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sexta-feira, 13 de maio de 2011

A mulher e sua sombra

(Abaporu, Tarsila do Amaral, 1928)

Saí de casa para ver Abaporu (1928) e me encantar com a luz e as cores vibrantes da grande obra de Tarsila do Amaral. Junto ao “homem que come gente” (Abaporu, em tupi), 76 trabalhos produzidos no século XX por 49 pintoras e escultoras como Anita Malfatti, Djanira, Leda Catunda, Lygia Pape, Tomie Ohtake e expostos na mostra Mulheres, artistas e brasileiras até domingo, dia 8, no palácio do Planalto. Certamente, Aboporu não se tratava de “mais uma peça”; contudo, fui tomada por outros assombros.

Abaporu tinha cuidado diferenciado: cercada por vidro, segurança e cordão de isolamento – medida habitual para obras caras, raras. E pela magnitude da peça, seu significado artístico e histórico, não poderia ser diferente. Deliciava-me com os encantos das primeiras telas na ordem da exposição quando, sem querer, desviei-me da rota dos visitantes. Algo me chamava para o outro lado; e olha que eu estava quase chegando ao imenso pé gigante...

O centro gravitacional era Maria Martins. Sabedora do furor que causa(va) em algumas pessoas, em especial, do público feminino, apreciadoras do surrealismo, produziu uma das obras mais perturbadoras e viscerais da história da arte. E a atração? Justamente, a escultura A mulher e sua sombra (1949). Sem receber proteção específica – estava ali, inteira, a poucas e improváveis polegadas de meu toque. Uma sombra grudada à mulher tentando alcançá-la sempre. Unidas pelos pés, todos os passos da mulher são acompanhados por essa criatura. Fusão indissociável entre ser e não ser.

(A mulher e sua sombra, Maria Martins, 1949)

Então, ao avistar aquela mulher una, ambígua, diversa, recebi o primeiro golpe. Penetrante e preciso. Um soco na cara, outro na boca do estômago. Em tal brutalidade não havia a intenção de assassínio, mas trazer-me à superfície fazendo-me viva, mais viva. A arte tem esses poderes. E Maria Martins foi certeira. A sombra, claro, é preta, e entra-se nela como num quarto escuro que se tem medo na infância. Magnético e assustador. Misterioso e avassalador.

A mulher e sua sombra traz um estômago dilacerado, com fome constante, aberto a comer quem a vê. Longos braços como cobras se derramam sempre à frente envolvendo-a na infinda luta entre o manifesto e o que se esconde nos porões e sótãos da mente humana. Esconderijos, muitas vezes, nunca revelados. No dia a dia, o ser manifesta em verbo os desejos sociais; no íntimo, em silêncio, na obscuridade, contrapõe-se revelando o que realmente é e deseja.

A mineira Maria Martins (Campanha, 1894 – Rio de Janeiro, 1973) é reverenciada no exterior. Aqui, nem tanto nem quanto merece. Você já ouviu falar dela? Sem exagero, há quem diga que Maria Martins se tornou mais conhecida pelo caso amoroso com o artista plástico francês Marcel Duchamp do que pela sua arte. Era amiga de Picasso e Mondrian, e dos presidentes Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek. Embaixatriz, convivia com a alta intelectualidade de sua época, como o chinês Mao Tsé-tung.

Maria Martins: intensidade em estado puro. A apresentação do catálogo da exposição Amazônia, na década de 1940, em Nova York, escrita por ela mesma, confirmava: “Eu sei que minhas Deusas e sei que meus Monstros sempre te parecerão sensuais e bárbaros. Eu sei que você gostaria [de] ver reinar em minhas mãos a medida imutável dos elos eternos”. Não obstante, tal texto poderia representar, segundo a escritora Ana Arruda Callado, mensagem direta ao amante Duchamp.

Por fim, d’A mulher e sua sombra, engraçado, o mais marcante é a sombra. A mulher, nem tanto. Esta é tão familiar: altiva, cabeça erguida, timidamente estende as mãos quase agradecendo a vida. Já a sombra... a sombra se esconde, me esconde, brinca de pega-pega nos momentos mais duvidosos, cruciais e angustiantes de uma não vã filosofia. Maria Martins arrasou comigo. Com algo mais do que madeira e bronze, incentivou em mim a metamorfose. E Abaporu? Com tanta luminosidade, Abaporu só podia mesmo ajudar-me a clarear o caminho.

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