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quinta-feira, 1 de agosto de 2013

A solidão de acordar cedo

(Foto: autoria desconhecida)

Longe de mim a insônia, contudo tenho o hábito de levantar cedo. Aliás, despertar também. Antes de pular da cama, estou de olhinhos bem abertos, adivinhando figuras no escuro da noite. Muitas vezes, escuto galos a cantar, cães e seus latidos amedrontadores, corujas dando um último rolé na madrugada; e a moto do jornaleiro, o apito do trem ao longe... Além de sabiás e tico-ticos prenunciando a alvorada.

Ao computador escrevendo e produzindo logo cedo, de vez em quando olho em direção à janela para ver se o dia finalmente apareceu. A noite é como um filho à espera da mãe que nunca chega do trabalho. Então, mirando a janela, o escuro ainda se faz negro. Entretanto, quando vislumbro no horizonte os primeiros raios de sol, a manhã que principia, ouço o alarido dos pássaros, é como se algo me acalentasse.

Nessas horas – cinco ou seis da matina – sinto uma vontade louca de ligar para os amigos distantes. Sempre tem alguém espalhado por esse mundão, que eu adoraria estar conversando naquela horinha exata que meu coração está mais aberto ao diálogo fraterno, às elucubrações pueris, à construção de projetos de mundo melhor. Mas todos estão dormindo ou achando curtíssimo o período na horizontal.

Minha mãe costumava me ligar cedinho. Seis e meia da manhã tocava o telefone. Eu, no Planalto Central; ela, na fronteira gaúcha. Além de sua terna voz, ouvia o ronquinho da bomba de chimarrão, só para me provocar – dizia. Sem pretensão, contava-me que estava ouvindo música clássica ou o canto dos pássaros. Minha gata Penélope, outro amor de uma vida inteira, também não deixava por menos nessas horas. Miava insistentemente, queria companhia – estava cansada de curtir a escuridão sozinha.

O princípio do dia me dá ânimo para produzir compulsivamente – e ponho-me a escrever nesse mar revolto que é a vida. Construo moinhos de vento com meu amigo Cervantes, rego as rosas do jardim auxiliada pela mão iluminada de Exupéry, e vou me dando conta de como é solitário, porém extremamente produtivo, acordar cedo sem encontrar ressonância disponível nas redes sociais, ao alcance do celular... E solidão por solidão, o poeta Camões já dizia que é solitário [até] andar por entre a gente. (Adriane Lorenzon)

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