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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

As escolhas e a deontologia

(Arte: autoria desconhecida)

O comandante do Costa Concordia, Francesco Schettino, tornou-se famoso por conduzir de uma determinada maneira o navio desastrado no litoral italiano. Ainda não se sabe o resultado da investigação, mas suspeita-se que o capitão não tenha seguido uma das regras universais de sua profissão: ser o último a abandonar a embarcação em caso de acidente. Não julgo a conduta dele porque não tenho competência para tal intento. Meu objetivo aqui é outro. Porém, inspirei-me no sinistro da ilha de Giglio para pensar sobre a deontologia das profissões.

Todo ofício tem uma característica, função, papel, responsabilidade, normativas, regramentos, condutas, aquilo que é inerente à atividade escolhida. Isso é a tal deontologia. Já tinha ouvido falar? Do grego, déontos quer dizer “o obrigatório, necessário” e logos pode ser estudo, ciência, tratado, discurso, expressão, conhecimento. No dicionário Aurélio a definição é a seguinte: “estudo dos princípios, fundamentos e sistemas de moral” ou “tratado dos deveres”. Agora, caro leitor, nosso encontro começa a ficar interessante.

Embora de origem mediterrânea, o termo foi usado pela primeira vez pelo inglês Jeremy Bentham, em 1834. Segundo o filósofo, a deontologia é a “ciência do que é justo e conveniente que o homem faça, dos valores que decorrem do dever ou norma que dirige o comportamento humano”. Segundo o internauta Francisco Nogueira Machado, a deontologia desvenda “os pressupostos inseridos nas normas de conduta social pertencentes a todas as fontes das quais emanam, ou seja, religião, moral, ética, direito, costume”.

No mundo do trabalho, sinto muito se você escolheu ser enfermeiro e está cansado do plantão da madrugada ou se o policial levou um tiro no ombro, vítima de emboscada de traficantes. O programa é ao vivo e começa às cinco da manhã? Você é o locutor do horário e vive em região com o inverno mais rigoroso dos últimos 50 anos? Tadinho. E da vida de professor, o que dizer? Não dá para se fazer de vítima como se não se soubesse dos riscos e propriedades particulares da esfera em que atuamos. Nem por isso deixaremos de lutar por melhorias.

Note. A deontologia profissional está em quase todas as áreas regulamentadas. Eletricistas, médicos, advogados, psicólogos, pilotos, assistentes sociais... Imagina se cada médico conduzisse os procedimentos cirúrgicos do jeito que bem entendesse! Se jornalistas não tivessem freados os ímpetos de inventar detalhes nas informações noticiadas! Psicólogos torturariam cabeças, engenheiros edificariam futuros desabamentos, e por aí vai...

“A deontologia é uma disciplina da ética especial adaptada ao exercício de uma profissão”, explica o portal português psicologia.pt. E o que uma coisa tem a ver com a outra? Ética, moral e deontologia estão entrelaçadas até o pescoço. Não dá para imaginá-las separadamente. No Brasil, usamos o termo código de ética. Em Portugal, código de deontologia. Ambos estão sob a responsabilidade de associações; no nosso caso, CREA, OAB, CFP, FENAJ – alertando correligionários a não cometerem faltas e se as tiverem praticado, adotando a medida punitiva mais adequada para qualquer situação.

Conforme o site O Significado, a deontologia é “uma teoria sobre as escolhas dos indivíduos (...) moralmente necessárias e (...) para nortear o que realmente deve ser feito”. Lembro-me de uma técnica de um posto de saúde desabafando diante das câmeras. Segundo ela, os usuários reivindicam um melhor atendimento dos profissionais de saúde, mas o problema não está nestes e, sim, no sistema. Será? A moça do jaleco branco escolheu trabalhar junto a um estabelecimento de saúde, num lugar chamado Brasil, com características peculiares. Quando doentes e necessitados queremos remédio e cuidados e, não, entender de políticas de saúde pública.

