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sexta-feira, 22 de abril de 2011

Três vozes no ar

(Foto: autoria desconhecida)


Brasília completou na última quinta-feira, 51 anos. Jovem senhora fundada no meio do cerrado como parte da interiorização da capital do país. No plano de metas de JK, a promessa de desenvolver o Brasil – 50 anos em cinco. Daí, em 2008, pensei em fazer uma brincadeira com o slogan do ex-presidente e escrever o livro: Brasília – 50 anos em 5 vozes no ar. Uma narrativa feita por cinco locutores de rádio com seus vieses sobre fatos que narraram, viveram, souberam, acompanharam à época.

Ocorre que as pessoas vão morrendo e, com elas, parte significativa da história vai junto. Procurei diversos locutores que estivessem presentes desde os primeiros tempos da construção da capital. Encontrei poucos, embora não tenha viajado até outros estados e investigado a fundo onde poderiam estar vivendo – tal procedimento envolveria custos que sem patrocínio ficaria mais complexa a empreitada. Então, fui escarafunchando um pouco aqui, outro tanto ali.

Nessa fantástica incursão pelo veículo que me acolheu em 1989, encontrei três preciosas figuras que ajudaram a construir a informação em Brasília: João Marques, Clemente Drago e Antoine Haddad. Todos ainda em atividade profissional até a feitura das entrevistas em 2009. Primeiro item em destaque foi o timbre dos três, uma carícia ao ouvido de mulheres atentas à virilidade da voz masculina.

Mas isso foi só um aperitivo: tinha mais coisa encoberta pela voz grave e os anos que o rosto não esconde. Parti para o tête à tête com esses radialistas. Contaram histórias, versões, visões para fatos presenciados por eles nos bastidores ou mesmo narrados no ar sobre o sonho nupcial de Brasília, a ditadura militar, o fazer rádio nas diferentes tecnologias avançadas ao longo dessas décadas. O trio ainda tem em comum o fato de ter atuado no programa Voz do Brasil – Senado, Câmara e Executivo.

O primeiro a ser entrevistado foi João Marques, chamado, carinhosamente, pelos amigos, de “Vermelho”. Atravessei os túneis entre a Câmara dos Deputados e o Senado Federal e fui até a rádio Senado. Encontrei um senhor baixinho, cabelos brancos e paletó escuro. Uma gentileza ímpar. João Marques, carioca, começou a trabalhar como contínuo da rádio Tupi (PRG3) do Rio de Janeiro, em 1949. “Eu comecei a fazer locução ainda na rádio Clube do Brasil em 53 e não parei mais, sempre trabalhei em rádio”, comenta. Veio a Brasília para passear, em 1962, e acabou ficando. Foram 60 anos de carreira, ininterruptos. Tem noção?

Eu e o libanês Antoine Haddad fomos colegas na rádio Câmara. Haddad tem uma voz gravíssima – lembra os tempos de ouro do rádio; difícil não se encantar com a peculiar [hoje] impostação. Chegou a Brasília “ainda rapazinho”, relembra. Ele fala da emoção do primeiro trabalho na Voz de Brasília, um serviço de alto-falante da época. “Desde 1958 a gente vinha anunciando, faltam 600... 446 dias para a mudança na nova capital do Brasil (...) e assim por diante até o dia da mudança da capital federal”, completa.

Clemente Drago é gaúcho e chegou a Brasília em 1960 num avião da FAB. Drago, para os íntimos, é, segundo João Marques, “um dos locutores mais completos”. Recebeu-me em sua casa, no estúdio montado nos fundos da residência. Lá, ele grava, edita e envia as locuções por e-mail aos clientes. Ex-policial que se rendeu aos encantos do rádio desde a infância, começou a carreira no serviço de alto-falante da rodoviária de Brasília, depois na rádio Alvorada, na Nacional. Lembra daquela chamada “Em Brasília, 19 horas”? Pois é, foi a voz dele que marcou cerca de 20 anos o programa Voz do Brasil.

Muitas histórias, fatos, nomes citados. Marques, Haddad e Drago conviveram com feras da nossa música e do rádio, como Heron Domingues (candidato a calouro de auditório que se tornou o locutor de maior prestígio de todos os tempos no Brasil). Enquanto a memória dos colegas radialistas não refresca e outros desapareceram no anonimato ou mesmo partiram para “o andar de cima”, o jeito é mudar o título da obra que estou escrevendo. Além do mais, Brasília já completou mais um outono. Assim, um dia desses, meu amigo, mando o convite de lançamento. Aguarde!

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