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sexta-feira, 23 de março de 2012

Fim da picada


(Foto: autoria desconhecida)

Volta e meia, Mario Quintana falava da amizade, quiçá pela solidão de poeta ou por muito praticá-la. Um dia a definiu como “o amor que nunca morre”. Em outro, advertiu: “Não te abras com teu amigo que ele um outro amigo tem. E o amigo do teu amigo possui amigos também”. É como se o poetinha do Majestic me alertasse: “[Adriane], cada pessoa pensa como pode”. Assim, hoje vou olhar para um aspecto da amizade: ela é para sempre?

Lá pelos 18 anos, considerava todo mundo amigo. Talvez porque me esforçasse para sê-lo. Com o tempo, surgiram as afinidades e uma parte deles se espalhou. Agora, a temática do companheirismo volta à tona. A propósito, há quase uma década me deparo com situações em que alguns se comportam de modo equivocado comigo e fico perdida, sozinha, sem saber como tratar a questão.

Em 2004, contei a uma amiga sobre o fim do romance com meu namorado. Dois dias depois, recebi convidados numa comemoração acadêmica. Chamei também o ex-namorado e a amiga. Pois não é que ela “deu em cima” dele o tempo todo? Veja. Com o término do namoro, ele poderia fazer o mesmo (não o fez por respeito a mim, por ser um gentleman). A moça, como amiga, poderia? Sem a desejar mal, escolhi me afastar dela.

Em 2008, pedi socorro a outra – eu sofria com a morte de minha mãe. Disse-lhe com todas as letras: “Me ajuda”! Desatenta, proferiu que o mundo não pararia por minha dor. Em silêncio estarrecedor, olhei-a sem entender se devia correr dali ou o quê. É óbvio que o mundo não iria parar. Queria apenas chorar com aquela espécie de irmã. No fundo, não me ouviu. Continuamos nos relacionando, porém algo havia se quebrado.

Em 2009, um fato inacreditável com outra amiga. Grosserias, olhares, silêncios, patadas... Sabe a fúria de um coice de cavalo? Deixei “pra lá” para não afetar indivíduos ao redor. Mas foi punk, viu! Em 2011, recaída da amiga de 2008. Desta vez, revelou algo que havia lhe confidenciado. No mesmo período, um familiar fez igualzinho. Aí, decidi reavaliar as parcerias. Entendi que as pessoas, não ficarão, necessariamente, para sempre na vida da gente.

Nesse contexto, sinto ainda por minhas crônicas mexerem com alguns amigos. São os prós e contras de se posicionar no mundo. Explico: há camaradas que discordam da digital literária que escolhi. Não quero perdê-los nem deixar de escrever. Todavia, diversas criaturinhas, exatamente por sintonizarem com temas e óticas espinhosos que trato, estão surgindo no caminho. Quem sabe serão companheiros que me ensinarão renovados saberes?

De tudo isso, é certo: não sei mais lidar com tais amizades. Preciso reprogramá-las. Nessa história, quem são elas, quem sou eu? O que é ser amigo? Não venha com a história de que chapa tudo pode. Nã-nã-ni-nã-nãe. Não pode ser indelicado, dizer tudo de qualquer jeito. Amigo é amoroso, gentil, conhece nossas dores, precisa estar atento, deve nos puxar para cima e não despenhadeiro abaixo. Entretanto, Mario Quintana sentencia: “No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas que o vento não conseguiu levar”.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Cadê a sensibilidade?


(Foto: autoria desconhecida)

Já se foi o tempo em que a mulher era considerada o sexo frágil; não abria a boca, a não ser para dizer amém ao pai, ao irmão mais velho, ao marido; não se tinha direito ao voto; não opinávamos; duvidavam de nossa capacidade cognitiva. Entretanto, na caminhada da evolução humana ocorreu a ampliação das democracias, a luta pela igualdade de direitos, o acesso de mulheres ao mercado de trabalho e à independência financeira. Com isso, avançamos todos.

É certo que muito se perdeu com tais mudanças. O romantismo, a gentileza, a feminilidade, a meiguice, a elegância, a maternidade – elementos que foram sumindo, relegados a segundo plano ou substituídos pelas badaladas praticidade, objetividade e competência. Nesse ínterim, surgiu uma mulher masculinizada. Uma pena, eu acho. Contudo, altamente necessário. Agora, precisamos revisar esse incômodo paradoxo.

Pesquisa da fonoaudióloga Maruska Rameck aponta: mulheres que ascenderam a cargos importantes são as que falam com padrões próximos aos masculinos. Se a submissão não servia mais, as mulheres se utilizaram de um modelo (masculino) consolidado para crescer profissionalmente. Essa foi a estratégia. Não se trata de máxima inquestionável, pois fatores genéticos e ambientais influenciam na composição da voz. Mas revela-se aí um aspecto interessante: deixamos de “ser” mulheres, em parte, para chegarmos lá.

No passado, éramos mais femininas, talvez porque tivéssemos tempo de sobra para realizarmos a toalete, pensarmos no cabelo, no corte da roupa, nas lides da casa, na educação das crianças. Hoje, a calça se impôs como uniforme de grande número de mulheres. Observe. A calça é só a forma, o que a gente vê. Há algo maior em jogo que não é evidente. Daí a necessidade de reeducarmos o olhar, a fala, a audição, a leitura das coisas.

Às vezes brinco: vou escrever um livro invertendo o título da obra que tornou Marta Suplicy um sucesso entre a mulherada nos anos 1980. Na época, publicou De Mariazinha a Maria. Edições como essa eram essenciais por reforçarem, nas brasileiras, aspectos como independência financeira e psicológica, conhecer e buscar o orgasmo, direitos iguais. Com outro enfoque e buscando atingir novos públicos, hoje eu daria o nome De Maria a Mariazinha, a grande viagem interior.

Calma, calma. Não estou sugerindo um retrocesso. A Mariazinha em questão é a volta da sensibilidade e da ternura, nascidas com as mulheres e perdidas no caminho. O autoconhecimento, essa descoberta individual, íntima e intransferível, nos tornaria maravilhosas também na prática. Chega de teoria! Sejamos mulheres excepcionais de fato! Exemplos para nos inspirar não faltam – vide mulheres abnegadas em prol da humanidade como Zilda Arns.

Precisamos nos reprogramar. As mulheres se perderam. Os homens se perderam. A sociedade, portanto, se perdeu. O que nos tornamos? Se ficamos masculinizadas e os homens não são sinônimo de doçura, por que optamos por sermos pseudo-homens? Se não somos frágeis, isso seria empecilho de espalharmos sensibilidade por aí em vez de amargor? Por que há tantas mulheres agindo de maneira indelicada e grosseira? Onde se esconderam o cuidado e a delicadeza dos seres chamados fêmeas?