No entanto, apesar da ética e da deontologia, somos humanos. Falhamos. Por isso, assistimos a reportagens “marrons”, erros médicos sendo escondidos, advogados de porta de cadeia, professores sem respeito, psicólogos fofocando relatos de pacientes, políticos e governantes corruptos, servidores públicos prevaricando... Se a pessoa não está satisfeita, deve procurar, até o fim de seus dias, algo que lhe faça feliz. Adoro o ditado popular: “Se não guenta, por que veio”? Isto é: suporte o tranco e desempenhe direito o serviço... ou vá plantar alface. Entende? (Adriane Lorenzon)

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O que me ajuda a olhar o mundo


(Cânion Itaimbezinho RS/SC - Foto: Murilo Ribeiro)

Os anos passam e a gente vai aprendendo a aprender. Tem coisas que nos ajudam a viver e entender o mundo com dinamismo, precisão, cuidado. São livros, amigos, religiões e filosofias, lugares, filmes, poemas, experiências, amores, canções, familiares... Tudo tecendo a teia que amplia o horizonte de nossa mente e alma. Como trapezistas, seguimos o fio que direciona o passo, a dança, o equilíbrio. É lindo e motivador pensar que já somos menos egoístas, hipócritas, impacientes, intolerantes. Agora restam poucas classes para vencermos, finalmente, o primeiro degrau daquilo que chamamos evolução.

A sétima arte, o cinema, me ensinou a ser um tiquinho mais sensível. Isso com todos os filmes latino-americanos que vi: mexicanos, brasileiros, argentinos – além dos indianos e japoneses. Não deveria citar uma ou duas películas, pois me esqueceria de outras. Porém, as de Kurosawa, Iñarritu, Almodóvar e Campanella são espetaculares. Inesquecível é Como água para chocolate de Alfonso Arau – bela trilha sonora, eu me lembro bem. Cheguei a comprar o CD e o livro que traz receitas culinárias da autora Laura Esquivel.

Falando em literatura, existem obras que nos pegam pela mão como um carinhoso professor nos socorrendo na complicada lição. Há livros incomparáveis, vide Grande sertão: veredas de Guimarães Rosa. Esse é hors-concours! Escreve o velho Rosa: “Viver – não é? – é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é o viver mesmo”; “Eu quase que nada sei, mas desconfio de muita coisa”; “As pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas”.

Contudo, o que seria de mim sem os amigos? Uns se dispersaram; outros, permaneceram. Aprendi e aprendo tanto com eles. As matracas ligadas e muita conversa boa rolando. Um sonzinho de qualidade superior ao fundo ou o silêncio. O barato é ter um ombro, uma solidariedade em alto grau de dedicação. “Quero ter alguém com quem conversar, alguém que depois não use o que eu disse contra mim”, me lembra a amiga Marisa, recordando o mestre Renato Russo. Aliás, os versos do Trovador Solitário são uma escola completa.

Alguns lugares parecem nos levar a um universo paralelo. Paisagens paradisíacas, sotaques diferentes, sabores exóticos, praias desertas ou matas fechadas. Museus, exposições, shows, arte por toda a parte como em cidades históricas. Ambientes educativos e um aprendizado ao qual estamos prontos naquele momento. Lembro-me de uma viagem que fiz com amigos, aos 24 anos. Um deles, o Maurício Miguelito, desceu comigo a fenda do Cânion Itaimbezinho. Sem água ou equipamentos de segurança. Nada era perigoso. Espiar a vida lá de baixo foi como mirar o céu e avistar Deus.

Quanto às religiões, elas nos ajudam a sobreviver ao caos que edificamos com nosso livre arbítrio. A melhor delas é a que nos liberta criando um viver entusiasmado, apesar dos obstáculos. Não dá para perder o ânimo por qualquer eventualidade. As doutrinas que incentivam a fé cega nas criaturas amarram-nas numa espécie de prisão ficando difícil o autodesenclausuramento diante do desespero. Depois de entendido isso, fica mais fácil seguir o caminho de, no meu caso, nosso amigo JC.

Já o quesito “familiares” é, talvez, o que realmente nos desafia ao crescimento. Verifique. Analise a si, a sua família e os acontecimentos da parentela ao longo dos anos e confirme. Aprende-se muito com todos. A ter paciência, por exemplo. Ai, ai. A esperar o tempo deles ou a agilizar o nosso andar para acompanhá-los. Viver em família é uma empreitada complexa a que nos propomos. É igualmente rica e intensa. Ali se formam preciosos elementos, como, o nosso caráter, os princípios morais, a ética, a generosidade ou o egoísmo.

Grandes sacadas humanas de todos os tempos, poesia e filosofia são duas senhoras milenares que nos sustentam e suavizam o caminho. Não tiram as asperezas, mas nos fazem ver as pedras, também chamadas dores, com renovado olhar. Entretanto, não tem pra ninguém: é ele, o Amor, que nos coloca num mundo jamais imaginado. Amar – o namorado, um doente, um animalzinho, um morador de rua – é tão profundo que se trata da experiência mais revolucionária que a vida nos possibilita. Viva o amor em toda a sua plenitude! Experimente! (Adriane Lorenzon)

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Planejar ou deixar a vida levar?


