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sexta-feira, 10 de junho de 2011

Melindres, vitimizações e afins

Tenho observado, há algum tempo, o quanto as pessoas se ofendem à toa. Geralmente, trata-se de miudezas. Exemplo: uma olhada recebida por alguém, em que o possível examinador, na realidade, está divagando absorto e, sem querer, deteve a visão, por um instante, na pobre “vítima”. A criatura “coitadinha” dá um jeito de entender que aquele olhar “quis dizer” isso e aquilo e cria um universo paralelo de achismos e compreensões equivocadas.

Buscando aprimorar o estilo literário, sinto que estou mexendo em vespeiro. O gênero escolhido? A crônica. Miro o infinito a partir de leituras particulares do cotidiano. Impossível cronicar sem conectar meu entendimento pretérito ao que avisto agora. Não faço por mal. Em tais produções, sirvo-me de múltiplos temas dolorosos: os preconceitos homofóbicos; o uso de drogas para sobreviver ao caos do dia a dia; o autoconhecimento, base para a reforma íntima; as relações afetivas tão carentes de zelo...

Mas por que estou metendo a mão em cumbuca? Porque convido meus textos a promoverem a saída da zona de conforto de indivíduos ajustados a uma vidinha de máscaras, ilusões e apatias. Incluindo, aí, euzinha. A comodidade pode ser perigosa se o conhecer a si mesmo estiver ausente das avaliações da vida. Um quê crítico se faz oportuno nessas horas. Indispensáveis, então, a reflexão e o agir profundos para gerar autonomia e liberdade.

Em uma ocasião, falava do apuro técnico de alguns músicos na feitura de seu trabalho. É o caso da paulistana Ná Ozzetti. E citei, ao revés, o funk carioca para ilustrar pobreza melódica, harmônica, poética – até porque o funk originário dos Estados Unidos empregado em trabalhos magistrais de brasileiros (Tim Maia, Djavan, banda Black Rio) é de visível competência. Sem demora, uma pessoa natural do Rio de Janeiro, foi vestindo a armadura na defesa de seu estado. Sabendo-me gaúcha, ironizou: “Por quê? O funk do Rio Grande do Sul é melhor”?

Respirei fundo e expliquei: “Funk carioca é um ritmo criado por moradores da periferia da capital do Rio de Janeiro, a batida é rápida e as letras são erotizadas e violentas. A denominação vem do local onde surgiu o novo estilo”. Entretanto, eu bem preferia tê-la colocado no colo, como um pai ao contar para o filho uma experiência de vida, e esclarecido que é muito dispendioso o revide constante. Gasta-se muita energia. A propósito, muita gente vive como se fosse sempre a vítima e precisasse se defender, atacando.

Daí surgiu uma espécie de hipótese/doença, a “teoria da vitimização” ou o “complexo de coitadinhos”. Conheço vítimas do governo, da burguesia, das dietas, do professor, do médico, da amiga... até dos meus escritos. Uma coisa é a pessoa ser vítima, em alguma situação específica. Outra, bem diferente, é jogar sua raiva para o mundo pelas suas frustrações e descontentamentos e o tempo todo se colocar no posto do prejudicado, no altar da imolação. Onde está a autoria dos seus passos?

Infelizmente, já fui um pouco assim. Estou me tratando e tenho obtido bons resultados. Ou seria felizmente? Tomando consciência do que sou e dos exemplos ao redor, posso observar quando o tsunami do “coitadismo” se aproxima de minha praia pessoal. Sócrates, ao ser apontado como o maior sábio da Grécia, afirmou ter certeza do quanto não sabia, mas amava o não saber que o estimulava a perscrutar o desconhecido.

O pensar investigativo é construído, portanto, a partir do ato de constatar. E de mais a mais, afirma Paulo Freire, “ninguém supera a fraqueza sem reconhecê-la” (in Pedagogia da indignação, 2000). É tempo de o “complexo de coitadinhos” ou a “teoria da vitimização” cederem espaço para a prática da responsabilidade sobre nossas escolhas, ação embasada no livre-arbítrio consciente. Chega de colocar a culpa no outro. Liberte-o! A causa dos sucessos e
fracassos que apresentamos no curriculum vitae está somente em nós.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Hoje não é o meu dia...

