, decididamente, o padrão de homem formatadinho de fábrica não se encaixaria em mim e haveria nuanças ainda não criadas nessa palheta.


Mas não perdi a esperança. Se tiver de conhecer um homem bom, decente e gentil para sermos parceiros de caminhada, ele vai surgir naturalmente até na fila do supermercado. Com José Saramago, o escritor, aconteceu aos 63 anos. A mulher de sua vida foi quem acompanhou as glamorosas premiações ou a longa doença do mestre da literatura portuguesa. Por que euzinha já deveria ter encontrado um amor com a ousada pretensão de considerá-lo cúmplice na dança da vida? Mas a mesma ternura se manterá em mim se a existência não me apresentar esse homem. Serei feliz do mesmo jeito, e isso incomoda o ignorante qualificador de vidas alheias.

Recapitulando. É preciso pensar e ser leve com a vida. Para algumas mulheres, o estado civil não mudará. Outras, em vez de serem mães biológicas adotarão filhos ou um orfanato inteiro. Quiçá, haverá mulheres esperando ouvir o poc-poc-poc da ferradura do cavalo branco [talvez não reconheçam Sua Alteza se o bicho tiver outra cor] e uma ou outra buscará a quietude de um convento ou mosteiro. Todas estarão corretas em suas caminhadas. Cada uma, em busca daquilo que lhe convence no momento – do que lhe aquece o coração.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Invejinha branca

Que história é essa de colocar no diminutivo a palavra inveja para amenizar o efeito do significado que é todo sustentado na cobiça por algo que não nos pertence ou que não somos? Pior ainda: junta-se o adjetivo branca para justificar que se fosse negra seria, por assim dizer, uma inveja inveja? Alguém me explica isso, por favor?

Ai, ai, ai, ai, ai, como diria minha amiga Rita. Tem caroço nesse angu. Vamos colocar uma lupa e dar uma analisadinha básica nessa expressão dita por tantos ao nosso redor com a maior tranquilidade sem pestanejar nem perceber que estão contidas ali cargas e cargas de equívocos.

Ora, só quando o ser humano admite a si mesmo suas fraquezas, limites e alcances é que consegue avançar rumo a outros mares dimensionais. Ao afirmar que tal funesto sentimento é pequenino e de cor branca, a inveja então nos parece algo ameno, leve, sem o tanto de maldade que o vocábulo no grau normal carrega.

É comum observarmos que além da inveja existe a admiração. Também há casos em que a inveja é o mesmo que desgosto com o sucesso alheio. Mas é preciso diferenciar a admiração saudável da doentia cobiça. Admiração tem a ver com deleite, prazer, respeito, apreço. Inveja com coisas nada benfazejas; não por acaso, escolhida pelo catolicismo como um dos sete pecados capitais.

Mas como encontrar equilíbrio? Se você deseja imensamente ter um carro que um conhecido já possui, esse não é o problema. Muito menos se admira um feito de alguém ou deseja um novo brinquedinho tecnológico. O quiproquó ganha dimensão quando esse bem material passa a ser a razão da sua vida, o motivo da insônia ou do seu olhar torto para quem já possui o tão almejado objeto de desejo. Logo essa confusão interior vai ganhando força, tomando proporções em que só angústia e tristeza têm sentido.

Um colega me disse, em certa ocasião, que havia quem sentisse inveja de mim no ambiente de trabalho. Argumentei negativamente, pois eu não ocupava nenhum cargo de status elevado nem mesmo o salário era substancial para alguém almejá-lo. Então, olhou no fundo de meus olhos e disse: “E seu sorriso, quem é que tem”?

Como um ácido corrosivo, a inveja anda sorrateira dentro de nós e por isso é preciso instalar armadilhas para capturá-la. Ela é irmã siamesa do orgulho, é esperta e se alimenta de olhares que insistem em não mergulhar fundo na alma humana. Às vezes, se traveste de borboleta e voa leve na aparência. Mas há fantasias que não lhe servem; sobram pedaços de pano sem cor, cheios de podridão e azedume. É fácil reconhecê-la.

A inveja, o orgulho e o egoísmo devem ser extirpados da Terra. Sem esse trio da pesada, cada ente que compõe o mundo poderá contribuir muito mais para a paz, a justiça, a decência e o surgimento de cidadãos planetários com noção consciente do que estão fazendo aqui.

sábado, 1 de maio de 2010

Frase do dia

"Os homens semeiam na Terra o que colherão na vida espiritual: os frutos da sua coragem ou da sua fraqueza".(Allan Kardec)
Foto: autoria desconhecida || Fonte: amostra de imagens windows