(Foto: autoria desconhecida)

Andei pensando bastante na filosofia pagodiana – é bonita, confortável e... ingênua. Euzinha, antes da música de Serginho Meriti e Eri do Cais, cantada por Zeca Pagodinho, estourar nas paradas populares, a adotava. É o velho “deixa rolar” – oportuníssimo, por exemplo, ao tentarmos controlar algo irrefreável, externo à nossa vontade. Mas, no que depende exclusivamente de cada um, o lance muda de figura. O viver, também chamado destino, pode e deve ser alterado até acertarmos o ponto – como numa receita culinária.

Você viajaria de avião, ônibus ou carro se soubesse que o piloto ou chofer não dominam a técnica de pilotar/dirigir? Já pensou nisto: a existência nos conduzindo como motorista cega? Muitas vezes, intuímos que haverá um desastre logo ali; porém, é bem mais cômodo ficarmos paradinhos, sem refletir, permitindo que as coisas simplesmente aconteçam – assim, culparemos o marido, a esposa, o pai, a mãe, os filhos, a vizinha, o governo... O rol de alvos nessa hora é infinito. Sempre haverá, pelo menos, uma vítima: você.

A dimensão se amplia quando sabemos da própria responsabilidade e papel que temos no mundo. Conseguimos resolver se vamos atuar como atores principais ou meros figurantes. Há anos optei por traçar meus passos antes de gastar a energia em realizá-los. Confesso: não tem sido fácil – estamos, frequentemente, conectados a outras pessoas e, dessa forma, precisamos estar preparados para ajustar os planos. Para tanto, é fundamental habilidade e competência. A experiência de vida poderá oportunizar maior êxito no empreendimento.

Todo planejamento estratégico requer determinar etapas: ações, objetivos, prazos, responsáveis, tarefas, estratégias, meios... Contudo, antes dessa serviçama há um estágio essencial exigindo toneladas de sinceridade da gente: definição de prioridades. Não adianta querer comprar o badalado carro do mercado se você não tem recursos nem para pagar as contas do mês. Inclusive, o dinheiro teria de financiar depois diversos itens: manutenção, taxas, melhorias. Embora mediano, sem uma programação detalhada, tal desejo permaneceria na categoria de sonho.

Uma dica importante é entender que sonho não é meta. Sonho é divagar, criar fantasias, devaneios, cenários. Nele, compra-se, faz-se, viaja-se. Naquela é diferente. É necessário ousadia, temperança, disciplina, planejamento, decisão, foco, discernimento. Para transformar um sonho em meta é preciso pensar sobre ele, analisá-lo, depurá-lo. Só então surgirá a meta. Como as prioridades variam, deveremos nos atentar ao fio condutor que guiará a diligência.

Depois de checadas as prioridades e elencadas as metas e demais itens do projeto, é hora de arregaçar as mangas. Arrá! Aqui é que a porca torce o rabo. Metade dos animadinhos de início de ano, aí pelo dia 12 do mês um, já se esqueceram de tudo: caem na real, entendem que não têm vontade suficiente para se manterem firmes no propósito e abandonam o próprio barco. Dá-lhe incentivo nessa hora para compensar a frustração – desculpas não faltam para justificar a todo custo a acovardada atitude.

Trabalhar em uma atividade que nos levará a um resultado com mudança significativa no cotidiano é suar a camisa, incansavelmente. De forma diferente de um plano empresarial em que as ações têm um encarregado por setor, no pessoal, somos o único responsável desde a coordenação até a execução das tarefas propiciadoras da efetivação da meta. É claro que em algum momento contaremos com o valoroso auxílio de quem está ao redor. Mas se não puderem colaborar, não desista! Afinal, o intento é seu.

Observe. Se a meta é não se alimentar com pão branco para melhorar a saúde, morar sozinho é uma vantagem para vencer o desejo de comê-lo. Basta não comprá-lo e formar o hábito de consumir massas integrais. Acompanhado, vivendo em família, a empreitada será mais difícil – conscientize-se disso. Se a turma aderir à sua ideia, ótimo. Se não topar, sinto muito. Árdua tarefa lhe espera – seus olhos vão enviar ao cérebro imagens de pães deliciosos sendo comidos no café da manhã pela parentela. Todavia, novos comandos e condutas deverão ser criados para ajudá-lo a seguir adiante, firme, com prazer e alegria. Por você. Quer motivo melhor? (Adriane Lorenzon)

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Desesperança


(Foto: autoria desconhecida)

Às vezes dá um desespero, a gente momentaneamente deixa de acreditar que é possível mudar alguma coisa. Tem dias que a dúvida é cruel e se faz presente em nossa vida. Bate à porta, entra pelas frestas, dá um jeito de se infiltrar no mais íntimo para desestabilizar, quer ver o circo pegar fogo. E a gente permite, se quiser. Contudo, o que move o mundo é a esperança, o ânimo, a coragem, a vontade, o trabalho. Repito para mim mesma: “A esperança não é a última que morre. A esperança não morre”.

