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sexta-feira, 9 de março de 2012

Cadê a sensibilidade?


(Foto: autoria desconhecida)

Já se foi o tempo em que a mulher era considerada o sexo frágil; não abria a boca, a não ser para dizer amém ao pai, ao irmão mais velho, ao marido; não se tinha direito ao voto; não opinávamos; duvidavam de nossa capacidade cognitiva. Entretanto, na caminhada da evolução humana ocorreu a ampliação das democracias, a luta pela igualdade de direitos, o acesso de mulheres ao mercado de trabalho e à independência financeira. Com isso, avançamos todos.

É certo que muito se perdeu com tais mudanças. O romantismo, a gentileza, a feminilidade, a meiguice, a elegância, a maternidade – elementos que foram sumindo, relegados a segundo plano ou substituídos pelas badaladas praticidade, objetividade e competência. Nesse ínterim, surgiu uma mulher masculinizada. Uma pena, eu acho. Contudo, altamente necessário. Agora, precisamos revisar esse incômodo paradoxo.

Pesquisa da fonoaudióloga Maruska Rameck aponta: mulheres que ascenderam a cargos importantes são as que falam com padrões próximos aos masculinos. Se a submissão não servia mais, as mulheres se utilizaram de um modelo (masculino) consolidado para crescer profissionalmente. Essa foi a estratégia. Não se trata de máxima inquestionável, pois fatores genéticos e ambientais influenciam na composição da voz. Mas revela-se aí um aspecto interessante: deixamos de “ser” mulheres, em parte, para chegarmos lá.

No passado, éramos mais femininas, talvez porque tivéssemos tempo de sobra para realizarmos a toalete, pensarmos no cabelo, no corte da roupa, nas lides da casa, na educação das crianças. Hoje, a calça se impôs como uniforme de grande número de mulheres. Observe. A calça é só a forma, o que a gente vê. Há algo maior em jogo que não é evidente. Daí a necessidade de reeducarmos o olhar, a fala, a audição, a leitura das coisas.

Às vezes brinco: vou escrever um livro invertendo o título da obra que tornou Marta Suplicy um sucesso entre a mulherada nos anos 1980. Na época, publicou De Mariazinha a Maria. Edições como essa eram essenciais por reforçarem, nas brasileiras, aspectos como independência financeira e psicológica, conhecer e buscar o orgasmo, direitos iguais. Com outro enfoque e buscando atingir novos públicos, hoje eu daria o nome De Maria a Mariazinha, a grande viagem interior.

Calma, calma. Não estou sugerindo um retrocesso. A Mariazinha em questão é a volta da sensibilidade e da ternura, nascidas com as mulheres e perdidas no caminho. O autoconhecimento, essa descoberta individual, íntima e intransferível, nos tornaria maravilhosas também na prática. Chega de teoria! Sejamos mulheres excepcionais de fato! Exemplos para nos inspirar não faltam – vide mulheres abnegadas em prol da humanidade como Zilda Arns.

Precisamos nos reprogramar. As mulheres se perderam. Os homens se perderam. A sociedade, portanto, se perdeu. O que nos tornamos? Se ficamos masculinizadas e os homens não são sinônimo de doçura, por que optamos por sermos pseudo-homens? Se não somos frágeis, isso seria empecilho de espalharmos sensibilidade por aí em vez de amargor? Por que há tantas mulheres agindo de maneira indelicada e grosseira? Onde se esconderam o cuidado e a delicadeza dos seres chamados fêmeas?

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