(Foto: Adriane Lorenzon in Flores diversas, 2009)

... se eu permitir. Recentemente fui a uma padaria em Porto Alegre e, enquanto aguardava o atendimento, um senhor se desculpava porque derrubara o pacote de pães espalhando-os aos meus pés. Em seguida, justificou-se que já havia levado um tombo naquela manhã. E sentenciou: “Hoje não é o meu dia, nem devia ter saído pra rua”. E eu, lá com os meus botões: calma, isso não é motivo suficiente para acabar com seus planos confinando-se obrigatoriamente em casa.

Esta semana o enredo se repetia, porém, comigo. No aeroporto Salgado Filho da capital gaúcha fiz o habitual check-in. Na bagagem de mão, apenas meu estúdio portátil. Perguntei à atendente se isso geraria algum problema – fora avisada em cima da hora que se tratava de um voo em rota internacional (desse modo, há alguns cuidados extras). A moça, muito atenciosa, disse que não sabia, mas aguardaria uns dez minutos para despachar meus pertences restantes e que eu devia me dirigir à sala de embarque. Se eu não voltasse, teria dado tudo certo.

Em seguida, no aparelho de raios X, avisei o moço nada disposto da Polícia Federal sobre o conteúdo da bolsa. Afinal, eu carregava também um pequeno tripé, o qual, no monitor, poderia parecer outra coisa, algo perigoso, quem sabe? Ele pediu para averiguar e no olhômetro atestou que o objeto passava do tamanho estipulado no protocolo. Logo, não seria possível carregá-lo comigo e, sim, despachá-lo. Sem pestanejar, corri até a moça do check-in que prontamente expediu a encomenda.

Eu estava tranquila, fazendo o que precisava ser feito. Ao retornar à fila, observei que alguém estava, digamos, emperrando o andamento. De repente, leve movimento se fez e uma mocinha passou chorando. Lembro-me de vê-la, ao longe, inutilmente explicando alguma coisa à autoridade. Em geral, os atendentes da Polícia Federal dos aeroportos não são a coisa mais simpática do mundo, ainda que o passageiro esteja em ordem. Nervos mais sensíveis e menos treinados sofrem mesmo. Sei disso por experiência própria de outras situações.

A essa altura do campeonato eu não poderia imaginar que uma sandália me faria “cair” na malha fina da PF. À minha vez, tudo estava certo com o equipamento: tripé despachado, microfone e cabos passaram pelo controle, placa de áudio e notebook, idem. Mas eu, eu não passei.  Aliás, chamei a atenção de todo mundo porque a maquininha geniosa decidiu disparar a sirene.

Pensei em chegar a Brasília vestida com algo que me deixasse elegante. Por isso, escolhi o tal calçado que tem uma fivela e uma esfera de metal. E foi a minha ruína. Snif, snif... Foi nada! Entrei na onda do policial como se fosse brincadeira porque senão meu dia seria um... um excremento? Desci do salto sob o mando do rapazote de farda, claro; usei a sapatilha de tecido que não é tecido, passei pelos raios X novamente, fui até a solitária policial amável que segurava uma espécie de chapinha para varrer meu corpo, abri os braços em cruz – vasculhou-me de frente, de costas, de cabo a rabo. Só não plantei bananeira. Um show. Ao terminar o exame, sussurrei ao seu ouvido na maior gaiatice: Caramba, sete da manhã e vocês me fazendo pagar esse mico!? Ela sorriu. Yes! Já valeu o dia.

Quando voltei, precisava calçar a sandália e arrumar os objetos espalhados na bolsa. Com toda a calma do mundo, olhei para a plateia, afinal, desta vez, eu é que estava engarrafando a fila, e disse sorrindo, meio envergonhada: “Desculpa, aí, gente”! Alguns sorriram como se falassem: tudo bem, está divertido. Na porta da aeronave o comissário me olha como velho conhecido e pergunta: “Não apitou de novo, não, né?”. E ao entrar no avião, a moça de cabelos curtos e salto alto viveu um instante de “fama”. 

sábado, 8 de janeiro de 2011

2011... E agora?

