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quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Meu Guri

(Foto: autoria desconhecida)

Da primeira vez que o vi, ele era só um cachorro. Assim, de longe, não consegui divisar ao certo se se tratava de um cachorro, cachorro, ou de um ser mais que especial escondido na pele de um Canis lupus familiaris. Só sei que me encantei ao primeiro aproximar nosso. Foi lindo e eterno enquanto durou. Surpreendentemente, depois se repetiu. E como o ser humano necessita nominar tudo, vou chamá-lo de Guri.

Quando cheguei até ele, estava sentado nas patas traseiras e, com um sorrisão, disse: “Oi, eu tô aqui”. Comunicação posta, dei prosseguimento ao diálogo. Monólogo não combinaria com a ocasião. Então, minha vez: “Oi, você é muito lindo”! Como resposta, deu-me a patinha esquerda depois de tentar uma, duas vezes, até acertar na minha mão. Rolou uma troca de energia indispensável para quem acaba de se conhecer.

Enfim, um encontro de almas no hall da faculdade em que sou professora. Acredita que se colocou ali e não queria mais sair? Não tínhamos, eu e os demais, um pedaço de bife sobrado do almoço nem um pouco de leite – foi o que me ocorreu, sempre tive gatos que apreciavam o branquinho –, muito menos um punhado de ração. Pensando bem, vou levar nas minhas viagens ração para cães e gatos no carro. Nunca se sabe...

E toda vez que tentávamos dissuadi-lo de ficar ali, Guri entendia que era brincadeira, e queria pular, mordiscar nossas mãos – mas não havia violência nele, apesar de que, sendo morador de rua, já deve ter sofrido poucas e boas. Não parecia esfomeado, nem era magro, nem com aparente doença de pele. A cor mel do pelo combina tanto com o olhar de desentendido que está sacando tudo. E foi ficando, até quando tive que...

Ah! Esses amores que são meio assim: chegam pra ficar na vida da gente. Noite dessas, aconteceu de novo, e eu cada vez mais apaixonada. E Guri sabe disso. Fica me olhando de um jeito que eu me derreto – sentado nas patinhas traseiras e sorrindo o riso largo da comunhão. Com o coração partido, para poder tirá-lo do saguão saí correndo brincando, provocando-o, para ver quem ganhava a corrida. E não é que ele venceu? Agora eu fico assim, meio sei lá, lembrando-me do sorriso mais sincero que já vi. (Adriane Lorenzon)

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