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sexta-feira, 29 de março de 2013

Educação pelo exemplo


Pai e filha lendo juntos (foto: Paloma Varón)

Crianças aprendem muito a partir do que veem, e adultos igualmente, eu diria! Afinal, somos seres aprendizes por natureza, temos a incrível capacidade de assimilarmos, constantemente, novas lições e conceitos. Nesse sentido, o hábito dos indivíduos forma o patamar em que a sociedade se encontra. Observe. Todos cooperam para educar ou deseducar os outros, norteando suas escolhas, princípios, caminhos.

Numa viagem ao Nordeste, peguei um táxi e, como é de costume, puxei conversa com o taxista. De cara, percebi que o cinto estava enguiçado e pedi ajuda. O motorista justificou-se: “Eu não uso cinto, não gosto”. Expliquei que preferia colocar, por segurança. E com a maior tranquilidade prosseguiu: “Eu não uso, mas mando meu filho usar”. Quando esse filho irá aprender que usar cinto é algo positivo, atitude protetiva?

Em duas cidades gaúchas vi a mesma estupidez. Em Ijuí, o pequeno shih tzu caminhava com sapatinhos para evitar contaminações. Porém, a dona deixou o cocô do cãozinho no jardim do prédio em que eu morava. Em Tenente Portela, uma senhora levou o cachorro ao banheiro privativo dele – um canteiro que é rótula de trânsito. Depois de raspar as patas para trás – ele, claro –, foram-se embora na maior tranquilidade.

Era sábado de folga. Resolvi andar a esmo por Belo Horizonte (MG). Logo avistei uma mulher e seu cachorro. Ele, ansioso, ela, atenciosa: “Espera aí, bebê”! Depois do cocô, o aliviado queria sair correndo, e ela, firme na guia, pedia paciência enquanto retirava os excrementos com um saquinho plástico para não emporcalhar a praça Raul Soares. Não podia destoar da música clássica que soava ao comando do maestro chafariz.

Observe este raciocínio. Jogar uma casca de fruta pela janela do carro não seria problema se fosse pelo aspecto do adubo em que ela se transformaria – desde que caísse na terra. E não seria se a casca não fosse entendida como lixo pela criança que vê a cena de outro carro. Somos responsáveis por ela e pela limpeza do mundo... Se os adultos fazem, por que não faria? Educação é isto também: raciocínio lógico. Sacou? (Adriane Lorenzon)

sexta-feira, 22 de março de 2013

Atrasos de vida


(Ilustração: autoria desconhecida)

Você percebeu, caro leitor, como algumas pessoas com quem nos relacionamos são um atraso de vida? E como é difícil promover o devido afastamento delas para podermos avançar e não continuar retrocedendo? Delicado isso! Provavelmente porque algumas são amigas, parentes, colegas... Como sair de fininho sem grandes estardalhaços, se poderemos sentir sua falta e recairmos no vício da companhia?

Nesse sentido, é imperioso saber quem é o quê na sua vida: amigo, amigo de festa ou de bar, amigo muito amigo, conhecido, familiar, colega de trabalho, colega de aula, vizinho. Tem uma diferença danada em cada um! Às vezes a gente confunde e mistura tudo e acaba esperando de todos mais ou menos a mesma recíproca. Por isso, gosto desta frase: “Não espere das pessoas aquilo que elas não podem [ainda] lhe oferecer”.

Um dia um amigo me contou que precisava muito se afastar de criaturas que duvidavam de sua capacidade de seguir em frente sem determinados apetrechos, conhecidos como muletas, desfrutando de maior autonomia. Riam-se muito dele. Sabedor que eu havia vivenciado situação parecida, desabafou confessando dificuldade em apartar-se dessas figuras que habitualmente o puxavam para trás.

Afastar-se não quer dizer desejar mal e aviltar esse indivíduo como se fosse o último dos mortais merecedores de nossa companhia. Distanciar-se é preciso porque em determinado período da vida novas afinidades são necessárias para obter-se êxito em objetivos não alcançados – afinal, o rio sempre renova suas águas. Afastar-se pode ser olhar mais fundo para dentro de si mesmo e, assim, voar mais alto, sem amarras.

