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sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Falsas alegrias

(Foto: autoria desconhecida)

Duas meninas, de um ano e seis meses e um ano e dez meses, se encontraram e foram se aproximando, titubeantes, como é o caminhar dessa idade. Meus olhos flagravam o inusitado. Todos aguardavam a possibilidade de confronto – crianças brigam, puxam cabelo... Contudo, o que presenciamos foi um gesto de amor. Uma delas parou, fitando a outra se achegar. Esta alcançou o rosto da nova amiga e o acariciou com a delicadeza típica da pureza.

O filme (poderia sê-lo, mas era realidade) estava rodando quando um grito, três mesas à frente, interrompeu a tomada. A mocinha em ação parou, olhou em direção ao som com a calma dos sábios, aguardou o pseudossilêncio, e prosseguiu na eternidade e ternura do gesto. Novo grito, nova parada, novo recomeço. Depois, tudo de novo de novo. Até que as pequenas professoras envolvidas com a possibilidade de comer um salgadinho saíram de cena. Corta.

Numa dessas circunstâncias da vida, reencontrei uma amiga que não via há dez anos. Ela sugeriu um bar para irmos e não vi problema nenhum – não era eu que conhecia a cidade e o reencontro em si era o mais importante. Ao chegarmos, vi um telão ao fundo e uma tevê gigante na entrada em alto volume. A bola rolava numa disputa de título. O ruído atrapalharia qualquer intento de relaxamento e interação. Pensei: “Será que vamos conseguir conversar”?

Perto da gente, um rapaz, de costas para mim, gritava enlouquecidamente a cada gol ou possibilidade de balançar de rede. Os urros eram altos e prolongados. No apito final, bateu na mesa, gesticulou com o punho fechado para o alto, e se eu olhasse de perto, babava, extravasando sentimento raivoso. Na mesa, tentávamos dialogar. Assim como o gesto das crianças fora interrompido, paramos também. Corta.

O momento, para mim, era singular – não frequento esses espaços. Então, sem resistir à ironia, perguntei ao irmão da minha amiga: “Quanto o Fluminense está pagando para o cara torcer assim”? Também apaixonado, porém controlado, disse que fazia quatro anos que o Clube não ganhava uma premiação dessas. Eufórica (o ambiente estimulava isso), ouvi 34 anos. Aí entendi, aceitei por um segundo, mas fui corrigida: “Não, é quatro anos”. E eu: “Ah”...

Além do mais, o gritão vinha acompanhado da namorada/esposa. Lá no fundo, a feminista que mora em mim, perguntava-se: “Que mulher é essa que se sujeita a isso ou, pior, que gosta disso”? Entenda, caro leitor. Mesmo que algumas ainda passeiem meio tontas, nós mulheres viemos equalizadas de fábrica, ligadas a sentimentos nobres, pois temos, de modo geral, a missão de elevar a frequência vibracional do mundo: famílias, relacionamentos, empresas...

Conclusão mais do que óbvia: sinto uma megadificuldade de me situar numa sociedade que valoriza abusos. Não me refiro aos grandes dramas humanos como a miséria e a guerra. Falo daquilo que aos olhos da maioria é bonitinho, engraçado, e, portanto, aceitável: excessos no carnaval, futebol fanático, músicas incentivadoras de vidinhas mais ou menos. Por fim, acabo sendo, eu, a desajustada, digna de reconhecer a velha máxima: “Os incomodados que se retirem”. Entretanto, da grande viagem da existência, não dá para desembarcar. Mas do bar, bem que eu respirei aliviada quando minha amiga nos convidou: “Vamos”? (Adriane Lorenzon)

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