Foto: autoria desconhecida

Mais um ano terminou, outro começou e você pode estar pensando: eu de novo nesse platô de acomodação, de duvidoso conforto, de incerta tranquilidade; parece que nada mudou, não está bom, mas poderia estar pior, vou deixando a vida me levar. É o jeito.
É o jeito? Ora, quem se deixa levar é camarão! Quem é o responsável pela melhoria dos seus dias? O padre, o prefeito ou o dono da farmácia? Nenhuma das alternativas. Você é o único responsável por tudo que acontece ao seu redor. É claro que por sermos sociais recebemos influências do meio, mas a assinatura do contrato por dias melhores é individual. Quem permite que o outro determine como será o dia de amanhã paga o preço por viver a vida do outro e não a sua.
          Às vezes bate uma preguiça, em outras, certo conforto em não mudar as coisas de lugar. É preciso limpar a bagunça. Não dá para deixar coisas mal-resolvidas, jogar tudo para debaixo do tapete. Não dá. O boleto da cobrança cedo ou tarde chegará.
E o que eu chamo de bagunça? Esse desconforto no peito, uma ansiedade por dias melhores, essa vontade de acertar as coisas que parecem estar fora de lugar. Aí você se anima mas logo deixa para amanhã e vai conversar com o vizinho, falar do fulano, entrar em polêmicas vazias se é melhor que o Ronaldinho Gaúcho vá para o Grêmio ou para o Flamengo. E assim passam-se os dias, vai-se vivendo. Como diz a música cantada por Zeca Pagodinho, “deixa a vida me levar, vida leva eu”. Como assim? Na poesia fica bem, mas na vida prática, se você deixar o timão sob a responsabilidade de um terceiro, esse barco vai naufragar.
Não somos coitadinhos e inocentes. Sabemos exatamente o que estamos fazendo porque temos gravado na consciência qual é o caminho do bem e o caminho da dor. Que tal fazer um combinado de reforma íntima com o ser mais importante, o eu? Sim, porque para amar o próximo, valorizar o outro, ajudar alguém, é preciso primeiro cuidar de si mesmo, do corpo, da mente – individualmente.
        Conclusão. Nada está confortável. Começar por onde? Uma das possibilidades é dar uma verificada nos arquivos internos, nas gavetas fechadas, nos tapetes mofados, nas janelas emperradas, nas portas que rangem, nas estantes tortas da sala de estar. Pergunte-se: que temperos tenho usado na minha cozinha interior? São ácidos, azedos, amargos, salgados demais? E como vai o quintal? Quantas flores nasceram na última estação?
        Minha irmã, concurseira, costuma dizer que não consegue sentar para estudar se não estiver com tudo limpo no local. Então ela arruma, organiza, varre, passa um pano e assim consegue se concentrar melhor. De modo geral, se estivermos com a nossa casa interior minimamente organizada podemos nos propor a alçar outros voos, até a limpar outras casas (o próximo, o meio ambiente, a escola do bairro). Ajudando a nós mesmos e aos outros, estaremos automaticamente cuidando da limpeza da mente do mundo – e este, se transformará, aos poucos, numa psicosfera muito mais harmoniosa e equilibrada.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Nós animais insatisfeitos

O que você quer para a sua vida? Como a avalia até agora? O que acha que pode ou não fazer para melhorar e mudar a sua vida? Precisa mudar? Essas perguntas certamente não são comuns nas rodas de amigos, nos bares, nos bate-papos das vizinhas, nas fofocas que se ouve por aí. Imagine a cena, alguém dizendo: “– Fulana, ficou sabendo do novo projeto de vida da beltrana? Pois é, ela resolveu ser feliz, quer amar mais, vai ajudar mais o próximo, passou a se alimentar de modo saudável. Nossa, como ela está melhorando de vida! Como ela está evoluindo espiritualmente”!

Avaliar, analisar e refletir sobre a vida pessoal é algo que não nos ensinaram, seja na escola, na família, na igreja, no clube, muito menos pelos meios de comunicação. E, sendo assim, parece que é algo que não precisa existir, que não precisa fazer parte da vida de cada um. Eventualmente, quem tem acesso à arte e à filosofia e gosta de estudar esses temas pode assim ter contato com aquilo que transcende aos olhos, com o que mora mais longe, com o que está mais fundo do nível do mar. As regiões abissais são cheias de vida, embora a luz não se faça presente.

Geralmente, o questionamento e a inquietude ficam adormecidos até o dia em que algo nos desperte do cômodo conforto que buscamos ao longo dos dias. Nesses casos, entramos em parafuso, perguntamos o porquê de o nosso mundo estar desabando, nada nos consola ou se explica porque não há respostas imediatas para malresolvidos acúmulos gestados há largo tempo. Por que esperar chegar ao fundo do poço para buscar saídas? Talvez seja mais sábio trocar o tipo da pergunta e passar de por que isso ou aquilo, para para que isso está acontecendo comigo? Como ocorreu tal coisa comigo? Em que circunstância? Creia, muda-se o foco e o modo de se ver uma problemática e de solucioná-la também. Isso nos leva à reflexão automaticamente.