Desligar-se de quem não contribui em nada e, além disso, só atrapalha, é tarefa, por vezes, dura e custosa. O jeito, talvez, seria averiguar os anseios da alma e analisar se estão harmonizados com quem convivemos. Mirar o abissal escuro individual pode ser um ato corajoso que exija certas renúncias, inclusive de pessoas queridas que um dia imaginamos que nunca viveríamos sem elas por perto. Haja disciplina, sô! (Adriane Lorenzon)

sexta-feira, 15 de março de 2013

Boçais na moda


Bolsonaro agride toda a sociedade com cartaz chulo (Foto: Pedro Ladeira)

Impossível acreditar que a boçalidade possa um dia ser exaltada, replicada, imitada. O dicionário Houaiss apresenta boçal como indivíduo ignorante, rude, tosco; falto de cultura, sensibilidade, sentimentos humanos; besta, estúpido, tapado. O significados.com.br explica que esse tipo demonstra pouca inteligência, educação e delicadeza em suas ações. Será que essa fixação por não usar aquilo que nos diferencia dos animais vai pegar? Já pegou? Observe.

Bolsonaro. Militar e deputado federal desde 1991. Ao ser perguntado pela cantora Preta Gil sobre como reagiria se um filho dele se apaixonasse por uma mulher negra, respondeu: “Eu não corro esse risco porque meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambiente como lamentavelmente é o teu”. Quem ou o que ele estaria representando? Um dia, lendo O inferno de Dante, conheci a palavra pusilânime; agora, entendi um de seus viéses.

Feliciano. Pastor, empresário da fé, fundador da Catedral do Avivamento – a igreja que entende você, e deputado federal. Na Câmara dos Deputados preside reuniões para defender grupos sociais que estejam em situação de abuso ou desrespeito aos direitos humanos. Em 2011, chamou os negros de “descendentes amaldiçoados de Noé”; em 2012, que a aids é o “câncer gay”. Até quando terá permissão para o desrespeito e a indecência?

Malafaia. E esse empresário da fé, fundador da Vitória em Cristo? Ôpa! Se pastor de igreja dita cristã, temos um equívoco. Não se pode servir a Deus e a Mamon, diz a Bíblia que ele mesmo prega – embora apontado pela revista Forbes como o terceiro pastor mais rico do Brasil. Das barbaridades que falou, na inauguração de um templo em Araruama (RJ) bradou: “Quem não der oferta, tudo bem. Mas não sairá daqui abençoado”. Ah, é, haveria muitos falsos profetas...

Entendo as fraquezas desses homens – eu também ainda tenho as minhas. Porém, com figuras públicas, que vivem do dinheiro de cidadãos – e do dízimo dos fiéis –, a decência e o amor precisam resvalar escancaradamente evidenciando o teor de suas práticas de vida, perante suas responsabilidades. Se a estupidez virou moda, que a gente entre na onda de reverter o quadro em favor do mundo. Todavia, só a educação poderá fazer alguma coisa por nós. (Adriane Lorenzon)

sexta-feira, 8 de março de 2013

Uma mulher à frente do seu tempo

Agora há sapatos multicoloridos (Foto: autoria desconhecida)

Sempre me achei essa figura do título em comparação com as pessoas com quem convivia. Quando alguém curtia alguma coisa, eu já estava em outra onda que quase ninguém falava sobre. E é dessa forma, em tudo. Não, não vá pensar que meu ego é tão grande a ponto de incensar-se. Não falo de grandiosidades, tipo, a pioneira nisso, a poderosa daquilo. Falo de miudezas que no seu tempo ganharam sentido e hoje me fazem rir de mim mesma.

Em 2009, para o lançamento de meu primeiro livro, procurava um sapato de cor vibrante para combinar com a alegria da capa do filhote. Procurei nas lojas de calçado de Brasília. Achei apenas dois. Um azul, de dois mil reais, impensável para o meu orçamento. E outro, violeta, esquecido no estoque de outra loja, com preço honesto. Meio ano depois, até hoje, as vitrines estampam cores berrantes só para me provocar. Todo mundo, agora, adora cores fortes!

