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sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Bial e o muro de Berlim


O muro de Berlim foi derrubado em 9/11/1989 (Foto: Ulda Zoca de Grava)

Interpelando o tempo, observo que faz alguns milênios que as pessoas se entretêm iludidas com julgamentos e suposições acerca do outro. E este é, quase sempre, o desviado do padrão, o diferente, o abusado – ao turvo mirar do olhador. Então, ao me reportar à era atual, vejo que nessa diversão há um deslumbramento com aquilo que a aparência e a hipocrisia nos mostram ou escondem como verdade, entendimento de vida, modelo a ser seguido ou combatido...

Vamos por partes. Uma pergunta incomoda muita gente, em especial, jornalistas. Por que Pedro Bial, repórter de eventos históricos como a queda do muro de Berlim, em 1989, escolhe a ocupação de apresentador de um programa de baixo nível educativo-cultural como o BBB? Ou ainda, disse alguém em contexto distinto, por que achar que Daniel, o cantor sertanejo, não teria atributos para avaliar um músico de MPB em recente produção global?

Para mim, o buraco é bem mais embaixo. Por que pressupor que o referido jornalista seria modelo de criticidade e coerência? De onde vem a necessidade de julgar com desconhecimento e preguiça de refletir sobre criaturas que nos são apresentadas a distância? Por que inferir que fulano deveria ser elitizado e refinado intelectualmente? Ou que beltrano não é capaz, não é habilitado, não é suficientemente nobre para exames musicais plurais?

Sempre digo aos meus alunos: “Antes de estarmos jornalistas, somos humanos”. Isso ocorre em qualquer área, é óbvio. E é essa condição que nos permite “falhar”. Somos incompletos, impermanentes, suscetíveis, e, em especial, falíveis. Ufa, que alívio! Se fôssemos magistrais, nossa onda seria outra. Todavia, se só raros fossem certinhos, como eu ou você, seria uma cobrança geral, jamais poderíamos pisar na bola e aprender novas lições.

Observemos a área política. Quando a “esquerda” subiu ao governo no Brasil, pressupunha-se que não haveria falcatruas. Claro, há séculos só a “direita” roubava, corrompia, enganava, mas a “esquerda”, jamais, até porque ela se intitulava ilesa das seduções gananciosas. Agora sabemos que tais siglas contêm um elemento comum: a humanidade. E, portanto, qualquer partido, sem exceção, pode sofrer as tentações da matéria, do poder, do dinheiro...

Errado pensar, também, que se o cara é padre não estará sujeito ao chamariz da carne. Daí os inúmeros casos de homossexualidade enrustida, pedofilia, e daqueles que abandonam a batina porque resolveram se casar, com mulheres, claro. É equivocado, igualmente, achar que o espírita é perfeito porque a doutrina sugere o melhoramento interior do ser. Entenda. Antes de qualquer bandeira levantada, somos todos pequenos bípedes rastejando para amadurecer a mente, os sentimentos, as atitudes, a alma. Um cisco, dizia Chico Xavier de si mesmo.

Embora procure compreender, fico indignada com essa forma de encaminhar a vida, escolhida por grande parte dos indivíduos. Deduzir sem conhecimento de causa, sem saber aonde a criatura andou para se construir assim, pressupor que o outro é só defeito e nada de virtude, é jornada perdida, dor garantida, revide certeiro. Não quer dizer que não se carregue ideologias e algum ônus por empunhar pendões polêmicos. Bial tem qualidades, mas não está livre de limitações nem sabemos onde aperta seu sapato. Daniel, idem. E nós – eu e você? (Adriane Lorenzon)

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