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sexta-feira, 1 de abril de 2011

A cura pelo câncer

(Foto: Adriane Lorenzon, 2009)

O câncer é uma das formas mais eficazes para limpar o espírito e aprimorá-lo. Detona o corpo, acaba com o vigor físico mas fortalece a alma de quem padece desse mal, chamado, ainda hoje, de “aquela doença”. Nosso ex-vice-presidente, José Alencar, deve ter feito uma faxina geral interior, daquelas de levantar tapetes e móveis. Foram mais de dez anos de tratamento e intervenções cirúrgicas. Para aguentar o tranco, precisou, no mínimo, de resignação e persistência – elementos nada antagônicos.

José Alencar foi exemplo. A riqueza material o ajudou nesse processo de tentativas, mas, note, há tempo de colheita para tudo. Quando jovem, José Alencar teve força para criar a maior indústria têxtil do país. Na velhice, sabedoria, para, mesmo debilitado, ser amoroso e manter a mente saudável. Pergunte aos jornalistas que o entrevistaram. Entretanto, como se faz essa mágica? É ilusionismo ou aprendizado?

Especulações suspeitam de que a cura do câncer já existe e gananciosos laboratórios escondem a resolução desse doloroso problema de saúde. Cá entre nós, até agora, as moléstias serviram para evoluirmos – se não melhoramos pelo amor, a dor é o caminho. Enquanto isso, milhões de irmãos ao redor do mundo sofrem as consequências de tratamentos paliativos, medicamentos fortíssimos, dores não-anestesiáveis, perdas irreparáveis.

Acompanhei de perto a sobrevida de minha mãe após o assustador prognóstico. Depois da cirurgia, convivemos exatamente por um ano e um mês. Não deixaria de acompanhá-la para seguir projetos umbilicais. Queria praticar o exercício do cuidado, da abnegação. Por sua vez, como dona Maria se comportou quando tive febre na infância? Para me fazer um agrado, ela comprava maçã e biscoito salgado [um luxo!]. E retribuições como essa devem ser praticadas por amor e... res-pon-sa-bi-li-da-de.

Durante as internações, exames, sessões de quimioterapia, o adenocarcinoma trouxe- nos a cura – pelo menos em estado embrionário. Aproximou-me de volta ao seio familiar, meu irmão e meu pai se reconciliaram, revelou o amor de minha mãe por minha irmã, e entusiasmou a todos a seguir unidos. Não, não vivíamos em discórdia. Porém, o câncer provocou elevados sentimentos de companheirismo fortalecendo nosso pequeno clã.

E assim, seguimos juntas, eu e minha mãe, no maior amor vivido por mim. Sabe aquela sua grande história, amigo leitor, inesquecível, tipo love story? Pois multiplique-a em intensidade por um milhão de vezes. Ainda assim, você não saberá do que estou falando. Talvez, se tiver vivenciado, por exemplo, noites insones cuidando de alguém; se ficou em dúvida se a medicação estava corretamente receitada e aplicada; se a morte dele chegaria antes de você expressar-lhe gratidão e amor.

Improvável construir discernimento acerca dos melhoramentos espirituais promovidos pelo câncer sem ao menos ter sentido alguma consequência da doença. Uma chaga minando as energias do doente e de seu cuidador e, paradoxalmente, criando uma descomunal força interior para auxiliá-los nessa caminhada. Para tanto, é necessário observar se as criaturas envolvidas estão abertas ao aprendizado da vida. É só ter olhos de ver, ouvidos de ouvir.

Desse modo, posso afirmar: o câncer cura. Esse bem, travestido de mal, atingiu a mim – claro, quem vivenciou as transformações no corpo e no espírito foi minha mãe. Eu, diga-se de passagem, melhorei pra caramba com tudo isso [e muito falta a lapidar!]. Mas dona Maria... dona Maria aprendeu tanto que se tornou professora. No leito de morte sentenciou ter finalmente entendido o verdadeiro sentido da vida: ajudar o próximo. Confirmara, portanto, o que o câncer construiu nela: um ser humano melhor.

2 comentários:

  1. Teacher Lorenzon,
    Tenho passado maus bocados nesse processo de cura. Tenho duas filhas lindas e uma que precisa de mim de maneira muito especial. Espero me curar das duas maneiras o mais rápido possível.Me chamou atenção é que pouco antes de receber a notícia da doença eu tive um aviso de que Deus faria uma faxina na minha casa,iria por as cadeiras para cima e jogaria tudo que era velho fora, me identifiquei com o seu texto nesse momento. Espero que a faxina acabe logo e que eu viva por muito tempo ainda. Beijos. Aline

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