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sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Delicadezas masculinas

(Foto: autoria desconhecida)


Quando me acusam de ser exigente com os possíveis pretendentes, vou logo perguntando o que se entende por exigência. Sem fôlego, mudo ou enrolando, o interlocutor divaga em pensamentos. Geralmente, o argumento descamba para hipóteses como estas: eu assusto os homens ou cobro perfeição deles. E fica nisso. Então, dou-lhe uma aulinha sobre qual é (e não quais são) meu requisito primordial para um namorado: ser gentil. E isso, aparentemente, é muito simples e fácil. Nem tanto? Vejamos.

Um homem de fino trato aproveita cada dia para praticar a amorosidade com o outro, seja quem for. No ônibus, oferece o colo para carregar o pacote pesado de alguém em pé. No supermercado, deixa passar à sua frente o rapaz ou a senhora, imediatamente atrás de si, porque tem apenas uma caixinha de leite e o cavalheiro “só” um carrinho cheio. Se, sem querer, ocupou a vaga de alguém que já indicava com a seta para usá-la num estacionamento, admite que a vez é do veículo vizinho e a cede humildemente. Viu só?

Esse cara se reconhece de longe, pois age assim com qualquer pessoa em todos os lugares e situações. Fique certa: se é carinhoso com familiares, conhecidos e estranhos, também a tratará desse modo. Gentil, esse homem entende de respeito na prática. Sem chance de estupidez, violência, grosseria, indelicadeza. E se um dia portar-se meio desajeitado, você terá a certeza de que foi um deslize do qual temos o direito de cair. O caráter dele estará a salvo. Ufa!

Mulheres têm a “burra” mania de se apaixonar por homens cafajestes. Percebeu? O cara dá toda a pinta do quão inábil é no quesito elegância: no primeiro encontro a trata mal, atende ao telefone várias vezes no restaurante, fala da “ex” como a criatura mais desprezível do mundo? Arrá! Sinal amarelo! Pode saber que ele fará o mesmo com você. Vamos, reflita. Por que justamente com você seria diferente? Raríssimos homens mudam tanto de uma namorada para outra, ainda mais se as trocam como se o fizessem com roupas.

Um gentleman é um homem de atitude. Não fica na verborragia. Se vê alguém precisando de ajuda, arregaça as mangas e auxilia o vivente, deixa de olhar ao redor com ar de espectador, está atento às necessidades alheias. Esse tipo de homem tem a sensibilidade aflorada e, muitas vezes, pode ser qualificado de “afeminado” e aqueles adjetivos propalados por quem pensa que a vida é apontar o dedo para o outro. Esquece-se dos demais direcionados a si mesmo.

O baiano Gilberto Gil escreveu uma das músicas mais profundas do nosso cancioneiro. Superhomem – a canção nos arrepia quando pensamos que ser macho é muito mais do que tábua de tanque no abdome. Diz o poeta: “Um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria, que o mundo masculino tudo me daria, do que eu quisesse ter”. No site pessoal, Gil afirma: “Muita gente confundia essa música como apologia ao homossexualismo [sic] e ela é o contrário”. Ao compô-la, interessava “revelar esse embricamento entre homem e mulher, o feminino como complementação do masculino e vice-versa, masculino e feminino como duas qualidades essenciais ao ser humano”, completa.

Cortesia é muito mais que puxar a cadeira ou abrir a porta do carro. Não está somente no envio de flores e presentes, mas na forma de tratar o mundo de um jeito melhor de como se apresenta. O “mundo vasto mundo” de Drummond fica mais bonito com homens amáveis, afinal, aprendemos que os homens são brutamontes. Não precisa ser assim. Podemos ampliar o leque e criar sentimentos e atitudes elevados. Saiba: para as mulheres, a delicadeza masculina é atributo nobilíssimo.

Para fazer parte da vida da gente, precisamos, sim, elencar prioridades – caso contrário, permitiremos “qualquer um” em nossa volta. E então, sou exigente ou simplesmente uso o discernimento para selecionar o que quero? Os outros deveriam decidir por mim? A experiência tem me mostrado isto: assusto monstrinhos e atraio homens interessantes. E como se trata da minha vida, faço escolhas baseadas na gentileza. Daí fica fácil tolerar as inúmeras limitações que todos trazemos em nós. (Adriane Lorenzon)

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