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sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Contradições da paz

Tsunami coloca embarcação fora do lugar. 
(Foto: autoria desconhecida)

Os versos da canção A paz (Leila 4) de Gilberto Gil e João Donato foram feitos sob medida na melhor alfaiataria poética. “A paz fez o mar da revolução invadir meu destino; a paz, como aquela grande explosão uma bomba sobre o Japão”. Ouça a música, leitor amigo, e saiba: as rosas de Hiroshima e Nagasaki fizeram surgir outro Japão. Um país que poderia trazer no nome a simbólica expressão: “recomeçar sempre”. A cada novo embate que se lhe apresenta, a população arregaça as mangas e diz “vamos lá”, sem pestanejar.

Há seis meses, a Terra do Sol Nascente voltou a ser testada em suas estruturas materiais, emocionais, espirituais. Um terremoto de grandes proporções na escala Richter devastou, em especial, a costa nordeste, gerando terrível tsunami: arrasou cidades, levou embora casas, animais, pessoas, até navios.  Uma usina nuclear explodiu colocando em risco toda vida ao redor e, quiçá, mais além. Sua pior crise desde a segunda Guerra Mundial deixou como saldo, conforme portais jornalísticos, cerca de 25 mil mortos ou desaparecidos.

Brincadeiras à parte, o Japão está acostumado a tremer nas bases. É a região com maior atividade sísmica do mundo: um total de 20 por cento dos terremotos acima de seis pontos da tabela citada ocorridos no globo. Assim, o povo, já experiente, embora assustado, recebeu, com certa tranquilidade, a notícia de que mil abalos superiores a quatro pontos e meio haviam sido registrados um mês depois da tragédia. É muito terremoto para nós, brasileiros, que mal conseguimos imaginar esse treme-treme todo.

Em abril, 30 dias após o desastroso sismo, o governo já havia construído centenas de casas aos desalojados e previa erguer outras 10 mil residências em pouco tempo para garantir conforto e sossego no recomeço das famílias. A calamidade causou um prejuízo de, aproximadamente, 310 bilhões de dólares. Nações de vários lugares se mobilizaram para auxiliar o bravo guerreiro do oriente. Doações chegavam a toda hora mostrando que a solidariedade resiste com força descomunal. E mesmo atolados na dor, ainda conseguiriam ser surpreendentes...

Então, para completar o estado da arte, a Ásia emitiu informação que deixaria desconcertados, quem dera, políticos e cidadãos “comuns” apreciadores de dólares em cuecas, meias e sacolas. O governo da província de Fukushima, a mais devastada pela catástrofe, devolveu à Cruz Vermelha os ienes enviados em excesso para as vítimas. Algo em torno de 180 milhões de reais. As províncias (como os nossos estados) atingidas fizeram levantamentos estimados das vítimas. E calcularam errado. Em nova estatística, descobriu-se que o número de atingidos era menor. Lógico que devolver o dinheiro alheio é o correto, não é mesmo?

Desse modo, o Japão ensinou uma lição de desapego e coragem – porque o dinheiro fascina e, aquele país estaria livre da corrupção? Os olhos apertados dos irmãos japinhas estavam bem abertos quando 70 por cento se sentiu insatisfeito com a atuação do primeiro-ministro nos encaminhamentos das consequências do terremoto, como no desastre nuclear de Fukushima. Para eles, as medidas tomadas durante a gestão de Naoto Kan estavam equivocadas. Por fim, o ministro caiu.

Todavia, em meio a tantos aprendizados, a calamidade do outro lado da Terra mostrou que o buraco é mais embaixo. Inúmeras reflexões possíveis vieram à tona. O que estamos fazendo ao Planeta? A título de ilustração, observe: técnicos da usina de Fukushima jogaram milhares de toneladas de água contaminada com baixa radiação no oceano Pacífico. Isso permitiu que a água de alta radioatividade dos reatores ocupasse os grandes reservatórios oferecendo menor risco aos trabalhadores do empreendimento. Além do mais, especialistas advertiram: lançou-se no ambiente radiação no valor de dezenas de bombas atômicas.

Sinistro, diria meu amigo David. O pavoroso ocorrido, colocando à prova os moradores do local, levanta alguns debates para todos nós. Que tipo de energia precisamos para alimentar a vida, não a morte? Para onde serão desviadas as águas com alto índice de componentes radioativos das usinas nucleares quando lhes faltar espaço? Quanto maior o progresso, maior será a nossa destruição? Que exemplo nossos filhos e netos terão para cuidar do Planeta? Quanto mais, derramando o balde do necessário, nossa ganância precisará conquistar? (Adriane Lorenzon)

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