Quando o respeito às minorias ganhou ênfase nas mídias sociais, eu devia ter uns 37 anos. Desde a infância esse tema já era lido por minha consciência... Aos 18, vi o primeiro beijo entre dois homens, ao vivo. Aos 24, trabalhei com educação popular com agricultores sem terra e atingidos por barragens. Aos 22, ajudei na gravação de vídeos sobre agroecologia e sementes crioulas, temas badalados na atualidade. Ao me deparar com a vida, vou me reeducando...

Voto nulo. Isso não é novidade para mim, mas até hoje é conversa proibida – ninguém quer falar abertamente... Ah, e não pertencimento é outro assunto em que navego quase solitária. Não me adapto mais a qualquer conversa, público, programeco. Quero algo mais porque o tempo da zoação e inconsequências já passou. Porém, há amigos e parentes que ainda precisam disso. Daí que leituras, filmes e só um bom papo são a minha melhor companhia.

Saí de casa cedo, e só aos 40 passei a ouvir amigos mudando de vida radicalmente, indo embora de onde viveram anos, dizendo que não aguentavam mais. Ou seja, volta e meia me antecipo e adianto o trote da jornada – o que é altamente cansativo, pois fico sem companhia no meu percurso. Contudo, um dia aparece alguém comentando a própria transformação, e aí, do “alto” da minha experiência, digo que a vida se dá mais ou menos assim, assado. É a “tia” Adriane entrando em ação, tentando se divertir com essa discrepância toda. (Adriane Lorenzon)

sexta-feira, 1 de março de 2013

Delícias mineiras


Queijo e pamonha de Minas Gerais (Foto: autoria desconhecida)

Minas Gerais quase vira o quintal da minha casa pelas vezes que viajo ao estado das inúmeras montanhas e da melhor gastronomia do mundo. Bairrismos à parte, trata-se de um argumento que poucos ousam discordar. Ao chegar pela MG 424, do aeroporto de Confins rumo a Belo Horizonte, está lá uma placa gigante anunciando a comida local para ninguém duvidar.

Um dos pratos mais famosos, também preparado em Goiás e São Paulo, é o feijão-tropeiro. O nome é em homenagem aos homens que carregavam mulas e cavalos do Sul ao Sudeste do Brasil, já no período colonial. Nos acampamentos, comiam esse mexido de feijão marrom, linguiça, ovos, farinha de mandioca, torresmo, temperos e, claro, gotinhas de pimenta. Sempre que degusto um autêntico, é como se fosse pela primeira vez – uma descoberta e tanto!

Fazer pamonha dá trabalho; fácil é comer. Além de descascar várias espigas de milho, é preciso ralar, cozinhar, e a parte mais complexa: colocar a mistura nos pacotinhos feitos da palha. Aguinaldo das Pamonhas, em Patos de Minas, começou um negócio pequenininho e foi aumentando o espaço com um novo barracão para receber as centenas de frequentadores que comem suas pamonhas. Em Patos, degustei também a inédita torta de milho verde.

Numa estrada próxima de Belo Horizonte, vi um outdoor de uma lanchonete. A propaganda oferecia pastel de angu. Fiquei curiosa, mas ainda não provei. É a delícia que Itabirito se orgulha de preparar como ninguém. Deve ser ma-ra-vi-lho-so! Falando em milho, na BR 262, O Milhão serve um curau divino, conhecido por mingau de milho. E o sanduíche de pão de queijo gigante recheado com linguiça? A propósito, cuidado para não deslocar a mandíbula!

Minas tem até concurso para eleger o melhor doce de leite, além das iguarias como o queijo e a ambrosia. Compotas são um luxo, como as de figo, mamão verde e casca de laranja. Imagine os nutricionistas convencendo os mineiros sobre a importância da reeducação alimentar! Toda vez que vou a Minas, eu me delicio e volto sempre com um quilo a mais na cintura e, na bagagem, um potinho de doce. Oh, Minas Gerais, quem te conhece não esquece jamais! (Adriane Lorenzon)