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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

A morte e a dor


Entardecer na RS 155 Ijuí-Santo Augusto (Foto: Adriane Lorenzon)

Morrer sim, sofrer não. Nunca pensamos nisso até o dia que alguém querido esteja em vias de morrer ou acabara de morrer em estado de dor ou angústia. O sofrimento nessas horas é algo que o volume de maldade de nossa humanidade não contempla. Não queremos isso para nós mesmos nem para nossos desafetos. Abrimos mão da convivência do ser amado, mas não queremos vê-lo com dores, limitações respiratórias, de alimentação, de fala, de lucidez.

A morte dos jovens de Santa Maria (RS) por inalação de fumaça tóxica despertou a sociedade para a questão. Imagina um pai sentindo-se impotente por não estar lá para ajudar o filho a se livrar daquele ambiente! Como é horrível a ideia do sofrimento na hora da morte! Nosso lado mais piedoso se comove e se coloca no lugar do outro, numa tentativa desesperada de auxiliá-lo, ainda que com um devotamento que não mais servirá para livrá-lo da escura tragédia.

Veja. Remoer o sufocamento, o desespero, a dor, o sangue dos grandes desastres como os acidentes de avião é pior que o infortúnio em si. Muitas vezes, não houve tanto sofrimento assim, e a morte talvez até tenha sido rápida, já que o desmaio providencial desfalece as forças tirando a consciência do cenário. A propósito, o remorso sempre acode quem se dá conta na turbulência de que não aproveitou conversar, cuidar, perdoar, abraçar durante a calmaria.

Morrer sim, sofrer não. Brutal paradoxo que vivencio com a gata Penélope, uma senhorinha que dá sinal de iniciada a partida de volta ao céu dos felinos. Não quero vê-la sofrer, e corro para lá e para cá em busca de alguma solução que minimize a doença que lhe abate. E quando é necessário um procedimento veterinário mais invasivo, lembro-me da voz italianada de minha mãe orientando que nessas horas é preciso “endurecer o coraçón” pelo bem maior.

Observo em velórios algumas frases comumente repetidas, referindo-se ao morto: “Pelo menos, não sofreu” ou “Que bom que Deus o levou porque estava sofrendo muito”. Já ouviu uma dessas? É tão mais terrível a ideia do sofrimento que a morte e a separação, reconhecidas como insuportáveis por quem fica, tornam-se fáceis de encarar. Morrer sim, sofrer não. Pois não queremos a dor, e, sim, a leveza, alguma suavidade no fardo de nossas vidas ou na existência de nosso amado; e a morte consegue indicar um possível caminho. (Adriane Lorenzon)

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