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sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Crônica de uma dor anunciada


Sócrates em sua melhor forma.
(Foto: autoria desconhecida - Getty Images)

Ninguém esperava, ninguém desejava, mas aconteceu. O ex-jogador de futebol e comentarista esportivo Sócrates foi parar no hospital. Ao lado dele, médicos e a esposa dedicada deram-lhe o suporte necessário. Sobreviveu. Sócrates aprendeu tanta coisa na faculdade de medicina, deve ter visto tanto exemplo nesse mundo – do alto dos 57 anos de vida – e, mesmo assim, precisou trilhar o caminho da dor para aprender algo que o fizesse modificar hábitos. Logo o “doutor” Sócrates, como é chamado.

Depois de nove dias internado, concedeu entrevista coletiva em São Paulo, confessando ser alcoolista. Quem usa álcool cotidianamente é alcoólatra”, afirma. Em seguida, contou sua história no programa Fantástico da tevê Globo. Uma revelação surpreendente para muitos. Entretanto, para quem já se ligou que a vida é muito mais que um passeio, levou as declarações do famoso ex-jogador como “naturais” do processo de quem busca a dor – conscientemente – como opção de vida. Uma pena, certo?

Com um ponto cirrótico em região hipersensível do fígado, precisou se submeter a procedimentos terapêuticos para estancar uma hemorragia digestiva decorrente da doença. Pode-se afirmar que o fígado adoeceu, em parte, pela própria vontade do agora enfermo. O quê? Sim, observe. O eterno craque do futebol afirmou ser dependente do álcool “quando queria” e, se bebia, constantemente, o fez de modo forçado, obrigado por alguém? Isso lhe é familiar, caro leitor? Desde quando ouvimos falar em livre arbítrio, lei da causa e efeito ou da ação e reação, e ainda, da importância de responder por nossos atos?

Veja bem. Eu sei que estou pegando pesado, como se diz por aí. Porém, uso o exemplo de Sócrates – tornado público por ele – para chamar à atenção um assunto gravíssimo que permeia nossa sociedade e insistimos não ver. O ídolo observa que não poderá beber nem fumar para poder auxiliar na eficácia do tratamento. Sem esquecer-se da dieta rigorosa e dos exames frequentes. A “abstinência vai ser total daqui para frente, para que meu fígado reúna condições de se equilibrar totalmente e que não dê mais problemas”, comenta. 

Sócrates tem noção de que renasceu. “Eu não vou beber porque eu quero que meu fígado esteja bom para que eu possa usar bem a nova vida que eu ganhei. Ganhei outra vida e vou ter que saber usar”, sentencia. Bingo! A gente deveria entender isso sem precisar passar pelo caminho da dor – todavia, ela é generosa e nos ensina tanto em pouco tempo. Esperançoso e com vontade de viver, Sócrates fala de sua experiência: “É nessas horas que a gente cresce. Saio muito mais forte, muito maior e com muito mais compromissos e responsabilidades que eu tinha antes”.

Mal comemorou a alta hospitalar, o ex-meio-campista das copas de 1982 e 86 voltou a ser internado para intervenção medicamentosa e endoscópica na segunda hemorragia digestiva – consequência danosa no organismo dessa doença que muita gente pensa que é coisa da família do vizinho: a dependência de álcool. E, segundo a mulher dele, Kátia Bagnarelli, a notícia não é boa. Se em seis meses o fígado não responder positivamente, a hipótese da substituição do órgão será considerada. “Hoje ele não pode fazer, mas a cura para a doença (...) seria o transplante”, afirma.

Começaria, então, uma emocionante fase. Não sem um misto de esperança e ansiedade. Se tiver de transplantar o fígado, a fila é enorme – são cinco mil pessoas em todo o país aguardando para receber outro órgão. O ex-atleta terá de exercitar a paciência. Segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Hepatologia, Raymuno Paraná, a ordem de prioridade é determinada pela gravidade de cada caso. “O Brasil tem um dos programas de transplantes do mundo mais sérios. Ele é nacional, não há prioridades. A prioridade é ditada pelo quadro clínico do paciente”, conclui o médico categórico. Além do mais, não há como furar a fila.

É claro: não falta torcida para o ídolo do futebol brasileiro se recuperar logo. Amigos, também ex-jogadores, enviaram recados, como Biro-biro e Zenon. A mensagem de Wladimir foi a mais contundente: “Você fica negligenciando a sua saúde e esquece que é referência para muita gente no país inteiro, no mundo inteiro. Vamos cobrar isso de você, boa sorte”! Palavras sábias do ex-lateral esquerdo; talvez, sirvam muito mais a mim e a você, do que ao próprio doente. O amigo Casagrande, completa, em tom de brincadeira: “Agora é só aguinha tônica, água sem gás. Nós dois sentadinhos, batendo papo, tomando água”.  E eu pergunto: quer coisa melhor? (Adriane Lorenzon)

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