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sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Medo do ridículo


Estátua de Tiradentes no centro de BH (Foto: Letícia Leite)

Em nossa cultura, ninguém gosta de ser ridículo ou ridicularizado. Percebeu isso? Ser alvo de zombaria é algo que não digerimos bem porque evidencia uma falha, um quê de desconcertante em nós – mostra a falibilidade da espécie. E ninguém almeja o fracasso, certo? Mas há uma frase que gosto muito, talvez de autoria de Confúcio, e a ideia principal é: o homem só evolui quando aprende a rir do seu próprio ridículo.

Coreanos, japoneses, chineses, taiwaneses, por exemplo, não têm medo de serem vistos como ridículos, de gostarem de coisas extravagantes, diferenciando-se dos ocidentais. Nas ruas brasileiras vendem desde utensílios relaxantes de cabeça até gaiolas cantantes de plástico. Tiram fotos com câmeras de última geração e passeiam por pontos turísticos com a curiosidade de uma criança. Visite as Cataratas do Iguaçu (PR) e saberá do que falo.

Dia desses, o músico cearense David Duarte postou na rede: “Ironia ou não, o ridículo quase sempre tem algo de muito original. Deve ser por esta razão que o confundem, em termos de arte, com ousadia”. É ou não é? Quando estou vestida de modo, digamos, peculiar, ouço elogios, principalmente de mulheres. Apostaria toda a minha fortuna [sic] que elas adoram o visual, de verdade; porém, muito mais porque desejariam vestir-se assim e não têm coragem.

Nesse sentido, paguei um supermico em Belo Horizonte (MG), num 19 de março, dia de São José. Daria uma palestra no interior do estado e saía da cidade, de carro e acompanhada de uma equipe, rumo à BR 040. A recém-apresentada Letícia contava que os mineiros dizem que em março, no dia 19, sempre chove bastante, a conhecida chuva das goiabas. Ouvindo isso e distraída com as novidades do trajeto, concluí que Minas teria um santo padroeiro, o São José.

De repente, entre a Brasil e a Afonso Pena, vejo uma estátua gigantesca e solto: “Olha, é o São José”? Todos se esforçaram para não rir de mim. Afinal, acabavam de me conhecer e eu era a convidada, impunha certo respeito. Então, discretamente, mas louca para cair na gargalhada, Letícia me socorre: “Não, Adriane. É o Tiradentes mesmo”. Até hoje, ao passar pelo mártir da Inconfidência Mineira em Belô, lembro-me da gafe e rio, como se escondesse um segredo.

Em outra feita, marquei depilação da virilha e ao me dirigir à sala reservada, a depiladora disse: “Fica à vontade que eu já volto”. Para mim, ficar à vontade nessas ocasiões significa tirar a calcinha para facilitar o serviço e evitar o lambuzo de cera na lingerie. De repente, ela volta e me vê deitada, toda tranquila, sem a roupa de baixo. “Pode botar a calcinha”, exclamou. Na cara da moça havia repreensão, como se me censurasse por tanta ousadia.

Então, caro leitor, até pagar King Kong faz parte das interações sociais. Entretanto, como sair das enrascadas que nos metemos? A propósito, o pior é aceitar que o ridículo é pessoal e intransferível. Como num palco, ficamos expostos. E ninguém nos impõe: “Seja ridículo”! Dessa forma, o ridículo é um tipo de ponte. Atravessá-la é uma prova, um desafio, um teste de sobrevivência e que ao passar para o outro lado nos tornamos menos deuses, mais humanos. (Adriane Lorenzon)

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