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sábado, 5 de maio de 2012

Mastigar pra quê?


(foto: autoria desconhecida)

Claro que você já acordou com uma canção na cabeça e ficou o dia inteiro com ela grudada feito chiclete. Aquelas decoradas, beleza, são cantadas do início ao fim. E as que se sabe apenas uma frase ou o refrão? É um martírio porque a melodia persiste e a letra vira nãnãnã. Se a música é de qualidade superior, meno male. Mas e se for dessas infernais, de gosto duvidoso, que a gente conhece porque foi “obrigado” a ouvir?

Dizem que a perenidade das músicas de baixa qualidade (sob o ponto de vista da elaboração técnica, poética, melódica, instrumental) não existe, pois não criam raízes, são feitas para deglutição rápida por um número acentuado de consumidores sem fome. Comem por comer, por estar na moda, pela imposição da mídia e não porque têm ânsia por algo mais requintado no cardápio cultural de sua lista de preferências musicais.

Então, será que há um tempo específico para tais músicas serem esquecidas? Consideremos as novas tecnologias, o acesso fácil por meio das seleções pessoais, as redes sociais, a disseminação e troca de arquivos entre blogueiros, colecionadores, internautas em geral. Até eu, ou mesmo você, que não sou consumidora de sertanejo universitário, funk, brega, pagode, axé, lembro-me perfeitamente de trechos dos tipos citados.

Saca só. Não preciso nem escrever a letra inteira que dá para recordar a melodia. Faça o teste. “A nova loira do Tchan é linda” (É o Tchan); “Baba baby, baba” (Kelly Key), “Nossa, nossa” (Michel Teló); “Amor, por favor, não desligue o telefone” (Djavu). O problema não é o gosto musical de cada um, e, sim, a formação do gosto musical individual por meio da massificação de um grupo de “músicos” em detrimento da invisibilidade de tantos outros.

É muito chato ligar o rádio na região onde nasci no Sul do país e raramente ouvir uma música que não agrida os ouvidos. Ou, por exemplo, estar às margens de um rio como o Juruá, entre o Acre e o Amazonas, e em vez de soar uma canção local no telefone do moleque que passa por mim, tocar uma dupla de sertanejo universitário “cantando” qualquer coisa conhecida como a música do Neymar. É triste, deprimente, embora compreensível.

Esse mal – que eu chamo de necessário – nos serve para atiçar a urgência do debate. Está mais do que na hora de fazermos uma virada cultural. A começar pelos professores: refinando seu gosto artístico para fomentar a ampliação e pluralidade cultural de seus pupilos dentro e fora da sala de aula. Desse modo, as famílias seriam incluídas num efeito dominó que afetaria, por fim, toda a sociedade – mais crítica, autônoma, tolerante com a diversidade.

Sim, a mídia faria o serviço mais rapidamente. Contudo, ela toparia frear a própria sanha pelo dinheiro fácil? Os movimentos sociais pró-democratização da comunicação lutam para que outras vozes sejam tocadas e ouvidas no rádio, na tevê, na Internet. Mas, enquanto não sofisticarmos o paladar e entendermos que nossos ouvidos não são lixeira, continuaremos a ouvir porcarias. O livre arbítrio se faz quando temos consciência da vida, comparamos situações compreendendo o ambiente ao redor e podemos escolher com independência. (Adriane Lorenzon)

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