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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Amada mesa


Ilustração extraída do blog Vida e Arte Design (Blogspot) - autoria desconhecida

Como tem gente que “sobrevive” sem uma mesa? Para mim, ficar sem geladeira, cama ou fogão é fichinha. Mas, mesa? Não dá. Ela ocupa espaço nobre na arquitetura de interiores onde quer que eu more. Pequena, redonda, quadrada, de dobrar, com extensão, até escrivaninha vale. No entanto, as grandonas, de vários lugares, são meus xodós. Ali eu me espalho, e derramo todos os materiais de estudo, pesquisa e elaboração de palestras e textos.

Na vida de um estudante, escritor, professor, a mesa é indispensável para organizar as ideias. Em tempos de computadores portáteis, imagine seu autor preferido digitando a nova obra sentado num sofazinho molengo, enquanto tenta se ajeitar para não doer as costas, não deslizar a ferramenta de trabalho... Já em cadeira dura, sem ergonomia, o coitado terá de parar a escrita em breve. E em pé, sem chance de produzir uma lauda sequer!

Então, quem o socorre? A mesa. Reinando absoluta em suas construções – desde a época da máquina de escrever, dos pergaminhos em que as obras eram transcritas (vide a Bíblia) ou na atualidade com todas as maravilhas de apoio disponíveis –, é a mesa quem lhe dá sustentação para ideias brotarem exuberantes. É claro que sozinha é como a andorinha, precisa de outros elementos que completem o cenário. No caso, leituras anteriores e uma boa cadeira.

A imagem do escritor datilografando inúmeras vezes a mesma ideia, que não sai como ele deseja, é poética. Na madrugada, sob a penumbra da luz incandescente, inúmeras bolinhas de papel branco são amassadas e arremessadas na lixeira. Uma afronta aos contemporâneos conceitos sustentáveis de qualquer escrevinhador que se preze. Nesse sentido, hoje, a tecnologia contribui para evitar o desperdício, afinal, pensamos antes se é necessário imprimir.

Na hora do alimento, não será diferente. A mesa serve as refeições da grande família italiana, barulhenta e esfomeada diante da diversidade de pratos; da humilde, sem muita fartura, com porções iguais para todos; ou, ainda, da silenciosa oriental, com mesa baixinha. Minha irmã, por exemplo, adora pôr a mesa, organizar sobre a toalha a geleia, o pão, o leite, o café, tudo para dar mais prazer à ocasião. O que encanta os olhos toca o coração, a mente, os sentidos.

Também é à mesa que surgem, muitas vezes, assuntos delicados dos relacionamentos humanos. Difícil é administrar a ingestão da comida com a digestão dessas complicadas celeumas. Mulheres nervosas, filhos indisciplinados, homens desajeitados, idosos quietos. Todos debatendo, de alguma forma, a resolução ou o acirramento do conflito. Quiçá, em outra parte, haverá quem esteja num jantar romântico ou num almoço repleto de oportunidades.

A mesa tem uma espécie de alma. Se de madeira, há uma árvore escondida ali. É como a escultura que vai surgindo, mas dentro dela segue pulsando a força da natureza. Sou fã dos marceneiros que constroem mesas e as transformam em peças decorativas ou úteis. Assim, esta é minha ode à mesa. Obrigada, companheira, por me permitir apoio em horas delicadas – dos desabafos que nunca publicarei às ideias que brotaram e não me pertencem mais. (Adriane Lorenzon)

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