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sexta-feira, 22 de julho de 2011

Dos meus estrangeirismos

(Arte - autoria desconhecida - da capa do álbum Estrangeiro de Caetano Veloso, 1989)

Há palavras soando estranhas pelo vento até o dia em que passam a fazer parte da vida da gente. É o caso de apátrida. Eu sou meio assim, forasteira de mim mesma, uma espécie de sem pátria. Perdi a naturalidade sulista, embora a nacionalidade brasileira permaneça comigo. Meno male. Não pertenço a nenhuma localidade, não caibo em parte alguma. E não caber, neste caso, é o mesmo que tentar usar uma roupa apertada: você não entra nela e ela não serve em você.

Nos lugares onde morei, inúmeras vezes me vi desajustada, inadequada, peixe fora d’água: a conversa não combinava com o que as pessoas queriam ouvir, a vestimenta estava imprópria, a fumaça do cigarro e os gritos nos bares me incomodavam, os anseios de cada um trilhavam veredas distintas, os interlocutores papeavam sobre intensidades particulares que não se assemelhavam às minhas. Como resultado, pessoas se perderam no caminho; outras estão chegando. Não é preciso pensar ou sentir igual, mas há que haver sintonia.

Em 2005, Suzana Vieira esteve em Brasília apresentando um monólogo. A peça se chamava Água viva com base em obra homônima de Clarice Lispector. Na entrevista de divulgação, a atriz expressou palavras mágicas: “não pertencimento”, “inadequação”... Fui ver o espetáculo teatral que discorria exatamente sobre as profundas angústias adrianescas e eu ia me reconhecendo nelas. Fantástico! Alguém estava falando, finalmente, sobre tema que ninguém das minhas relações abordava. Eu já me achava uma criatura de outro planeta...

Em seguida, liguei para uma amiga e contei o que se passava. Raquel logo concluiu: “É isso, Dri! Eu entendo. Inadequação é a palavra”. Ufa! Não era sem tempo! Os livros são perfeitos, porém, de vez em quando precisamos de alguém que nos dê a mão para atravessar a rua. Sim, Lispector é importante, mas Raquel me acompanha em tal percurso de corpo presente. Aliás, eu e Raquel vivenciamos o não pertencimento. Das pessoas com quem me relaciono, somos as únicas que compartilham esse conflito da alma. Ninguém ousa ou sabe conversar sobre.

Naquele período cheio de intensidades, quando viajava, ia a um jantar, conversava com um colega de trabalho, a coisa não fluía, apesar do carinho e respeito. As inconveniências iam crescendo como barriga de mulher grávida. Pensava: uma hora vem a furo. Qual o quê?! O desajuste estava apenas começando. Ao decidir residir no Sul, em 2009, o agito interior se potencializou. A coisa foi tomando corpo e ganhando espaço. E eu me percebia cada vez mais estrangeira de mim mesma.

Hoje, de volta ao “quadradinho de Goiás”, como a capital federal é conhecida, sigo como os inúmeros irmãos de outros países que aqui se concentram em consulados, embaixadas e escritórios de nações várias. Mudei a cultura original; o tradicionalismo gaúcho que antes era mezzo mezzo se desfez em pó. Lá não sou gaúcha; aqui, não sou brasiliense nem filha de candango, nordestina, mineira – porque ser de Brasília é trazer em si uma identidade. Bingo! Eis a questão...

Devido a esse estrangeirismo, quem me conheceu cobra o que não posso continuar a sustentar, algo uno e fácil de bater o carimbo, colar a etiqueta. Tornei-me cidadã do mundo. Não me enquadro em uma só cidadania. Daí eu me definir apátrida. Começo a entender: depois de se viver o não pertencimento pode-se morar em qualquer canto e tudo estará certo. Tenho conhecimento de causa: fiz cerca de cinco dezenas de mudanças – sou perita em carregar caixas para cima e para baixo, encher o carro e pegar a estrada.

Agora não careço declarar proveniência de uma região específica – perdi a identidade. Isso é extraordinário, libertador! É a própria liberdade quando não há mais necessidade de rótulos, caixinhas de enquadramento, gavetas numeradas. Possuo um documento diferente atestando múltipla cidadania. É fabuloso! Dá uma sensação de pertença de volta, mas como nunca antes. Então, entre um povoado e o globo, escolho todas as aldeias da grande bola azul do universo.  E vou rumando sempre em frente...

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