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sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Na hora H


(Foto: autoria desconhecida)

Gosto de observar o modo de reação de cada um em momentos que exigem uma tomada de decisão urgente e precisa. A mudança do programa de viagem, a alteração do cardápio, a compreensão generosa por algo fugir do anteriormente combinado. Com certa facilidade, nessas ocasiões, minha velocidade se aproxima da presteza que o ocorrido pede. Mas afinal, qual é a origem da dificuldade de se situar no contexto surgido de supetão?

Se alguém desmaiar por perto, como você procede? Grita, chora, se escabela, ou faz alguma coisa útil? Busca socorro? Presta a primeira assistência? Tenta evitar tumulto e mais sufoco para o acidentado, afastando os curiosos com firmeza e galhardia? E num grave acidente com sangue, choro, vítima fatal, vai lá só de curioso ou para auxiliar? Se o resgate já chegou, permanece no local para atrapalhar e depois espalhar para sua rede os detalhes da cena?

Os jornalistas que produzem telejornais diários organizam tudo antecipadamente para cada edição. Certo dia um fato muda o traçado do roteiro e o diretor precisa decidir na hora, sem muito tempo para refletir, qual matéria derrubar, ou seja, uma reportagem ficará de fora porque o acontecimento está se impondo na pauta: um incêndio, um desastre aéreo, a morte de artista famoso ou de político conhecido, uma denúncia – trata-se do extraordinário.

Em 2005, eu e Laura decidimos botar o pé na estrada, rumo a Pirenópolis (GO), à noite, para curtir um feriadão com outros amigos. Sabia que corríamos os riscos inerentes ao viajar noturno. No meio do caminho, a conhecida rodovia cheia de buracos provocou uma fissura no pneu do carro e tivemos de pedir ajuda para o primeiro que decidisse parar. Fiz uma oração. Ato contínuo, um soldado do Corpo de Bombeiros do DF nos auxiliava valorosamente.

Dizem que conheceremos verdadeiramente uma pessoa quando viajarmos com ela. Deslocar-se com quem não aceite revisões no roteiro da jornada, desde a escolha do restaurante a aspectos imprevisíveis da estrada, indica problemas à vista. Pode saber que essa criatura será de difícil convivência, pois a vida é impermanente – e a tal figura não entendeu. O tempo todo a existência nos provoca a autotransformação para encararmos os inevitáveis reveses.

Imagine um navegante, conhecedor dos ventos de sua rota, ao perceber um movimento estranho no ar, resista no ajuste da vela. No século 19, meus antepassados viajavam da Itália para o Brasil. A embarcação sofreu um abatimento, alterou a rota, e levou-os de volta ao solo italiano. Próximos da costa natal, o comandante conseguiu corrigir a direção. Ainda bem que havia combustível suficiente a bordo, para a máquina e as inúmeras bocas.

Em contradita, tem gente que muda de opinião o tempo todo, como na música Sereníssima da Legião Urbana: “Tínhamos a ideia, mas você mudou os planos, tínhamos um plano, você mudou de ideia”. Existirá um meio termo entre maleabilidade e firmeza, certo? Conheço indivíduos que quase nunca precisam tomar decisão; há sempre alguém agindo por eles. Porém, um dia a casa cai e será preciso decidir, escolher, assumir riscos e responsabilidades. Só assim a humanidade evolui. (Adriane Lorenzon)

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