Ao encontrar um amigo que não se vê há muitos anos, o que seria contado a ele? Quais aspectos, qual enredo permearia o diálogo? O que você teria de interessante e nobre para resumir sobre a sua história? Acaso problemas, murmúrios e frustrações dariam a tônica da narrativa? Ou tendo experimentado a ousadia de querer uma vida melhor, teria aprendizados diversos, mesmo que tristes ou quiçá os alegres, para compartilhar?

Nesses tempos de comemoração e homenagem ao centenário de Chico Xavier, o Brasil traz à tona uma frase atribuída ao médium mineiro: “Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim”. Pois, quando invertemos a lógica de visualizar nossos problemas, desafios e limitações, passamos a criar coragem e discernimento para encarar frente a frente a razão e descobrirmos resoluções para os incômodos e dificuldades que nos impedem de voar mais alto.

Então, fica uma pergunta indigesta, que dói o estômago, deixa a cabeça zonza e a fala encontra argumentos diversos para disfarçar. E de agora em diante, como quero seguir? Como planejar esse novo fim que me move no impulso dos dias e na irremediável trajetória que tenho a trilhar? Se errei, sofri, voltei ao erro, o que fazer para elencar metas plausíveis de serem realizadas, na pauta de meu projeto pessoal, tendo como princípios a decência, o amor, a fraternidade? Como me desenrolar do emaranhado de problemas e confusões no labirinto da vida?

Olhar para trás, encarar a razão, analisar as lições de cada acontecimento é um bom começo. Afinal, estamos aqui para evoluir. Carregamos o germe do que nos impulsiona ao progresso, ao melhoramento. Quando não nos foi dito que refletir mais profundamente, analisar a vida de modo holístico, contestar verdades amorosamente, não são tarefas prioritárias de cada ser no mundo, também não nos disseram que tínhamos total condição a priori de optar, usando nossa consciência, a aceitar isso como verdade. Temos poder decisório nisso tudo.

Desse modo, é possível recomeçar sempre. A síndrome de Gabriela (Gabriela, música de Dorival Caymmi eternizada na voz de Gal Costa) não precisa estar presente o tempo todo de todo o tempo que temos. “Eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou sempre assim” e... posso alterar essa formação daqui pra frente. Não preciso morrer como sempre fui. Ou seja, EU QUERO que a minha vida seja sustentada por pilares construídos por mim e não pelos outros – por valores alheios ao meu entendimento do que seja um mundo melhor. Perceba que a harmonia do universo é o resultado da soma de harmonias individuais. Só a paz que nos invade nos momentos de deleite e regozijo nos dá a sustentação e o ânimo necessários para a labuta dos momentos difíceis.

Realizar a tão propalada reforma íntima, expulsar os irmãos gêmeos egoísmo e orgulho do coração, tomar atitudes benfazejas de deixar rastros de amor não são tarefas fáceis. Promover o automelhoramento dá trabalho, sim! E quem quer pagar o preço? Todo bônus tem uma contrapartida, um esforço. São tantas medidas emergenciais a serem tomadas: entender que temos responsabilidade sobre nossas escolhas e que nossa consciência possui gravadas as opções de retidão do caminho, desenvolver a compaixão, aparar as arestas com a família – nossa base de apoio em que estão nossos maiores desafios de reconciliação –, e entender de uma vez por todas que fazer o bem não é simplesmente não fazer o mal.

Talvez você considere mais cômodo encontrar alternativas equivocadas de justificativa como afirmar que agora não é hora, que agora precisa trabalhar, agora seu filho ainda é pequeno, agora você não está aposentado; para uns porque são velhos demais, para outros porque são jovens demais. Todos se desculpando para não promover a fantástica viagem da “iluminação interior”, como bem nos lembra Divaldo Franco. Tem até quem ouse dizer, com toda a arrogância e ignorância peculiares dessas situações, que está bem assim, que nada há para alterar. Afirma-se, ingenuamente: “Se melhorar estraga”! Estar satisfeito gera um conforto que mascara o que poderia ser melhor, o que poderia ser diferente. Há uma frase de Guimarães Rosa: “O animal satisfeito dorme”. O que aconteceria com a humanidade plenamente satisfeita?

