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sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Fã de Samara


Em turma, adolescentes relaxam. Ufa! (Foto: autoria desconhecida)

Samara é uma garota de 14 anos. Trabalha no viveiro de flores da família à beira de uma estrada do Brasil. Samara é bonita, simpática, exímia vendedora, comunicativa e, em especial, entusiasmada. Completamente distinta da maioria dos adolescentes de sua idade – muitos são desanimados, mal-humorados, preguiçosos, reclamentos. Quando a conheci, me surpreendi tamanha a diferença evidente em seus olhos, gestos e passos.

Fiz questão de elogiá-la ao pai dela, caso não a valorize tanto. E a ela, se um dia, no futuro, ao trilhar uma carreira profissional, se esqueça do quanto esse momento de responsabilidade sendo talhada nas horas em que gostaria de estar conversando com as amigas é importante para o seu amadurecimento, ou, ainda, como quer o mercado, para turbinar o currículo. Detalhe: Samara parece realmente feliz com o que faz. É disposta, saca?

Samara é única porque não me cansou. Adolescentes, hoje, público que sempre me dei bem, me causam preguiça. Não gostam de quase nada que lhes é oferecido: comida, presentes, sugestão. Querem levar a vida na flauta, na maior facilidade. Estudar é coisa para CDF, trabalho para pobre. Percebe que adolescentes de classes sociais diversas parecem ter nascido em berço esplêndido? Estariam com a vida ganha? E os pais reforçam tal comportamento...

Samara é ímpar? É. Quem decide ser diferente da maioria impulsiona a grande roda de descobertas ao longo do desenvolvimento do mundo. São aqueles que querem algo mais, não se contentam com o mínimo, buscam sempre inovar, criar, produzir. Não falo de ideias desatinadas. E, sim, de atitude, de vislumbrar um rumo e segui-lo, de arregaçar as mangas. Isso não é exploração ou desrespeito ao ECA; isso é o que constrói seres inteiros.

Nesse ínterim, no desfiladeiro de elogios e aplausos pisca o sinal amarelo. Para adolescentes e crianças, almejar um patamar superior sem esforço é “habitual”, afirma Contardo Calligaris. Um dos psicanalistas mais badalados da atualidade é acusado por muitos pais de estragar os sonhos e o futuro de tão brilhantes e fantásticas criaturas. Genitores babam pelas grandes promessas de sucesso, iludindo-se que o mundo se curvará aos pés dos pimpolhos.

No texto Epidemia de amor pelas crianças, Calligaris explica que “os elogios incondicionais dos adultos aos filhos não produzem autoconfiança, mas uma dependência”. Depois, passarão a vida se esforçando para ouvir aplausos e não para alcançar o que desejam. O autor sugere “uma mudança preliminar na maneira de contabilizar as falhas que podem atrapalhar a vida de nossos rebentos”. Aliás, falhas e fracassos são inevitáveis no meu caminho, no seu, no deles.

No Facebook, uma campanha pede: “Pais, digam não aos seus filhos, pelo bem da humanidade”. Não precisamos voltar ao passado, torná-los invisíveis, sem valor. Talvez, um pouco mais de firmeza, diálogo, e exigir contrapartidas responsáveis e educativas, como lavar a louça, espanar o pó dos livros – e se tem livro em casa, há incentivo pela autonomia e engrandecimento do ser. Logo teremos formado legiões de pessoas amorosas, responsáveis, respeitosas, e, consequentemente, construtoras de um mundo bem melhor. (Adriane Lorenzon)

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