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sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Viver ritualizado


(Arte: autoria desconhecida)

Ainda pequenina dizia que se um dia me casasse cada um moraria no seu apartamento ou, pelo menos, ele teria o próprio quarto e, eu, o meu. Ah, quando batesse a saudade... Também entendia que a cerimônia seria apenas um encontro a dois. Vestido branco? Nem pensar! Desse modo, desde aquela época contrario os padrões sociais da maioria das pessoas com quem convivia e convivo. Mas, afinal, para que servem os procedimentos do rito?

Ao concluir pedagogia, em 1995, sendo escolhida oradora da turma, achei justo comentar a decisão de não usar, na colação de grau, a tão reverenciada capa preta do Batman. Disseram-me que não havia problema. No dia marcado, cheguei de vestido vermelho, mostrando as pernas. Os cabelos curtíssimos, raspados em lâmina dois, há tempos eram motivo suficiente de espanto. Se era para ser especial, que fosse de um jeito que me fizesse sentido.

Qual não foi a surpresa de uma das colegas que, olhando-me de cima a baixo com reprovação, bradou: “Francamente, Adriane, não esperava isso de você”. Eu, mais rebelde e irônica do que em qualquer fase da vida, perguntei do que ela estava falando. Recebi de volta a carranca e o silêncio, linguagem e metodologia mais apropriadas para situações como aquela. Portar-se e vestir-se de modo diferente do padronizado exige, além de estilo, coragem e determinação.

Já durante o mestrado, ouvi do amigo Testa, professor experiente e tendo passado por diversos rituais acadêmicos, que eu devia me ocupar, no dia da defesa da dissertação, de mostrar aquilo que eu havia estudado. Disse-me ainda, que ninguém saberia mais do que eu naquele instante, porque, pensando bem, quem havia realizado as pesquisas, leituras e escritas? O dia D, segundo ele, era só um protocolo, nada mais, não devia supervalorizá-lo.

É nas comemorações de fim de ano que pessoas ficam tristes, devido, em especial, ao hábito causador de frisson em famílias e grupamentos. Todo mundo tem a obrigação de ter sido próspero no período que passou e entusiasmado quanto ao novo. Sem o ritual, muita gente nem perceberia os fracassos gigantescos e as vitórias alcançadas. Festas, correrias, presentes, visitas, ausências motivam sentimentos a serem mexidos, averiguados, entendidos.

Claro que algumas normas devem ser seguidas para um melhor convívio. Isso faz parte da etiqueta social. Aprendi como motorista que o bom senso, muitas vezes, é o melhor caminho; ao procurar uma vaga, por exemplo, se não há proibição, eu estaciono. Requisito fundamental, porém, é conhecer os códigos e símbolos de trânsito e observar ao redor – pode ter uma placa logo ali. No caso da formatura, a toga não era obrigatória. Simples assim.

É compreensível que rituais de passagem sejam necessários para sociedades ultrapassarem portais imaginários ou concretos. Simbolismos plurais ocupam corações e mentes alçando-os à plenitude. Aliás, momentos especiais são relativos e, para uns, adquirem um baita significado. Para mim, representam um dos degraus da escadaria que me leva ao autoconhecimento. É o que faz sentido com o que acontece comigo – antes, no decorrer, e depois do fato: quais sentimentos afloram e o que me leva além do imposto por regras e convenções? Serei mais feliz participando de liturgias, costumes, formalidades e ritos mecânicos? (Adriane Lorenzon) 

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