Há inúmeros acontecimentos que nos fazem desacreditar num mundo melhor. Assista a um telejornal sem se proteger psicologicamente e ficará desnorteado. São pais abusando sexualmente de filhos, mães jogando as crias em lixeiras, homens matando mulheres que antes eram seus xodós. As cracolândias se alastram pelo país com uma enorme quantidade de mortos-vivos sem banho, comida, casa, dignidade. Autoridades e especialistas afirmam, para nos desanimar ainda mais, que a guerra contra as drogas está perdida.

Casos de corrupção, dólares em cuecas, malas recheadas de garoupas... Realmente, dá uma vontadezinha de não acreditar mais. Propinas e vantagens para a velha oligarquia e seus descendentes. Pesquisa feita logo em seguida ao escândalo do primeiro “mensalão” apontava indicativo preocupante: se tivessem oportunidade, os entrevistados, representantes dos brasileiros, roubariam também. Então, parece certo: desejar, esperar e, pior, trabalhar por um presente bom é pura perda de tempo – que se dirá do futuro?

Na BR 116, próximo a Osasco (SP), vivi uma situação desalentadora. Num engarrafamento ao anoitecer, um caminhoneiro me alertou que aquele era um trecho perigoso. “Há muito assalto por aqui”, perguntei. “Não, os caminhoneiros, em alta velocidade, jogam a máquina pra cima dos carros pequenos”, confessou. Depois, na prática, entendi o alerta recebido: caminhões com farol alto o tempo todo forçavam a ultrapassagem para chegar a seus destinos. Os fins justificam os meios, diria Maquiavel. Pedi proteção a Deus na empreitada “boca braba” que me enfiei e segui. Dormi e acordei num hotelzinho em Miracatu (SP) – poderia ter sido no céu.

Esse é só um exemplo de como o cotidiano nos oferece estímulos para desistirmos de arregaçar as mangas: a morte planejada de gatos com Estricnina, nossa “arte” atravessando fronteiras com refrões medíocres como “nossa, assim você me mata, ai se eu te pego”, o transporte público aos pedaços, a maledicência vertendo das línguas que parecem não se cansar, leis favorecendo seus autores, salário altíssimo para uns e merreca para outros, velhinhos sem os cuidados básicos de saúde... Como manter a esperança?

Caetano Veloso canta música de autoria dele: “Alguma coisa está fora da ordem”. Outros afirmam que está tudo errado. Entretanto, perder por W.O, jamais! “Eu tô de luto, mas não sem esperança”, ensina minha ex-aluna Fernanda de Souza Lima. No fundo, no fundo, lá onde chamamos de coração, bate uma força que alguns ainda não sabem de onde vem – está viva e se alimenta com ações abnegadas de solidariedade, esperança, construção de autonomia e novas condutas, acesso ao conhecimento.

Confio, sim, num mundo “pra frentex” quando alguém separa o lixo na lixeira mesmo não havendo coleta seletiva em sua cidade, a televisão exibe novela de cunho social, índios são respeitados por não índios, adultos não bebem ou fumam na frente de crianças, candidatos não se elegem porque o povo, finalmente, aprendeu a votar, a escolher, a exigir. Acredito na evolução humana quando vejo a história deixando o mal para trás: os tempos bárbaros, a guerra fria, as ditaduras, a escravidão... Já nos aperfeiçoamos bastante, isso meus olhos conseguem enxergar.

Todavia, algumas criaturas só conseguem visualizar o copo vazio. Suas consciências estão adormecidas. Assim, a esperança vai ficando também em estado meio amorfo e sem cor. Porém, se a mantivermos desperta, nossa alegria, essa chama que nos põe de pé, estará garantida. Se a desesperança bater à porta, voltemo-nos para dentro ou para o passado e vejamos o tanto já construído e não o pouco que se desfez. O processo é demorado porque somos lentos, preguiçosos, presunçosos. Saibamos ler com olhos de ver e faremos mais. (Adriane Lorenzon)