Prioridades baseadas no raciocínio, na reflexão podem nos levar a um dia a dia que nos fortalece nessa jornada. Quais requisitos devem prevalecer na nossa lista pessoal de opções desse ponto em diante? O comodismo nos paralisa, nos convence de que algo não está bem, mas poderia estar pior, então está bom assim. Constate se realmente você quer melhorar algo. Se a resposta for sim, porque o não aqui não nos interessa, diga esse sim em novas atitudes, renove o seu agir no mundo, amplie os horizontes buscando possibilidades. As novas escolhas virão consequentemente. Não há necessidade de esperar um acidente de carro, a perda de um ente querido ou do emprego, a amputação de uma perna, uma separação, para perceber que algo precisa receber mais atenção por você.

A cooperação entre as pessoas não é algo para amanhã, para outros povos, para outra vida. Se nos juntarmos em voz uníssona, respeitando os diversos timbres, em busca da melhoria interior de cada um, estaremos viajando em uma velocidade maior rumo ao desconhecido regozijo das almas que descobrem em tempo hábil o que é viver bem. Acreditar que a verdadeira felicidade não é deste mundo não deve abafar a busca por dias melhores. Miséria, sofrimento, doenças são desafios para nossa luta em prol da limpeza do Planeta. Enfrente seus medos e limitações, mergulhe fundo no que lhe incomoda e busque respostas com perguntas espertas e provocadoras. Não se contente com pouco. “É melhor ser alegre que ser triste. Alegria é a melhor coisa que existe”, diz a canção de Vinicius de Moraes e Baden Powell.

Assim, o seu epitáfio será escrito de outra forma, a história contada ao amigo que não se vê há muito tempo terá outra narrativa. Ajudar o próximo na tomada de consciência de que a vida é muito mais do que o que passa na televisão, do que é dito por aí, é tomar atitudes que resvalem de si para o mundo e contagiem positivamente outros tantos. Isso é cooperação, fraternidade, solidariedade. A melhoria espiritual e o progresso interior vêm quando paramos para analisar como tem sido a vida até aqui. E a prática é a marca indelével que deixamos como exemplo.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O amanhã


Foto: Adriane Lorenzon


O que fazer para que a vida seja diferente no próximo ano? Não é mais possível esperar pelo outro – governo, professor, chefe, vizinho –, que ele faça alguma coisa para mudar a nossa dinâmica de vida, ou culpar o próximo dos fracassos nossos de cada dia. E os prováveis sucessos onde estarão? De quem é a responsabilidade?


O tempo é o senhor absoluto das benditas ou malditas agendas, calendários e relógios do cotidiano. Mas a decisão de dividi-lo em prioridades é milimetricamente tomada pelo livre-arbítrio que nos impulsiona inevitavelmente ao progresso. Cada um é responsável por fazer da própria vida um caminho radiante de escolhas que beneficiem ao menos o ambiente ao nosso redor ou um percurso de dores e dificuldades que detonarão o ânimo de quem se aproximar de nós. E trilhar ou não esse grande sertão é decisão individual.


Muitos aproveitam a transição de dezembro – o fim de um ciclo – para janeiro – o início de outra etapa – para “dizer” (em vez de tomar) decisões como parar de fumar, cuidar do meio ambiente, ser mais tolerante e compreensivo, amar mais. Ou seja, tudo é só da boca para fora. Na primeira oportunidade de testar a si mesmo se conseguiu resistir às tentações que a vida impõe nos intercâmbios sociais, encontra-se uma óbvia conclusão: “Eu não consigo”. E logo ali em fevereiro a vida continua do mesmo jeito de antes.


E como fazer para fomentar a determinação e disciplina necessárias para avançar e mudar definitivamente o status quo? Aí meu amigo, só com uma modificação interior tremenda em que se faça levantar poeira, derrubar tijolos, checar alicerces. E quem já fez uma reforma qualquer em casa sabe que isso dá trabalho, o serviço atrasa, o orçamento estoura, o piso arrebenta, a tinta não era bem “daquela” cor, enfim...


Mas quem quer pagar o preço de realizar um melhoramento interior? Quem quer parar de pensar só no material, no dinheiro, no trabalho, no ego, no umbigo particular, no eu, eu, eu? Quem quer dividir as fatias da pizza das prioridades e eleger um tempo para o amor incondicional, o desapego da matéria, o outro, as coisas do espírito?


Se você se identificou com esses três últimos questionamentos, então já tem adormecida a semente da diferença, da metamorfose. Agora é regá-la com água fresca e permitir que a luz invada esse pedaço de terra esperançoso. Arregace as mangas e não se iluda que a tarefa seja fácil. Em compensação, a viagem é incrivelmente fantástica!